SAÚDE EM COLAPSO
Crise pré-existente na Venezuela agrava impacto de terremotos na saúde
Decisão de gestores públicos e sanções econômicas comprometem atendimento a vítimas de abalos sísmicos. A infraestrutura hospitalar já estava precária.
A Venezuela já enfrentava uma profunda fragilidade em seu sistema de saúde muito antes de dois terremotos consecutivos atingirem o país. As consequências de mais de uma década de má gestão governamental e sanções econômicas são visíveis no Hospital Infantil Dr. José Manuel de Los Ríos, em Caracas. Lá, a médica Huníades Urbina-Medina consegue atender apenas quatro crianças por vez na unidade de terapia intensiva, um número drasticamente reduzido em comparação com os até 10 pacientes que antes eram recebidos.
A falta de pessoal, medicamentos e ventiladores mecânicos suficientes se tornou uma realidade há pelo menos 10 anos, impactando diretamente o tratamento de pacientes como uma menina de 12 anos, esmagada sob os escombros de um prédio desabado. Ela é uma das quatro em tratamento intensivo, lutando contra lesões que ameaçam sua vida.
Desde a última quarta-feira (24), o hospital atendeu cerca de 100 crianças em diferentes unidades, uma fração dos feridos pelos abalos. As autoridades venezuelanas têm divulgado gradualmente o número de vítimas, que já ultrapassa 1.700 mortos e mais de cinco mil feridos. O Serviço Geológico dos Estados Unidos estima que os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 possam ter causado dezenas de milhares de mortes, um número que talvez nunca seja conhecido com exatidão, assim como ocorreu com a tragédia em La Guaira em 1999.
O governo prorrogou o fechamento das escolas, e informações preliminares indicam que 432 instituições de ensino em Caracas foram danificadas. As escolas intactas estão servindo como abrigos temporários para os milhares de desabrigados, evidenciando a precariedade das estruturas e a necessidade urgente de soluções.
Nenhum hospital na Venezuela estava preparado para uma emergência de tal magnitude. "Nenhum hospital na Venezuela está preparado para o dia a dia", afirmou Urbina-Medina à CNN, ressaltando que a catástrofe intensifica a crise pela falta de medicamentos, pessoal e equipamentos. Antes dos terremotos, o governo frequentemente defendia o sistema nacional de saúde, atribuindo as falhas às sanções impostas pelos Estados Unidos.
Outros profissionais de saúde compartilham o mesmo relato. O dr. Andrés Cortiz, voluntário da Healing Venezuela, organização beneficente britânica, informou que oito hospitais em Caracas foram fechados, e os demais operam sobrecarregados, com falta de materiais básicos de limpeza. Essa situação é agravada pela fuga de cérebros, que levou muitos profissionais qualificados a deixarem o país em busca de melhores oportunidades. Recentemente, a Venezuela encerrou a missão médica cubana, cortando um recurso essencial para comunidades carentes.
A busca por sobreviventes sob os escombros continua, mas o odor dos corpos em decomposição paira sobre as ruínas. Famílias acampam ao redor dos montes de concreto e vergalhões, aguardando notícias. Mirella Herrera, por exemplo, espera diariamente pelo seu filho, sua esposa e seus netos, soterrados após o desabamento do prédio onde moravam. A angústia é visível, mas a esperança de encontrá-los vivos se mantém, mesmo após cinco dias do desastre, quando a "janela de ouro" para resgates já passou. Ao menos 12 pessoas morreram no prédio dela, três foram resgatadas e 20 permanecem desaparecidas.
Um novo terremoto, de magnitude 4,6, acordou a Venezuela na madrugada de segunda-feira (29). Embora o governo tenha assegurado que não causou danos, o tremor secundário gerou apreensão e impediu o retorno de muitas famílias às suas casas, mesmo as que não foram destruídas. Rachaduras em prédios e a incerteza sobre a segurança das edificações aumentam a vulnerabilidade da população.
O governo utiliza um código de "semáforo" para indicar o nível de dano em prédios: verde para habitável, amarelo para moderadamente danificado e vermelho para inseguro. No entanto, a incerteza prevalece para muitos, como Soledad Campos Aparicio, de 78 anos, que espera do lado de fora de seu prédio, vizinho ao complexo La Petúnia, desabado. As autoridades não permitem o retorno dos moradores, apesar da vontade de voltar para casa.
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