Confira essa história: Como Fortaleza se tornou a região metropolitana mais violenta do Brasil
EM 2017, REGIÃO METROPOLITANA DE FORTALEZA REGISTROU 86,7 HOMICÍDIOS PARA CADA 100 MIL HABITANTES, MAIOR TAXA DO PAÍS Direito de imagem: JOSÉ CRUZ/AG. BRASIL
"Quem for CV aqui vai morrer!"
Em um fim de tarde em novembro de 2018, na periferia da região sudeste de Fortaleza, duas mulheres e um homem anunciavam um assalto em um ônibus da linha 653-Santa Fé que passava pela BR-116. Além de recolher as bolsas e celulares dos passageiros - a grande maioria de moradores da região - os bandidos ameaçavam matar quem entre eles fosse membro do Comando Vermelho, facção criminosa nascida no Rio de Janeiro que atua no Ceará. No ano passado, os assaltos a ônibus como aquele, em que motorista e cobrador foram rendidos por bandidos armados, caíram pela metade na capital cearense - foram de pouco mais de 6 por dia para 3. O número, entretanto, fazia pouco sentido pra quem estava dentro do coletivo naquela hora. De acordo com o Sindiônibus, que representa as empresas do setor, as áreas próximas da rodovia federal continuavam visadas pelos criminosos. E não por acaso: a periferia no extremo sudeste da cidade é uma das regiões mais disputadas pelas facções criminosas que promoveram ataques na capital cearense por quase 30 dias consecutivos no primeiro mês de 2019. O mesmo rio Cocó que serpenteia por bairros nobres de Fortaleza antes de desaguar no mar da Praia do Futuro é a divisa natural de duas grandes áreas de influência do crime organizado no trecho antes da arena Castelão, onde o turismo não chega.
'Morria muita gente aqui'
A diarista Márcia*, que estava no ônibus sequestrado pelos bandidos quando voltava do trabalho, viu pela primeira vez as inscrições "CV" nos muros próximos à sua casa no Santa Fé há cerca de dois anos. "Eu não sabia nem o que era aquilo." Ela demorou a entender que aquelas iniciais estavam por trás do "acidente" que levou o irmão de um conhecido a perder uma perna e do assassinato brutal do marido de uma amiga, espancado até a morte com uma ripa de pau, à noite, no meio da rua. "Morria muita gente aqui."
QUASE 60% DOS MORADORES DO CONJUNTO SANTA FÉ, QUE ESTÁ NO BAIRRO DO ANCURI, NÃO COMPLETARAM O ENSINO FUNDAMENTAL - Direito de imagem: REPRODUÇÃO/GOOGLE
Campo de concentração de flagelados da seca
O Conjunto Palmeiras tem origem na década de 1970, conta o professor do departamento de Arquitetura da UFC Renato Pequeno, quando a prefeitura de Fortaleza dá início a um processo de "periferização" de favelas localizadas em áreas da cidade que começavam a se valorizar. Os primeiros moradores do bairro vinham do Arraial Moura Brasil, uma favela à beira mar que foi parcialmente removida e deslocada para o conjunto habitacional nos limites da cidade, a 17 km. No lugar dela surgiriam, anos mais tarde, a avenida Leste-Oeste e o Marina Park, ainda hoje o hotel mais luxuoso da cidade. Visada pelo mercado imobiliário nos anos 70, essa área também nasceu em um contexto de pobreza e exclusão, destaca o pesquisador do Observatório das Metrópoles, muito anterior às remoções violentas patrocinadas pelo Programa Integrado de Desfavelamento (PID). Antes de ser Arraial Moura Brasil, a comunidade tinha sido o Campo do Urubu - um dos 7 campos de concentração erguidos no Ceará nas primeiras décadas do século 20 para aglomerar os retirantes da seca que vinham do interior do Estado e "higienizar" a paisagem urbana. "Fortaleza já nasceu segregada", diz Pequeno.
