RISCO GLOBAL
Irã eleva pressão no Mar Vermelho e ameaça rotas de petróleo
Ações de Teerã nos estreitos de Ormuz e Bab-el-Mandeb impactam diretamente um terço do fluxo global de petróleo e mercadorias, reacendendo alertas sobre a segurança energética e a estabilidade econômica mundial.
O governo iraniano intensificou sua postura no Mar Vermelho, elevando a pressão sobre rotas marítimas vitais que sustentam o comércio global. Esta escalada, em um cenário de crescentes tensões geopolíticas, visa reforçar a influência regional do Irã e, se persistir, pode desencadear consequências severas para a economia mundial, ao colocar em risco o fluxo de cerca de um terço do petróleo global e outras mercadorias essenciais.
A região do Mar Vermelho concentra três dos gargalos marítimos mais importantes do planeta: o Canal de Suez e os estreitos de Bab-el-Mandeb e de Ormuz. Juntos, esses corredores são responsáveis por aproximadamente um terço do fluxo global de petróleo, o que significa que quem controla essas passagens detém influência direta sobre o ritmo da economia mundial. Por décadas, o sistema operou sob o princípio do livre comércio marítimo, mas agora enfrenta uma intensa pressão que gera preocupação internacional.
Para Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense e pesquisador de Harvard, o aumento da tensão já evoca comparações com períodos críticos da história, como o choque do petróleo de 1973, a Revolução Iraniana de 1979, a guerra dos petroleiros entre Irã e Iraque nos anos 1980 e a Guerra do Golfo no início dos anos 1990.
“Neste momento, estamos mais próximos dos cenários dos anos 1980 e 1990. Mas a intensificação da guerra e a possibilidade de fechamento também do Bab-el-Mandeb podem nos aproximar dos choques das décadas de 70”, avalia Brustolin, destacando a gravidade da situação.
Como funcionam os 3 gargalos
O Estreito de Ormuz tornou-se o principal epicentro das tensões. Após ser alvo de ataques por parte dos Estados Unidos e de Israel, o Irã começou a restringir a passagem de embarcações na área, inclusive impondo cobranças de pedágios. Em resposta, o então presidente Donald Trump ameaçou retaliar navios com ligações ao país. O que se observa é um cenário de bloqueio contra bloqueio, elevando o risco sobre uma das rotas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo e, consequentemente, afetando a segurança energética global.
Um segundo ponto de pressão é o Estreito de Bab-el-Mandeb, que tem sido palco de ameaças constantes de ataques e de escalada militar. É por essa passagem que os navios acessam o Mar Vermelho e, subsequentemente, o Canal de Suez — uma das conexões marítimas mais importantes entre a Europa e a Ásia. A interdependência dessas rotas é evidente: o Canal de Suez não pode operar plenamente isolado, pois depende do fluxo proveniente do sul. Se o Bab-el-Mandeb for interrompido, Suez se torna um “refém logístico” desse estreito, com impactos que se estendem muito além do petróleo.
“Pelo Estreito de Ormuz passa cerca de 20% do petróleo mundial. Pelo Bab-el-Mandeb, que dá acesso ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez, passa mais 12%. Mas não é só isso: também está em jogo uma rota essencial para o comércio entre o Oriente e a Europa, impactando diretamente os custos de produtos e a estabilidade das cadeias de suprimentos globais”, explica o professor, sublinhando a vasta abrangência do problema.
A Arábia Saudita, por exemplo, investiu em um oleoduto que atravessa seu território, transportando petróleo do Golfo até o Mar Vermelho, como forma de reduzir sua dependência do Estreito de Ormuz. O Oleoduto Leste-Oeste (Petroline) possui capacidade para transportar até 7 milhões de barris de petróleo por dia. No entanto, essa alternativa não elimina completamente o risco. O próprio oleoduto já foi alvo de ataques durante o conflito e, além disso, o petróleo ainda precisa passar pelo Estreito de Bab-el-Mandeb para seguir viagem. Na prática, desvia-se de um gargalo apenas para cair em outro.
O papel do Iêmen na estratégia regional
Embora não exerça controle direto sobre o Mar Vermelho, como ocorre na área do Estreito de Ormuz, o Irã projeta sua influência sobre a região por meio de grupos aliados. No Iêmen, facções armadas ligadas a Teerã estão estrategicamente posicionadas ao lado do Estreito de Bab-el-Mandeb. Essa presença permite ao Irã ampliar sua capacidade de pressão também sobre essa rota estratégica, adicionando uma camada extra de complexidade e risco ao cenário.
Este papel é desempenhado principalmente pelos Houthis, uma milícia aliada que já demonstrou sua capacidade de interferir diretamente no fluxo marítimo. “Os Houthis já fecharam o Estreito de Bab-el-Mandeb, não faz muito tempo, em resposta à guerra entre Israel e o Hamas. Foi necessária uma coalizão de dez países para reabrir o estreito”, relembra Brustolin, evidenciando o poder de bloqueio do grupo e o impacto global de suas ações.
A atuação do grupo faz parte de uma estratégia mais ampla do Irã de apoio a forças aliadas na região, consolidando uma rede de influência que se estende por diversos pontos críticos. “Os Houthis foram treinados e financiados por forças iranianas. Isso faz parte da arquitetura do Irã, que vem desde a era do general Qasem Soleimani, morto durante o primeiro mandato de Donald Trump. É o que se chama de ‘arco da resistência’, que inclui também o Hezbollah, no Líbano, além de grupos como o Hamas e a Jihad Islâmica na Palestina”, completa o especialista, elucidando a complexa teia de alianças e tensões que caracteriza a geopolítica do Oriente Médio.
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