CRISE FINANCEIRA
Inadimplência castiga mulheres e jovens, aponta BC
Juros chegam a 140% para mulheres negras. Governo estuda usar FGTS para abater débitos.
Uma análise aprofundada dos dados de inadimplência no Brasil, divulgada nesta segunda-feira, 20 de abril de 2026, por instituições como a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), o SPC Brasil e o Banco Central (BC), revela um cenário preocupante: mulheres, jovens e pessoas de baixa renda enfrentam condições de endividamento mais severas. A concentração de dívidas nessas parcelas da população não apenas destaca fragilidades econômicas, mas também impacta diretamente a dignidade e o bem-estar social, impulsionando o governo federal a estudar medidas para aliviar o peso financeiro dessas famílias.
A inadimplência no país se concentra predominantemente entre mulheres e indivíduos de baixa renda. A distribuição por gênero aponta uma leve predominância feminina: mulheres respondem por 51,40% das pessoas com dívidas em atraso, enquanto homens somam 48,60%, conforme dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil.
Essa diferença, embora não seja ampla em números absolutos, torna-se crucial quando contextualizada com outros fatores, como renda média, inserção no mercado de trabalho e as responsabilidades financeiras predominantes nos lares. A análise por renda e inserção social evidencia que beneficiários de programas sociais e trabalhadores de menor renda não apenas encontram maior dificuldade no acesso ao crédito, mas também são forçados a recorrer a modalidades mais onerosas.
Dados do Cadastro Único (Cad Único) reforçam essa disparidade. Dentro desse grupo vulnerável, diferenças por gênero e raça são ainda mais acentuadas no custo do crédito. As taxas de juros médias ponderadas pelo saldo contratado podem atingir até 140% ao ano para mulheres negras, representando o patamar mais alto entre todos os grupos analisados. Em contrapartida, homens brancos na mesma base enfrentam taxas próximas de 97% anuais, o que destaca uma disparidade considerável nas condições de financiamento.
Mesmo entre trabalhadores formais, cujos dados provêm da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), as taxas de juros são mais baixas, mas a desigualdade persiste. O Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central (BC) indicou que os juros médios variam de 85% ao ano para homens brancos a 105% para mulheres negras. Essa persistente diferença entre os grupos sugere que renda, histórico de crédito e o tipo de vínculo empregatício influenciam diretamente o custo do crédito e a capacidade de saída do endividamento.
O uso do cartão de crédito, especialmente em sua modalidade rotativa, oferece uma janela para compreender melhor o perfil do endividamento. Esta linha de crédito é uma das mais caras do mercado e, frequentemente, é acionada quando o consumidor não consegue quitar o valor total da fatura, transformando uma solução temporária em um ciclo de dívidas difícil de romper.
Adicionalmente, dados do BC de 2024 apontam que a inadimplência juvenil supera a de adultos e idosos. Entre jovens com renda de até dois salários-mínimos, 17,4% estavam inadimplentes. Para a faixa de dois a cinco salários-mínimos, a taxa era de 13,8%, e para os de maior renda, o percentual atingia 10%. Isso evidencia um desafio particular para essa geração, que muitas vezes inicia sua vida financeira sem o conhecimento e o suporte necessários para gerenciar o crédito de forma eficaz.
O relatório do Banco Central levanta a hipótese de que jovens detêm um controle menor sobre suas finanças, principalmente por estarem em fase inicial de exposição a produtos de crédito. Esta característica comportamental, típica da faixa etária, é aliada a uma menor propensão ao planejamento financeiro de longo prazo, criando um cenário de vulnerabilidade para a tomada de decisões financeiras.
A modalidade rotativa do cartão de crédito assume um papel preocupante, especialmente entre os inscritos no Cad Único. A participação do rotativo no saldo total do cartão é elevada em todos os grupos, mas se eleva ainda mais entre mulheres. Para mulheres negras, o rotativo representa 49% do total utilizado no cartão; entre mulheres brancas, o percentual é de 47%. No grupo masculino, os índices também são altos, chegando a 53% entre homens negros e 50% entre homens brancos, revelando uma dependência alarmante de crédito caro.