OS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO ERAM CONSTRUÍDOS PELO DEPARTAMENTO NACIONAL DE OBRAS CONTRA A SECA (DNOCS) - Direito de imagem: DIVULGAÇÃO
OS ATAQUES PROMOVIDOS NO INÍCIO DO ANO, CRIMINOSOS INCENDIARAM CAMINHÃO CARREGADO DE FRANGOS VIVOS Direito de imagem: PAULO WHITAKER/REUTERSDo vazio demográfico ao vazio do Estado
Vizinha do Conjunto Palmeiras, Beth* lembra quando chegou ao conjunto Santa Fé, no início dos anos 90. Não havia coleta de lixo e a Cagece distribuía água um dia sim, outro não - os moradores recorriam a uma "cacimba" nas proximidades quando as torneiras secavam. Nos anos 2000, o serviço foi regularizado, três ruas como nomes de santas ganharam calçamento - Nossa Senhora de Lourdes, de Fátima e Aparecida - e, com pressão de uma igreja batista, a IBC, foi aberto um posto de saúde. O pastor Armando Bispo, nascido na zona norte de São Paulo e com passagem pelos Estados Unidos, chegou ao conjunto habitacional em 98, quando decidiu tirar a igreja do ginásio de uma escola particular no bairro nobre do Papicu e levá-la a um lugar onde pudesse cumprir a "verdadeira vocação" de cuidar do outro. "Foi quando a gente tomou a decisão de mudar para uma região considerada perigosa, abandonada, terra de ninguém." O terreno de 210 mil metros quadrados em que até hoje funciona a igreja costumava ser um local de depósito de cargas roubadas de caminhões de cruzavam a BR-116. Beth está entre os moradores que falam com entusiasmo da chegada da IBC. As latas de lixo instaladas na calçada ajudam a suprir a deficiência da coleta feita pela prefeitura e o espaço para as crianças durante o culto alivia o fardo das mães que trabalham e cuidam da casa. "O pastor Armando não se intimida com bandido", diz ela. "O 'código de ética' do tráfico é não mexer com a igreja evangélica, e aqui não é diferente", sentencia o pastor. Uma de suas histórias preferidas é sobre um menino de 14 anos que vinha causando problemas no bairro no ano passado. "Eu peitei ele, disse que não adiantava ficar ameaçando todo mundo. Quando cheguei na casa do garoto, a 300 metros da igreja, eram 9 pessoas vivendo em um quadrado. O banheiro era um buraco no quintal." Com a ajuda da Casa de Misericórdia, a IBC ajudou a família a construir uma residência melhor, e vem fazendo isso gradativamente com moradores do conjunto. "Um quarto das casas aqui não tem banheiro."
O QUE A GENTE VÊ AQUI É A AUSÊNCIA ABSOLUTA DO PODER PÚBLICO', DIZ O PASTOR ARMANDO Direito de imagem: DIVULGAÇÃO/IBCToque de recolher
Dominado pelo tráfico, o Santa Fé é considerado por boa parte dos moradores um lugar "tranquilo, por incrível que pareça". A disputa por território com os rivais da GDE, que domina o Conjunto das Palmeiras, e as punições àqueles considerados traidores fazem dos homicídios violentos parte do cotidiano, mas "eles se matam entre eles". O medo, entretanto, regula a rotina.
