DÍVIDAS EMPRESARIAIS

Serasa Experian revela: empresas do RN enfrentam as dívidas mais altas do Nordeste

Empresário analisando documentos financeiros, simbolizando a crise de endividamento no Rio Grande do Norte e no Brasil.
Ilustração representa o impacto da inadimplência no cenário empresarial brasileiro.

Em fevereiro de 2026, Rio Grande do Norte acumulou R$ 1,82 bilhão em débitos, com dívida média de R$ 20,2 mil por empresa, superando outros estados da região na intensidade dos débitos.

O Rio Grande do Norte confronta um cenário desafiador no panorama da inadimplência empresarial, destacando-se não apenas pelo volume de negócios endividados, mas pela severidade de seus débitos. É o que revela o Indicador de Inadimplência das Empresas da datatech Serasa Experian, cujos dados de fevereiro de 2026, tornados públicos nesta quarta-feira, 29/04/2026, mostram que o estado lidera o Nordeste em indicadores críticos, como a dívida média por empresa e o número de pendências por CNPJ. Este cenário acende um alerta sobre a saúde financeira dos negócios potiguares, com impacto direto na dignidade dos empreendedores e na sustentabilidade da economia local.

Em fevereiro de 2026, o RN registrou 90.093 CNPJs inadimplentes, acumulando impressionantes R$ 1,82 bilhão em débitos. Esses números o colocam na ponta do Nordeste em métricas como dívida média por empresa (R$ 20,2 mil), número de pendências por CNPJ (6,1) e ticket médio (R$ 3.337,11). Tal desempenho contrasta com estados como Bahia, Pernambuco e Ceará que, apesar de possuírem um maior volume de empresas inadimplentes, não atingem o mesmo nível de comprometimento financeiro individual por empresa.

Para Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, essa particularidade exige uma análise mais aprofundada. "Esse resultado mostra que a inadimplência precisa ser analisada não apenas pelo volume de empresas, mas também pela intensidade das dívidas. No caso do Rio Grande do Norte, os dados indicam uma inadimplência concentrada em empresas com dívidas mais elevadas", explica a especialista. Ela destaca a gravidade desse padrão, especialmente em economias com forte presença de pequenos negócios.

"Um ticket médio na casa de alguns milhares de reais, multiplicado por várias dívidas por empresa, representa uma pressão significativa sobre o caixa e torna o processo de recuperação mais difícil", complementa Abdelmalack. Este peso das dívidas dificulta a vida de muitos empreendedores, que veem seus sonhos e esforços comprometidos, afetando não só a prosperidade de seus negócios, mas também o bem-estar de suas famílias e a manutenção de empregos.

O quadro estadual reflete uma tendência nacional de aumento da pressão financeira. Em fevereiro, o Brasil registrou 8,8 milhões de empresas inadimplentes, com 60,7 milhões de dívidas que somam R$ 204,6 bilhões, conforme dados da Serasa Experian. Um ano antes, esse valor era de R$ 164,2 bilhões, indicando um crescimento notável no passivo empresarial do país.

Camila Abdelmalack atribui esse avanço às condições de crédito. "O aumento do volume das dívidas das empresas reflete, principalmente, a combinação entre juros ainda elevados, crédito mais seletivo e maior dificuldade de rolagem de passivos", afirma. A economista ressalta que, apesar da queda da taxa básica de juros (Selic), o custo do crédito para o consumidor final e as empresas continua alto. "Mesmo com o início do ciclo de queda da Selic, o custo do crédito na ponta segue elevado, porque depende também da percepção de risco, dos juros futuros e das condições de funding das instituições financeiras", elucida.

Na prática, esse cenário dificulta imensamente a capacidade das empresas de reorganizar suas finanças. "Nesse ambiente, muitas empresas encontram mais dificuldade para acessar novas linhas, renegociar dívidas antigas ou alongar prazos, o que faz com que os passivos em atraso se acumulem", observa Abdelmalack, sublinhando o ciclo vicioso que aprisiona muitos negócios.

