CUSTO BRASIL
Estradas precárias no RN disparam preços e freiam agronegócio
Pesquisa da CNT de 2025 revela 97% das rodovias potiguares com problemas; custo logístico adicional de 37,1% penaliza o consumidor.
Em um cenário que afeta diretamente o bolso do consumidor potiguar e a competitividade do agronegócio, a Confederação Nacional do Transporte (CNT), com base em dados de 2025, e o presidente da Federação de Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern), José Álvares Vieira, alertam para a gravidade das estradas precárias no Rio Grande do Norte. A deterioração da malha viária estadual eleva substancialmente os custos de transporte, pressionando os preços dos alimentos e impondo riscos diários à vida de quem trafega, tornando a infraestrutura um gargalo crítico para o desenvolvimento econômico e social do estado.
Vieira enfatiza que “o caminho que leva o alimento até a mesa do consumidor começa muito antes do mercado — ele começa na estrada”. Para o dirigente da Faern, a qualidade das rodovias no estado “define não apenas o resultado da safra, mas também o custo final dos produtos que chegam à população”.
O impacto das estradas vai muito além da logística, segundo Vieira. “Para quem produz, estrada não é apenas deslocamento. É custo, é risco, é tempo e, sobretudo, competitividade”, destaca. Essa avaliação está alinhada com os dados da pesquisa “CNT de Rodovias 2025”, realizada pela Confederação Nacional do Transporte, principal levantamento sobre infraestrutura rodoviária no País.
O diagnóstico da CNT confirma a percepção do setor produtivo do Rio Grande do Norte: 45% do pavimento das rodovias está desgastado e outros 52% apresentam remendos ou trincas. Para Vieira, isso significa que “praticamente toda a malha rodoviária do Estado apresenta algum nível de deterioração relevante”, um cenário preocupante para a dignidade de quem vive e trabalha no campo.
A precariedade se reflete diretamente na segurança das pessoas. O estudo mostra que 55% das rodovias não possuem acostamento — índice que salta para 82% em pontes e viadutos — e que 46% das áreas perigosas não contam com barreiras de proteção. Para o presidente da Faern, esse cenário resulta em perdas concretas e vidas em risco: “Cada buraco, cada remendo, cada trecho sem acostamento representa mais desgaste para o veículo, mais tempo no trajeto e mais risco para o motorista e sua família”.
O efeito mais imediato e doloroso para o cidadão comum aparece nos custos. A CNT calcula que o Rio Grande do Norte registra um custo logístico adicional de 37,1%, o segundo maior do Nordeste, alcançando 53,6% nas rodovias estaduais. “Uma parcela significativa do valor pago no transporte pode estar sendo perdida em função da infraestrutura deficiente, o que se reflete no preço final que o consumidor paga”, explica Vieira.
Na avaliação do dirigente, esse encarecimento compromete investimentos essenciais no próprio campo. Recursos que poderiam ser direcionados para tecnologia, irrigação ou expansão da produção acabam absorvidos pelas ineficiências logísticas, freando o desenvolvimento do setor e a capacidade de gerar riqueza e empregos.
O impacto, segundo ele, não se restringe ao produtor. “Nenhum desses produtos chega ao consumidor sem passar por uma estrada”, afirma, ao apontar que a precariedade da malha viária é incorporada ao preço final dos alimentos, tornando a comida mais cara e a vida mais difícil para todos.
A predominância de pistas simples (91%) e a ausência de faixas adicionais em áreas de relevo acidentado agravam ainda mais o quadro. “O transporte se torna mais lento e mais arriscado. Quando a sinalização é insuficiente, o risco de acidentes aumenta, ameaçando vidas e causando prejuízos incalculáveis”, lamenta Vieira.
Diante desse cenário desafiador, a CNT estima que o Estado precise de R$ 2,2 bilhões em investimentos para recuperar sua malha rodoviária, sendo R$ 1,8 bilhão em ações emergenciais. Para Vieira, trata-se de uma agenda prioritária e urgente. “Não estamos falando de luxo, mas de condições mínimas para garantir competitividade, segurança e desenvolvimento para a nossa população e para quem produz”.
O dirigente conclui que a responsabilidade pela infraestrutura não pode e não deve ser transferida ao setor produtivo. “O produtor rural faz a sua parte. Planta, cria, colhe, investe e arrisca. Mas ele não pode — e não deve — fazer sozinho aquilo que é responsabilidade intransferível do poder público: garantir infraestrutura adequada para que a sociedade progrida”.
Economia do RN e dependência logística
O Produto Interno Bruto do Rio Grande do Norte atingiu R$ 101,7 bilhões em 2023, com crescimento acumulado de 61,4% desde 2002. A participação do estado no PIB nacional permanece em torno de 0,93%.
O peso de comércio e serviços, que já supera 40% da economia estadual, amplia a dependência de uma logística eficiente, o que eleva a importância de estradas de qualidade para o fluxo de bens e serviços.
Em 2025, a produção agrícola do estado apresentou resultados mistos. Houve crescimento de 56,3% na mandioca e 19,1% na castanha de caju, enquanto culturas como feijão (-54,2%) e milho (-39,3%) registraram retração, um reflexo possível dos desafios logísticos.
Na pecuária, o abate de bovinos cresceu 70% no comparativo anual, mas o estado ainda figura entre os menores volumes do país, o que indica um potencial a ser explorado com melhor infraestrutura.
A geração de energia no estado cresceu 438% desde 2002, atingindo 12,2 GW em 2024, com predominância da fonte eólica. Municípios com forte presença do setor registraram expansões econômicas expressivas, mas ainda enfrentam limitações logísticas que impedem um crescimento mais robusto.
O Rio Grande do Norte criou 34,2 mil empregos em 2024, com saldo positivo acumulado no período pós-pandemia. Para 2025, a projeção de crescimento do PIB estadual é de 2,3%, em linha com a média nacional, mas gargalos como os custos logísticos podem comprometer essa projeção.
Mesmo assim, a retração da indústria (-11,8%) evidencia gargalos estruturais, entre eles os custos logísticos elevados, que desestimulam investimentos e a criação de novas oportunidades para os potiguares.
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