VIOLAÇÃO
MSF: Israel usou privação de água como arma em Gaza
Organização acusa destruição de 89% da infraestrutura e impactos severos na saúde da população, nesta terça (28).
Médicos Sem Fronteiras (MSF) revelou nesta terça-feira, 28 de abril de 2026, que as forças israelenses usaram a privação de água como arma de guerra na Faixa de Gaza. O relatório "Água como Arma" detalha como a destruição de infraestrutura, obstrução de ajuda humanitária e bloqueio de suprimentos essenciais colocaram em risco a saúde e a dignidade de toda a população local, configurando uma punição coletiva.
A organização ressalta que as ações israelenses comprometeram a segurança hídrica da população por meio de três mecanismos: ataques diretos à infraestrutura de água e saneamento, obstrução do acesso humanitário com deslocamentos forçados e restrições de circulação, e o atraso ou bloqueio sistemático de suprimentos vitais. Dados do Banco Mundial, da União Europeia e da ONU corroboram essa denúncia, indicando que ao menos 89% das infraestruturas essenciais para esses sistemas foram destruídas ou severamente danificadas.
A MSF mantém presença na região palestina desde antes de 7 de Outubro de 2023, data em que o grupo Hamas atacou Israel, desencadeando a guerra de dois anos em Gaza. Suas equipes internacionais permanecem no território, mesmo diante das repetidas ordens de retirada emitidas pelas forças israelenses, atuando incansavelmente em meio ao conflito.
Desde o anúncio do cessar-fogo em vigor, em outubro de 2025, a organização atendeu mais de 15 mil casos de trauma físico em apenas dois hospitais de campanha. Neste período, foram realizados mais de 40 mil curativos em pacientes feridos por traumas violentos, como disparos ou explosões, evidenciando a gravidade da situação humanitária.
O relatório divulgado nesta terça-feira fundamenta suas conclusões em dados médicos coletados nos centros de atenção primária à saúde de Khan Yunis, no sul de Gaza, além de registros de abastecimento e incidentes de segurança da própria MSF. A entidade também compilou métricas dos pontos de distribuição de água que manteve em Gaza durante 2025.
A análise da MSF é categórica: as ações israelenses no território resultaram na inacessibilidade crítica aos sistemas de água e saneamento, configurando uma "punição coletiva da população de Gaza". O documento detalha as consequências diretas e o impacto devastador na saúde, dignidade e segurança da privação de acesso a água, saneamento e itens de higiene básicos.
Em respostas a acusações passadas similares, as Forças Armadas de Israel afirmaram reiteradamente que seus alvos são instalações do Hamas, negando ter edifícios civis como foco de seus ataques.
Entre maio e agosto de 2025, período posterior a um cessar-fogo ocorrido de janeiro a março do mesmo ano, a MSF realizou 1.073 entrevistas. Os dados revelaram que 23% dos entrevistados enfrentaram alguma doença gastrointestinal no mês anterior ao levantamento, uma taxa significativamente maior do que a observada durante o período de trégua.
As infecções do trato respiratório superior também apresentaram um aumento preocupante, afetando cerca de 22% dos domicílios entre maio e agosto de 2025, em comparação com 27% no final de janeiro a março do mesmo ano.
A crise de infraestrutura, segundo o relatório, afeta profundamente todo o sistema de água e esgoto de Gaza. Com o colapso dos sistemas de saneamento, banheiros improvisados levam à contaminação das águas subterrâneas com resíduos humanos, tornando a água dos poços imprópria para consumo, agravando ainda mais a crise de saúde pública.
Antes da guerra, Gaza possuía uma indústria de água potável bem desenvolvida, incluindo instalações de osmose reversa. Após a destruição dessas estruturas, a MSF relatou tentativas repetidas e frustradas de introduzir novos materiais para tratamento de água no território.
O documento detalha casos em que as forças israelenses negaram ou atrasaram a entrada desses equipamentos, muitas vezes sob "circunstâncias de natureza arbitrária", sem justificativas plausíveis. Em outras ocasiões, caminhões-pipa e poços claramente identificados como da MSF foram atacados, frequentemente durante a distribuição de água à população civil.
Um exemplo alarmante citado pela organização é a reabilitação de um poço e a instalação de uma unidade de osmose reversa em Rafah, capaz de atender quase 16 mil pessoas diariamente. A MSF compartilhou as coordenadas e a finalidade da instalação com as forças israelenses, que confirmaram o registro. Contudo, a equipe foi forçada a deixar a área em março de 2025, e desde então não pôde mais acessá-la, permanecendo sob controle israelense.
"Imagens de satélite mostram que a infraestrutura hídrica da MSF foi completamente destruída, e a região, devastada", descreve a ONG, reiterando a gravidade da situação.
As forças israelenses orquestraram, principalmente nos últimos meses do conflito, uma movimentação em solo que impôs deslocamentos repetidos à maioria da população de Gaza. Em agosto de 2025, o governo de Binyamin Netanyahu aprovou um plano de ocupação da Cidade de Gaza, região que já concentrava quase 50% da população. Tel Aviv afirmou que a operação seria acompanhada do fornecimento de ajuda humanitária para aqueles fora das zonas de combate.
À época, António Guterres, secretário-geral da ONU, expressou "grave alarme" com o plano, alertando para uma "escalada perigosa" que poderia agravar "as já catastróficas consequências" para milhões de palestinos.
A MSF aponta que em setembro de 2025, a "zona humanitária" para onde toda a população de 2,1 milhões de pessoas foi obrigada a se deslocar tinha apenas 43,3 km² – uma densidade populacional de 48,5 mil habitantes por km². Em comparação, a densidade populacional da cidade de São Paulo é de aproximadamente 7.500 habitantes por km².
A organização lista uma série de demandas urgentes, exortando as autoridades israelenses a atendê-las imediatamente. Entre os pedidos, destacam-se a suspensão do bloqueio à entrada de equipamentos em Gaza, a facilitação do trabalho de agentes humanitários e o fim dos deslocamentos forçados da população.
O relatório enfatiza que "Israel é obrigado, nos termos do direito internacional humanitário, na qualidade de potência ocupante, a garantir que as necessidades básicas da população sejam atendidas e a proteger a infraestrutura civil".
Aos Estados-membros da ONU, a ONG solicita apoio nas negociações com as autoridades de Israel e um aumento significativo nas doações para a reconstrução das infraestruturas essenciais no território, visando mitigar a crise humanitária.
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