IMPACTO NA ECONOMIA

Jornada de 40h: Banco Inter projeta queda de 0,82% no PIB brasileiro

Manifestantes segurando uma faixa que se posiciona contra a escala de trabalho 6 X 1, em protesto
Manifestantes empunham faixa contra escala 6 X 1

Estudo do Banco Inter detalha retração em 12 setores e aumento de custos para empresas com a proposta de redução da jornada de trabalho e fim da escala 6 X 1.

O Banco Inter divulgou nesta quarta-feira, 22 de abril de 2026, um estudo que projeta uma retração de 0,82% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no médio prazo. A análise do impacto de uma proposta de redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais e do fim da escala 6 X 1 revela um cenário desafiador para a economia, ao mesmo tempo em que a sociedade debate o equilíbrio entre produtividade e qualidade de vida dos trabalhadores.

Enquanto a busca por melhores condições de trabalho e maior dignidade para o indivíduo impulsiona a discussão sobre a redução da jornada, o levantamento do Banco Inter lança luz sobre os desafios econômicos dessa transição. Os benefícios sociais da mudança são reconhecidos, mas as consequências econômicas surgem como um ponto de atenção após a implementação completa da medida.

“Não trabalhamos com um horizonte temporal fixo, mas estamos comparando o equilíbrio atual com um novo equilíbrio após o fim da escala 6×1”, explica André Valério, gerente de pesquisa macroeconômica do Inter. “Entre esses dois equilíbrios, inclusive, nada impede que ocorra um aumento do PIB durante a transição.”

A construção civil deve apresentar a maior retração entre os 12 grandes setores analisados pelo Estudo, com uma queda projetada de 2,14% do PIB nesse segmento. A indústria de transformação aparece em 2º lugar, com uma perda estimada de 1,87%.

O setor de atividades imobiliárias representa a única exceção, com um ganho projetado de 0,9%. Esse crescimento decorre de uma realocação do consumo, um aumento na procura por unidades habitacionais e uma baixa dependência de insumos de outros setores.

As atividades de vigilância e de fabricação de calçados e autopeças devem estar entre as mais afetadas. O levantamento contabilizou impactos indiretos, mostrando como o encarecimento de insumos em um setor pode prejudicar outros segmentos que dependem deles.

A análise considerou as escolhas que as empresas podem fazer para se adaptar à diminuição de um dia na escala de trabalho por funcionário.

“Algumas empresas podem preferir ter menos trabalhadores e diminuir a oferta de serviços. Assim, trocariam um menor faturamento por manter o nível de rentabilidade”, afirma Valério. Essa estratégia pode, contudo, causar diminuição da capacidade de investimento e crescimento futuro.

Os setores podem sofrer mais ou menos de acordo com o nível de formalidade do trabalho adotado. O segmento de vigilância, por ser mais formalizado, deve ter um aumento de 5,5% dos custos. Já o de atividades artísticas, que conta mais com contratos de trabalho informal, deve registrar uma alta de 0,8%.

Segmentos que exigem mais investimentos em pessoal e atendimento por mais dias na semana sentirão mais os impactos. A saúde pública, por exemplo, deve registrar um aumento de 2% nos custos operacionais.

A hipótese de um aumento geral dos preços também é colocada em dúvida pelo Estudo. A análise cita o exemplo da Austrália, que fez mudanças na década de 1980. Naquele país, a alta de preços foi proporcional à elevação dos custos de produção, e várias empresas preferiram absorver o ajuste em suas margens de lucro.

“Não seria um aumento de produtividade inalcançável, mas a grande questão é que a produtividade permanece estagnada nesta década”, declarou Valério. “Pode haver alguma compensação, ainda que parcial, mas vemos como baixa a probabilidade de isso ocorrer por completo.”

O economista defendeu que a receita para buscar um ganho maior de produtividade passaria por melhorias na infraestrutura.

Outros fatores importantes incluem o avanço da qualidade de formação do capital humano, um mercado de trabalho mais flexível, a abertura da economia e o progresso da extensa agenda de reformas. A reforma tributária, por exemplo, já pode ajudar, mas o benefício virá apenas depois de cumprir o seu período de transição, que deve levar uma década.

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