BOA PARTE DO SANTA FÉ TEM SANEAMENTO INADEQUADO Direito de imagem: REPRODUÇÃO/GOOGLE
A chegada do Minha Casa, Minha Vida
Os relatos de recrudescimento da violência entre os moradores do Santa Fé coincidem com a inauguração, em 2016, de um conjunto habitacional do Minha Casa Minha Vida (MCMV) do outro lado do anel viário, no bairro Pedras. Hoje com 5 mil unidades, o Alameda das Palmeiras ganhou as manchetes locais quando, em 2017, um motorista de Uber foi morto a tiros na entrada do conjunto. Guilherme Maia, na época com 22 anos, não viu o aviso no muro: "Adentra, tire o capacete e, carro abaichi (abaixe) os vidros. Se roubar na favela, morre. Assinado, crime 745 (sic)". Os números seriam uma suposta alusão à GDE. Em dezembro do mesmo ano, dois corpos carbonizados foram encontrados também na entrada da comunidade. "Aquele lugar foi construído de uma forma estranha, só tem uma entrada, um beco", diz o pastor Armando Bispo. O professor Renato Pequeno ressalta que, até 2012, os projetos do MCMV na capital cearense tinham no máximo 500 unidades. Depois de um pedido feito pelas construtoras participantes do programa, a Caixa subiu esse limite para 5 mil. "Aí você tem esses conjuntos enormes construídos em locais afastados - porque as empresas vão procurar os lugares mais baratos possíveis pra construir - e praticamente sem equipamentos públicos no entorno", ele critica. Outra questão, acrescenta Clarissa Freitas, é a "privatização dos espaços públicos" nos empreendimentos, que são todos murados. "A polícia só entra lá com mandato." Assim como o Alameda, conjuntos como o Cidade Jardim I e II, cada um com cerca de 5,5 mil unidades, e José Euclides da Cunha, com 5 mil, hoje são dominados por facções criminosas. São frequentes os casos de expulsões de moradores por traficantes, que revendem os imóveis ou os repassam para amigos e parentes. Em ação movida na Justiça Federal para devolver as residências aos proprietários legais, promotores do Ministério Público Federal e Estadual ponderaram que a Caixa Econômica não deveria financiar empreendimentos em áreas sem infraestrutura.Região metropolitana
A história da periferia de Fortaleza transborda para a região metropolitana, onde os índices de homicídio são ainda maiores do que na capital. Fabiano Lucas, pesquisador do departamento de Geografia da UFC que trabalhou com dados de mortes violentas da RM antes do contexto das facções criminosas, ressalta que os municípios em pior situação são aqueles mais integrados à dinâmica de Fortaleza - cidades como Maracanaú, Caucaia e Eusébio. A região metropolitana soma 18 municípios - em praticamente todos eles, o índice de homicídios passa de 100 para cada 100 mil habitantes. Uma dessas cidades, Aquiraz, foi palco do assassinato de um dos líderes do PCC. Em fevereiro de 2018, o corpo de Gegê do Mangue - que morava em um condomínio fechado na região - foi encontrado em uma reserva indígena no município. "Nós tivemos grandes apreensões no Porto das Dunas (localizado no município de Aquiraz), e não por acaso: o lugar é uma cidade estruturada praticamente sem nenhum controle (do Estado)", diz uma fonte ligada à Segurança Pública do Estado de Ceará que não quis se identificar. Gegê do Mangue não foi o único chefe da facção paulista que passou pelo Ceará: dois anos antes, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior - irmão de Marcola, apontado como número 1 da facção paulista - foi preso na cidade de Fortaleza. Ele, o irmão e outros 20 líderes do PCC foram transferidos em fevereiro do presídio de Presidente Venceslau (SP) para penitenciárias federais em Porto Velho (RO), Brasília e Natal (RN).A segurança e a sensação de segurança
Em paralelo à pobreza e à total ausência de Estado nas regiões tomadas pelo tráfico, duas fontes ligadas à Segurança Pública apontaram falhas na política penitenciária e na gestão das polícias como as razões por trás do aumento exponencial da violência em Fortaleza na última década. Ambos destacaram que diferentes gestões deram prioridade à sensação de segurança - com criação de dispositivos como o Ronda do Quarteirão, implantado na gestão Cid Gomes (PROS), e o Batalhão de Policiamento de Rondas de Ações Ostensivas e Intensivas (Raio), ampliado no governo de Camilo Santana (PT) - em detrimento da segurança em si. Teria faltado investimento em inteligência e a promoção da integração das polícias. "Eles demoraram a admitir que existia facção no Ceará", acrescenta uma das fontes, ligada à polícia militar. As apreensões de drogas com identificação do PCC no Estado começaram a pipocar em 2010, diz ela. O CV teria chegado ainda antes. A administração das penitenciárias do Estado também foi criticada. Nesse sentido, eles citam desde a separação dos detentos por facções dentro dos presídios - a promessa de revogação dessa prática prometida pelo novo secretário de Administração Penitenciária, Mauro Albuquerque, é apontada como uma das razões para a sequência de ataques realizados no Ceará em 2019 - a um excesso de permissividade dentro da cadeia.
AO ASSUMIR A SECRETARIA DE ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA, MAURO ALBUQUERQUE AFIRMOU QUE OS PRESOS NÃO SERIAM MAIS DIVIDIDOS POR FACÇÃO NAS CADEIAS DO ESTADO Direito de imagemPAULO WHITAKER/REUTERSGostou desta notícia?
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