CIÊNCIA NA PRÁTICA

Exame de sangue pode prever risco de câncer de pulmão até 5 anos antes do diagnóstico

Cientistas analisam amostras de sangue para detectar sinais precoces de câncer de pulmão.
Pesquisadores criam exame de sangue que pode detectar sinais precoces de câncer de pulmão.

Pesquisa inédita identifica 14 proteínas no sangue que, combinadas com histórico, preveem desenvolvimento da doença com até 5 anos de antecedência.

Um avanço significativo na detecção precoce do câncer de pulmão foi anunciado nesta terça-feira, 30/06/2026. Uma equipe internacional com mais de cem cientistas, liderada por Charles Swanton do Francis Crick Institute, no Reino Unido, conseguiu identificar um padrão em 14 proteínas no sangue que pode prever o risco de desenvolvimento da doença com até cinco anos de antecedência ao diagnóstico convencional.

O achado, detalhado na edição de 25 de junho da revista científica Cell, representa um passo crucial em direção a um exame de sangue capaz de antecipar o tipo de câncer que mais afeta a população mundial, com potencial para tornar a doença mais evitável no futuro. O oncologista brasileiro Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e membro da Americas Health Foundation, classificou a pesquisa como uma das mais promissoras para a prevenção do câncer nos últimos anos, embora ressalte o longo caminho até sua aplicação clínica.

A base do estudo foi o Biobanco do Reino Unido, um acervo de amostras de sangue e informações de saúde de centenas de milhares de voluntários. Utilizando um algoritmo de inteligência artificial, os pesquisadores analisaram cerca de 3 mil proteínas nessas amostras, reduzindo o foco para 14. Quando combinadas com dados como idade, histórico de tabagismo e presença de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), essas proteínas demonstraram maior precisão na previsão de desenvolvimento de câncer de pulmão do que os modelos de risco atuais.

A validade do padrão foi confirmada em oito outras populações nos Estados Unidos, China e Islândia, totalizando mais de 55 mil participantes. Notavelmente, em um grupo de não fumantes em Taiwan, parte dessas mesmas proteínas sinalizou risco elevado, indicando um potencial para identificar indivíduos em risco que atualmente não são cobertos pelos protocolos de rastreamento.

O oncologista Stephen Stefani explica que a assinatura dessas 14 proteínas não detecta o tumor em si, mas sim um estado inflamatório no organismo que cria um ambiente propício ao seu surgimento. Essa inflamação e o reparo tecidual podem ser desencadeados por fatores como poluição, tabagismo ou mutações genéticas silenciosas, mesmo antes que células cancerígenas se manifestem. A variação biológica individual na resposta a esses gatilhos é o que essa nova abordagem busca capturar.

A pesquisa sugere que a exposição à poluição do ar pode desempenhar um papel significativo, desencadeando respostas inflamatórias no pulmão que tornam as células mais suscetíveis à transformação tumoral, especialmente em indivíduos com DPOC ou fibrose pulmonar. Essa descoberta aponta para uma raiz inflamatória comum entre essas condições.

Atualmente, as diretrizes de rastreamento de câncer de pulmão focam em tomografias de baixa dose para fumantes ou ex-fumantes com histórico considerável. A nova assinatura proteica poderia ampliar o alcance desse rastreamento, identificando indivíduos dentro e fora desses critérios que poderiam se beneficiar de exames de imagem mais precoces.

Apesar do entusiasmo, os pesquisadores alertam para a necessidade de cautela. A assinatura proteica ainda é um resultado de pesquisa e exige anos de validação para se tornar um teste clínico confiável. Não se trata de um diagnóstico definitivo, mas de um indicativo de predisposição que não isenta os indivíduos de continuarem com hábitos saudáveis e cuidados médicos. A validação em populações mais amplas e a comprovação de que a modificação dessa assinatura reduz o risco da doença são passos fundamentais para sua aplicação futura.

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