Além do crescimento numérico, os dados apontam um agravamento qualitativo do problema, com dívidas mais concentradas e persistentes. Em média, cada empresa inadimplente no país acumula cerca de sete pendências. "Esse nível de inadimplência indica um ciclo mais longo, em que a regularização financeira depende não só de pagamento pontual, mas de uma reorganização mais ampla do passivo e do fluxo de caixa", aponta Camila Abdelmalack, ressaltando que a recuperação exige um esforço maior e mais estratégico.

Pequenas empresas somam 95% das inadimplentes

O setor de serviços concentra 55,4% das empresas inadimplentes no Brasil, seguido por comércio (32,6%), indústria (8,1%) e setor primário (0,9%). Essa predominância acompanha o peso do segmento na economia e sua forte presença entre micro e pequenas empresas, grupo que representa 95,2% dos CNPJs inadimplentes. Nesse contexto, a vulnerabilidade dessas pequenas e médias empresas é ainda maior: com menor acesso a crédito e maior dependência de capital de giro, elas são as mais impactadas por juros elevados e restrições financeiras, colocando em risco a subsistência de milhões de empreendedores.

Apesar da leve oscilação recente, a inadimplência se mantém próxima do maior patamar da série histórica. Para a economista, ainda não há sinais claros de reversão no curto prazo. "Ainda é prematuro falar em um novo 'normal', mas o que os dados mostram é que estamos em um ciclo mais prolongado de crédito restritivo", afirma. Ela avalia que o cenário deve continuar pressionado. "Não há sinais claros de reversão da inadimplência e ainda é cedo para afirmar que o pior já passou. A tendência é de ajuste lento, condicionado à melhora mais consistente das condições de crédito e do ambiente macroeconômico", conclui, projetando um caminho desafiador pela frente.

Nordeste acumula 1,17 milhão de empresas inadimplentes

No Nordeste, a situação é igualmente complexa, com 1,17 milhão de empresas inadimplentes em fevereiro de 2026, somando 6,03 milhões de dívidas que totalizam R$ 17,6 bilhões. A Bahia lidera em volume, com 324.175 CNPJs no vermelho, seguida por Pernambuco (211.014) e Ceará (185.396). Esses três estados também concentram os maiores valores absolutos da inadimplência, com R$ 4,23 bilhões, R$ 3,19 bilhões e R$ 2,75 bilhões em dívidas, respectivamente.

Contudo, é o Rio Grande do Norte que se sobressai pela intensidade dos débitos. Com 90.093 empresas inadimplentes, o estado lidera a região em dívida média por empresa (R$ 20.215,73), número médio de dívidas por CNPJ (6,1) e ticket médio (R$ 3.337,11). Em valores totais, soma R$ 1,82 bilhão em dívidas, superando estados como Maranhão (R$ 1,75 bilhão) e Paraíba (R$ 1,52 bilhão), mesmo com um contingente menor de empresas no vermelho. A diferença entre os estados é gritante: enquanto o RN registra uma dívida média superior a R$ 20 mil por empresa, Alagoas apresenta o menor valor da região, com R$ 10.995,59 – quase metade.

No cenário nacional, o Brasil alcançou 8,8 milhões de empresas inadimplentes em fevereiro, com 60,7 milhões de dívidas que totalizam R$ 204,6 bilhões. O Sudeste lidera com 4,89 milhões de CNPJs inadimplentes, seguido pelo Sul (1,49 milhão) e Nordeste. Em apenas um ano, o valor total das dívidas cresceu de R$ 164,2 bilhões para R$ 204,6 bilhões, enquanto a média por empresa chegou a R$ 23,2 mil e o ticket médio a R$ 3.370,5, patamar perigosamente próximo ao observado no Rio Grande do Norte.

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