Familiares

Bombardeios de Israel aterrorizam libaneses no Brasil

Vista de destruição em uma vila no sul do Líbano, com famílias deslocadas pela ação militar de Israel.
Família Nahle de Taybeh, Líbano, afetada pelos bombardeios de Israel.

Relatos de destruição e morte abalam comerciantes e acadêmicos. Governo brasileiro pede mais firmeza diante de tragédias.

A escalada do conflito no sul do Líbano, impulsionada por intensos bombardeios de Israel e ações do Hezbollah, mantém milhões de brasileiros de ascendência libanesa em constante aflição. Enquanto um frágil cessar-fogo foi prorrogado nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, a violência incessante já ceifou vidas de civis, incluindo brasileiros, e deixou um rastro de destruição e desespero. O drama vivido pela comunidade libanesa no Brasil revela o profundo impacto humanitário do confronto, que abala a dignidade e a paz de famílias inteiras, distanciadas pela busca desesperada por notícias de seus entes queridos.

"Não sobrou nada, nem um dedo, nada." Com a voz serena e os olhos mirando o vazio, Hussein Nahle narra a morte devastadora de seu sobrinho Abas, de 22 anos, vítima de um brutal bombardeio de Israel na aldeia de Taybeh, no sul do Líbano.

Hussein, de 60 anos, proprietário de uma pequena loja de esfirras em Perdizes, na zona oeste de São Paulo, recorda o ocorrido. O jovem Abas havia ido visitar um amigo que resistia à ordem de retirada emitida pelo Exército israelense. "A vila estava quase vazia, então o avião os avistou e lançou a bomba sobre eles", relata o comerciante, cuja dor transparece na sua voz calma.

Taybeh, uma vila de maioria xiita situada na fronteira com Israel, foi completamente esvaziada e, posteriormente, demolida. Entre os 15 mil moradores desalojados, encontram-se as famílias dos três irmãos de Hussein: Wafa, mãe de Abas, buscou refúgio em Brumana, nas cercanias de Beirute; Wafik e Rafik foram acolhidos por conhecidos em Trípoli, ao norte do país. A dispersão forçada desfez o tecido social e familiar.

O drama de Hussein não é um caso isolado. O Brasil historicamente acolheu o maior número de imigrantes da diáspora libanesa, com ondas migratórias que se sucedem desde o final do século 19. A Associação Cultural Brasil-Líbano estima que a comunidade, entre imigrantes e descendentes, some cerca de 8 milhões de pessoas. Muitas dessas famílias, especialmente as que chegaram nas levas mais recentes, mantêm laços estreitos com seus parentes que permaneceram no Líbano, vivendo uma conexão inabalável com a terra natal.

Para essa vasta comunidade, a ação militar de Israel no sul do país, cujo objetivo declarado é combater o grupo Hezbollah, transcende as imagens e infográficos veiculados no noticiário. Ela se transforma em uma realidade palpável de medo e incerteza. Hussein, que reside no Brasil desde 1997 e é casado com uma brasileira, envia diariamente, ao acordar, mensagens aos irmãos, em uma busca incessante por notícias tranquilizadoras sobre a segurança deles.

Contudo, a resposta nem sempre é positiva. "Os soldados israelenses invadiram as casas e saquearam tudo o que puderam, como televisões, motos e outros pertences", relata o comerciante. Após o saque, os domicílios teriam sido implodidos pelos militares, transformando o lar em ruínas e a memória em escombros.

A professora da USP Safa Jubran, de 63 anos, também mantém um ritual matinal idêntico: buscar notícias tranquilizadoras de seus parentes que ainda residem do outro lado do mundo, vivendo uma angústia diária que se repete a cada amanhecer.

"A guerra impactou drasticamente suas vidas: membros da mesma família ficaram separados quando Israel bombardeou os acessos às cidades do sul. Eles ficaram sem água e sem energia elétrica, vivendo com medo, sem perspectiva e sem saber o que o futuro reserva", descreve Safa à Folha, pontuando a desumanização imposta pelo conflito.

Safa imigrou em 1983, um dos anos mais dramáticos da Guerra Civil Libanesa. A docente revela que, desde o início da mais recente onda de ataques contra seu país de origem, ela não consegue se desligar do noticiário. "Isso acaba prejudicando minha concentração no trabalho", desabafa Safa, cujo ofício exige extrema atenção, sendo ela uma das mais importantes tradutoras da língua árabe no Brasil.

O impacto profundo não se restringe apenas aos libaneses radicados no Brasil, mas estende-se a filhos e netos já nascidos em solo brasileiro. "Eu acho tudo muito triste", afirmou o renomado escritor Milton Hatoum, de 73 anos, em entrevista recente à rádio CBN. Nascido em Manaus, ele revelou ter recebido imagens da casa de um primo que "dá vontade de chorar, porque não sobrou nada", ilustrando a destruição de memórias e lares.

A diáspora histórica resultou também na formação de uma comunidade relevante de cerca de 20 mil brasileiros vivendo no Líbano. No dia 26 de abril de 2026, uma tragédia atingiu severamente essa comunidade, quando uma mãe e seu filho de 11 anos foram mortos por um bombardeio israelense. Ambos visitavam a residência que a família havia abandonado, seguindo as ordens de retirada emitidas por Tel Aviv para o sul do país. Apesar da vigência do cessar-fogo, a casa foi alvejada, ceifando a vida dos dois e ferindo o pai, de nacionalidade libanesa, e outro filho, em um ato que desafia a lógica de qualquer trégua.

A professora Safa Jubran expressa seu desejo por uma resposta "mais clara, firme e contundente" por parte do governo brasileiro. "O posicionamento foi tímido diante da gravidade da situação, especialmente considerando que brasileiros também perderam a vida nos bombardeios", criticou ela, clamando por maior engajamento diplomático.

O Itamaraty, por sua vez, emitiu uma nota oficial, classificando o ataque como "mais um exemplo das reiteradas e inaceitáveis violações ao cessar-fogo anunciado em 16 de abril de 2026". O documento ressalta que tais violações "já resultaram na morte de dezenas de civis libaneses, incluindo mulheres e crianças, assim como de uma jornalista e de dois integrantes franceses da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil)", sublinhando a gravidade da situação humanitária e a desobediência aos acordos internacionais.

Oficialmente, Líbano e Israel estão sob um cessar-fogo que, na prática, nunca silenciou completamente os combates. A ofensiva atual teve início com ataques do Hezbollah ao vizinho do sul, em apoio ao Irã, país que, por sua vez, tornou-se alvo de uma ofensiva de Washington e Tel Aviv a partir de 28 de fevereiro de 2026, delineando um complexo cenário geopolítico.

Enquanto não surge uma perspectiva clara para o fim das hostilidades, mesmo com a trégua prorrogada nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, por mais 45 dias, a comunidade libanesa no Brasil permanece em aflita espera por boas notícias. "É uma mistura de sentimentos: tristeza, raiva, indignação e impotência", resume Safa Jubran, encapsulando o estado de espírito de milhões de pessoas.

Hussein oferece à reportagem uma esfirra de queijo, "come, acabou de sair do forno", antes de partilhar sua tentativa frustrada de convencer os irmãos a virem para o Brasil. A oferta foi recusada. "Nenhum deles quis deixar a família lá", afirma, com um nó na garganta. "E trazer todo mundo é caro demais para quem já perdeu tudo", finaliza, revelando a complexidade da decisão entre a segurança e os laços que os prendem à terra natal.

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