IMPACTO NO BOLSO

-El Niño e seca: conta de luz vai pesar mais para o brasileiro

Medidor de energia elétrica e representação de seca no campo, simbolizando o aumento da conta de luz devido à crise hídrica.
Setor elétrico brasileiro em estado de atenção com o fim do período chuvoso e efeitos do El Niño.

Aneel aciona bandeira amarela para maio; projeções indicam alta de 9% e bandeiras vermelhas até o fim de 2026.

O bolso do brasileiro sentirá o peso de contas de luz mais elevadas nos próximos meses, já que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmou, no final de abril, o acionamento da bandeira tarifária amarela para maio. Esta medida, motivada pela drástica redução das chuvas na transição entre os períodos úmido e seco e pelos efeitos do fenômeno El Niño, eleva os custos da energia e pressiona o orçamento de milhões de famílias. Especialistas preveem um agravamento do cenário, com a expectativa de bandeiras vermelhas e um aumento médio de 9% nas tarifas de energia elétrica até o final de 2026, acendendo o alerta para a inflação e o poder de compra da população.

A preocupante mudança no panorama climático acontece em meio aos intensos efeitos do El Niño, um fenômeno que aquece as águas do Pacífico e, historicamente, provoca severas estiagens nas regiões Norte e Nordeste do país, impactando diretamente os níveis dos reservatórios e a capacidade de geração hídrica.

Bandeira amarela já eleva custo da energia

A confirmação da Aneel sobre a bandeira amarela para maio, após vários meses de bandeira verde, significou que os consumidores já passaram a arcar com um valor adicional em suas faturas de eletricidade. A agência justificou a alteração pela diminuição das chuvas, elemento crucial na transição entre o período úmido e o seco, forçando o sistema a buscar fontes de energia mais caras.

Especialistas projetam cenário de bandeiras vermelhas

A perspectiva para os próximos meses é ainda mais desafiadora. O economista Flávio Serrano, do Banco BMG, em análise para o jornal O Globo, projeta um cenário de bandeiras vermelhas. Segundo sua avaliação, o Brasil poderá experimentar a bandeira vermelha patamar 1 a partir de junho, escalando para o patamar 2 entre julho e setembro, e possivelmente retornando ao patamar 1 em outubro. Essa projeção culmina em uma estimativa de alta de aproximadamente 9% na energia elétrica ao longo de 2026, um impacto significativo que deve pressionar ainda mais a inflação nacional nos próximos meses, afetando a economia doméstica.

Reservatórios em alerta: Sul em situação mais crítica

Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) revelam um quadro preocupante sobre os reservatórios. Enquanto as regiões Sudeste e Centro-Oeste operam com cerca de 65,6% da capacidade, o sistema Sul apresenta uma situação mais delicada, com aproximadamente 46,4% de armazenamento. Em contraste, os subsistemas Norte e Nordeste mantêm-se próximos da capacidade máxima, mostrando a disparidade regional na segurança hídrica para a geração de energia.

Ampliação do uso de termelétricas aumenta custos

Para lidar com a escassez hídrica e assegurar o fornecimento, o Ministério de Minas e Energia anunciou que o país intensificará o uso de usinas termelétricas. Embora fundamental para preservar os reservatórios e garantir a segurança energética durante o período de estiagem, esta medida tem um custo elevado. O acionamento de termelétricas, que operam com combustíveis fósseis, resulta em gastos substancialmente maiores, que são repassados diretamente para as tarifas dos consumidores, exacerbando o encarecimento da energia.

Modelo do setor sob o olhar crítico de especialistas

Especialistas da área energética salientam que o aumento das tarifas vai além da mera falta de chuvas. Victor Hugo Iocca, diretor da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores de Energia, em entrevista para O Globo, argumenta que o modelo matemático utilizado para formar os preços da energia estaria aplicando uma pressão excessivamente conservadora, elevando as tarifas desnecessariamente. Estudos da consultoria Thymos Energia corroboram essa visão, apontando falhas na calibragem do sistema de precificação que penalizam o consumidor.

Paradoxo da abundância: Brasil desperdiça energia gerada

Paradoxalmente, apesar da iminente alta nas tarifas e da dependência de termelétricas, o sistema elétrico brasileiro enfrenta um cenário de excesso de geração de energia em certos períodos, especialmente proveniente de fontes renováveis como a solar e a eólica. Para evitar sobrecargas, o ONS é obrigado a interromper parte dessa produção. Cálculos da consultoria Volt Robotics indicam que cerca de 20% da energia solar e eólica disponível foi descartada no ano passado, gerando um prejuízo estimado em R$ 6,5 bilhões para as empresas do setor. Este desperdício de potencial limpo e abundante agrava o cenário de custo elevado para o consumidor.

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