No recorte da RAIS, que engloba trabalhadores com carteira assinada, os percentuais são ligeiramente menores, mas mantêm a mesma tendência de disparidade. O rotativo corresponde a 47% do saldo para mulheres negras, 45% para mulheres brancas, 47% para homens negros e 40% para homens brancos. A persistência desse padrão indica que, mesmo em contextos de trabalho formal, muitos indivíduos dependem de linhas de crédito mais caras, o que compromete gravemente sua capacidade de pagamento e sua estabilidade financeira a médio prazo.
A distribuição regional da inadimplência adiciona outra camada de complexidade ao cenário. A região Norte registrou a maior alta recente no número de inadimplentes, com crescimento de 9,73%, seguida pelo Sul (9,25%), Sudeste (8,97%), Centro-Oeste (6,71%) e Nordeste (6,60%).
Os dados, em seu conjunto, revelam que o endividamento no Brasil não é um fenômeno homogêneo. Ele se concentra em grupos que combinam menor renda, maior instabilidade ocupacional e acesso restrito a crédito com condições favoráveis. A maior presença de mulheres entre os inadimplentes, por exemplo, ocorre em um contexto onde elas, em média, recebem salários inferiores e arcam com maior parte das responsabilidades financeiras domésticas.
Simultaneamente, a elevada utilização do crédito rotativo demonstra que muitos consumidores recorrem a essa modalidade não por escolha, mas por falta de alternativas diante da impossibilidade de quitar suas dívidas integralmente. Como essa linha de crédito possui juros significativamente mais altos, seu uso contínuo apenas expande o saldo devedor e perpetua o doloroso ciclo da inadimplência.
“Populações com maior dificuldade de acesso são compelidas a recorrer a opções de crédito mais caras e menos favoráveis. Portanto, a combinação desses elementos resulta em uma variação considerável nas taxas de juros pagas pelos diferentes grupos da sociedade, aprofundando desigualdades”, enfatiza o relatório do Banco Central.
Diante desse cenário desafiador, o governo federal estuda um conjunto de medidas para tentar reduzir o nível de endividamento das famílias. O foco principal é a ampliação do acesso a crédito mais barato e a reorganização de dívidas já existentes, buscando oferecer um respiro financeiro aos mais afetados.
Entre as iniciativas em análise, está o incentivo ao uso de linhas com garantia, como o crédito consignado, que tem juros mais baixos. Outra possibilidade é a utilização de parte do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como garantia em operações. A estratégia visa substituir dívidas mais caras, como o rotativo do cartão de crédito, por modalidades com custo menor e prazos mais longos, oferecendo um caminho para a quitação e o reequilíbrio financeiro.
A relação entre juros e endividamento é central nessa discussão. A taxa Selic, atualmente em 14,75% ao ano, figura como o principal instrumento de controle da inflação. Os integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) detêm a responsabilidade de decidir se cortam, mantêm ou elevam a taxa Selic, alinhados à missão do Banco Central de controlar o avanço dos preços de bens e serviços no país. Ao aumentar os juros, a consequência esperada é a redução do consumo e dos investimentos. Dessa forma, o crédito se encarece e a atividade econômica tende a desaquecer, resultando em queda de preços para consumidores e produtores.
Outra frente importante é a renegociação de débitos em atraso, por meio de programas que unem bancos e empresas para oferecer descontos e condições facilitadas de pagamento. Essas ações são cruciais para reduzir a inadimplência e, assim, reinserir consumidores no mercado de crédito, permitindo-lhes retomar suas vidas financeiras com dignidade.
Ademais, a agenda governamental inclui medidas estruturais que visam diminuir o custo do crédito no país, atualmente no maior patamar da série histórica. Entre elas, destacam-se o estímulo à concorrência no sistema financeiro e o aprimoramento de mecanismos de garantia. A equipe econômica avalia que o elevado nível de juros ainda representa um dos principais obstáculos para a redução do endividamento. Nesse contexto, as ações combinam um alívio imediato, por meio de renegociações, com mudanças de médio prazo, que buscam tornar o crédito mais acessível e verdadeiramente sustentável para todos os brasileiros.
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