REPUTAÇÃO

América Latina reavalia aliados: China cresce em prestígio, EUA e Europa perdem

Gráfico comparativo de reputação de potências globais na América Latina em pesquisa.
Gráfico mostra a ascensão da China e a queda de EUA e Europa no prestígio latino-americano.

Relatório de fundações alemã e latino-americana aponta que 24,2% dos latino-americanos preferem a China, que também ultrapassa os EUA como referência de desenvolvimento.

Uma nova pesquisa divulgada pela fundação alemã Friedrich-Ebert-Stiftung, a publicação latino-americana Nueva Sociedad e o grupo Diálogo e Paz revela uma mudança significativa na percepção da América Latina sobre as potências globais. Em um cenário mundial de crescente instabilidade e conflitos, com um mundo percebido como mais hostil, incerto e menos regulamentado, a China ganha prestígio, enquanto Estados Unidos e países da Europa veem sua reputação diminuir, impactando as relações internacionais e a busca por novos modelos de desenvolvimento, nesta quarta-feira, 22 de abril de 2026.

A pesquisa, que entrevistou 12 mil pessoas com oito ou mais anos de escolaridade em dez países da América Latina — Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, México, Uruguai e Venezuela —, foi implementada pela consultoria chilena Latinobarômetro, com margem de erro de três pontos percentuais.

Entre as sete potências analisadas, a China foi a única a ver seu prestígio aumentar em comparação com o levantamento anterior, realizado em 2022. Ao serem questionados sobre seus países de preferência, 24,2% dos latino-americanos elegeram a nação asiática, que, mesmo na quinta colocação, registrou um salto notável de 6 pontos percentuais em quatro anos.

Espanha (30,8%) e EUA (30,6%) ainda lideram a lista, seguidos de perto pela Alemanha (30,2%) e França (24,9%), que se mantêm empatadas dentro da margem de erro. Contudo, todas essas nações enfrentaram quedas significativas, de dois dígitos percentuais, em sua reputação no período analisado. Reino Unido (20,8%) e Rússia (10,1%) completam a lista, também com desempenho pior na pesquisa mais recente.

A ascensão da China é ainda mais evidente quando o foco é o desenvolvimento. Na categoria de referência para progresso, o país asiático conquistou 36,1% das escolhas dos entrevistados, superando os EUA (31,5%). Enquanto Pequim viu sua aprovação subir 7 pontos percentuais, Washington registrou uma expressiva queda de 13 pontos percentuais. Japão (31,8%) e Coreia do Sul (15,8%) também tiveram um crescimento positivo, mas mais discreto.

Os entrevistados percebem a China como líder em áreas cruciais como educação, ciência, tecnologia e inteligência artificial. Já os EUA, embora ainda reconhecidos por seu peso econômico e militar, enfrentam uma crescente desconfiança e uma avaliação negativa de sua liderança política.

"A América Latina está olhando mais positivamente para a Ásia do que para o Ocidente", afirmou à Folha Monica Hirst, que contribuiu para a produção da pesquisa. Ela destaca que "A China não aparece como possível ameaça ou fator de tensão nas visões que a região tem sobre os países do mundo. [No caso dos países asiáticos] não há dúvida de que se trata de uma capacidade tecnológica para âmbito civil, não para âmbito militar."

As entrevistas foram realizadas de 3 de outubro a 18 de novembro do ano passado, antes de eventos geopolíticos de grande impacto, como a ação militar dos EUA na Venezuela, que resultou na captura do então ditador Nicolás Maduro em janeiro, e os ataques americanos em conjunto com Israel contra o Irã, iniciados em fevereiro, que pressionaram os preços globais de energia.

O contexto global, no entanto, já era de profunda instabilidade. Os EUA e nações europeias como Espanha, Alemanha e França, membros da Otan, apoiam a Ucrânia, invadida pela Rússia em fevereiro de 2022. Washington também é o principal aliado de Israel, cujas ações após o atentado terrorista do Hamas, em outubro de 2023, desencadearam uma grave crise humanitária na Faixa de Gaza e em países vizinhos.

Segundo a pesquisa, as sociedades latino-americanas percebem um mundo em turbulência, onde conflitos se intensificam, as regras internacionais se enfraquecem e a lógica da força ganha terreno, gerando uma sensação palpável de insegurança e imprevisibilidade no cotidiano.

A incerteza (citada por 40% dos entrevistados) predomina na região em relação à situação atual do mundo, e as percepções negativas (32%) superam as positivas (22%).

Quando questionados se o mundo segue na direção correta, 78% dos entrevistados manifestaram discordância, enquanto apenas 16% concordaram e 6% não souberam responder.

A maioria dos latino-americanos também concorda com frases alarmantes como "Começou uma era de guerras e de conflitos no mundo" (70%) e "Leis e normas internacionais já não são relevantes" (53%), demonstrando uma preocupação generalizada com a ordem global.

Donald Trump, ex-presidente dos EUA, registrou a maior desconfiança entre os latino-americanos ouvidos (25,3%), seguido por Vladimir Putin (12,3%) da Rússia e Nicolás Maduro (4,9%) da Venezuela. O brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi mencionado por apenas 1,3% dos entrevistados.

Os EUA, ao lado da Venezuela, registraram a maior retração na categoria "Avaliação da democracia no mundo", com perda de 1,5 ponto percentual cada. Em uma escala de 1 a 10, onde 1 significa "não é considerado uma democracia" e 10 "democracia plena", Washington marcou 6,2, e Caracas, 2,5. A China, por sua vez, alcançou 4,4, um aumento de 0,4 pontos percentuais em relação a 2022.

"Não há dúvida de que Trump teve um impacto devastador em termos reputacionais", reiterou Hirst. O levantamento indica que os latino-americanos, especialmente do México e países da América Central, consideram as políticas do republicano prejudiciais para o cenário global.

A Europa, por sua vez, mantém seu perfil como referência na defesa dos direitos humanos, assistência humanitária e proteção do ambiente, qualidades que ressoam com a busca por dignidade e bem-estar social. No entanto, as percepções sobre seu poder brando, sua autonomia estratégica e sua relevância como modelo de desenvolvimento e de integração enfraqueceram, segundo a pesquisa. Atualmente, a cooperação da América Latina com os europeus já não é vista como algo necessariamente estratégico ou tangível, o que levanta questões sobre o futuro das parcerias e a busca por novos horizontes de desenvolvimento para a região.

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