GUERRA URBANA
Governo reforça segurança em Mossoró após alta de 60% nos homicídios
Cidade vive rotina de execuções, sequestros e famílias expulsas; MP alerta para atuação de facções nacionais.
Com um aumento alarmante de 60% nos homicídios durante os quatro primeiros meses do ano, Mossoró enfrenta uma guerra implacável entre facções criminosas pelo domínio territorial, mergulhando a população em um ciclo de medo e insegurança. Diante deste cenário devastador que expulsa famílias e aterroriza o comércio, o Governo do Rio Grande do Norte decidiu reforçar a estrutura de investigação na cidade, alocando dez policiais para atuar exclusivamente nos crimes contra a vida, conforme noticiado neste domingo, 03/05/2026.
A violência impõe uma rotina de tiroteios diários, execuções à luz do dia, perseguições a veículos roubados e casas metralhadas. Pichações com siglas de facções em bairros periféricos sinalizam o controle territorial e o avanço de uma onda criminosa que afeta profundamente a vida de trabalhadores, no comércio e na dignidade das famílias, que vivem sob a sombra constante do terror. As informações são da Tribuna do Norte.
O avanço da criminalidade acendeu um alerta nas autoridades, levando o governo estadual a esta medida emergencial para tentar conter a escalada. Os dez policiais foram distribuídos entre três delegacias especializadas na região Oeste, com o objetivo de intensificar as investigações e dar uma resposta mais célere aos crimes.
A crueldade dos crimes se manifesta em sequestros de jovens, submetidos a um macabro “tribunal do crime” – um processo de interrogatório filmado e exposto em redes sociais antes da execução brutal, desumanizando as vítimas e aterrorizando seus entes queridos. Foi o que aconteceu com os irmãos Antony Michell Mendonça Medeiros, de 19 anos, e Andrei Mizael Mendonça Medeiros, de 16. No dia 18 de abril, eles foram sequestrados de sua casa, no bairro Cidade Oeste. Imagens gravadas dentro do veículo circularam amplamente antes que seus corpos fossem encontrados em uma estrada na região da Alagoinha.
Poucos dias depois, no sábado, 25 de abril, outro caso chocante abalou a cidade. Randerson Jardel Bezerra da Silva foi raptado de um terreiro de umbanda, no bairro Alto da Pelonha, por homens encapuzados e armados com armamento pesado. Vídeos de sua execução circularam em grupos de mensagens. Em uma cena de partir o coração, na segunda-feira seguinte, a mãe do jovem, aos prantos e de joelhos, suplicou à delegacia de Polícia Civil por autorização para enterrar o corpo do filho. O cadáver foi localizado no dia seguinte, em um terreno no bairro Costa e Silva.
Para o Ministério Público, o cenário reflete uma disputa territorial cada vez mais acirrada entre organizações criminosas. O promotor de Justiça Ítalo Moreira, atuante no Tribunal do Júri da Comarca de Mossoró e especialista em crimes contra a vida, detalha o cenário alarmante: “Duas facções principais atuam na cidade, sendo o Sindicato do RN e o Primeiro Comando da Capital – PCC. Mas existem outras facções locais com poder reduzido a um ou outro bairro específico, como os Caveiras e Caio Bonde Cabeça. Além disso, há registros de uma atuação progressiva da facção cearense Guardiões do Estado – GDE. Essas facções por vezes selam algumas alianças entre si visando aumentar poder. As maiores facções que atuam em Mossoró fazem parte de uma estrutura nacional, ainda que em parceria com facções maiores, como é o caso do Comando Vermelho. O crime organizado é uma realidade nacional”.
O promotor ressalta que, apesar dos esforços e das condenações obtidas pelo sistema de Justiça, a reposição constante de integrantes das facções dificulta os esforços para conter a violência. “Temos que ser realistas, o número de criminosos envolvidos com o crime organizado e que estão livres e atuando é bem maior do que aqueles que estão cumprindo pena. Infelizmente o Estado, através de seus vários órgãos de atuação, ainda não conseguiu dar um resultado que se possa dizer satisfatório, apesar de todos os esforços que vêm sendo feitos”, disse.
Ítalo Moreira também aponta que o enfrentamento ao crime organizado exige medidas estruturais e de longo prazo. “A efetividade no combate às organizações criminosas é uma luta constante em todo o Brasil, mas de solução complexa. Muitos, de forma oportunista, pregam soluções fáceis e rápidas, longe de serem exequíveis. O caminho passa por uma ação integrada de todos os órgãos responsáveis, melhoramento da estrutura e tecnologia nas investigações, que são a base para obtenção da responsabilização criminal, com condenação dos autores de ilícitos, valorização e treinamento constante dos policiais, que fazem parte da linha de frente no combate ao crime, identificação e punição rápida e exemplar de agentes públicos que, desviando-se de suas funções, são cooptados pelo crime organizado e passam a atuar em seu favor, além de uma legislação que permita resultados mais céleres e eficazes. Não é algo simples, mas é o caminho.”
Nas ruas de Mossoró, a população convive com o medo e com a incerteza. A guerra por territórios segue avançando, deixando um rastro de violência que já marca 2026 como um dos anos mais críticos da segurança pública no município. Com a escalada da violência, a tendência é que o primeiro semestre do ano termine com 70 assassinatos, um cenário que exige atenção redobrada e ações contínuas das autoridades.
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