DÍVIDAS E FUTURO

Desenrola Brasil 2.0: Especialistas veem prós e contras na medida

Bruno Carazza: Primeiro 'Desenrola' trouxe alívio temporário no endividamento
Bruno Carazza: Primeiro 'Desenrola' trouxe alívio temporário no endividamento

Governo Federal lança programa com uso do FGTS para endividados, mas os efeitos a longo prazo geram debate entre economistas.

O Governo Federal editou, na segunda-feira, 04 de maio de 2026, a medida provisória que institui o Novo Desenrola Brasil e publicou a portaria que o regulamenta na terça-feira, 05 de maio de 2026. A iniciativa visa oferecer um alívio financeiro imediato para milhões de famílias endividadas, permitindo a renegociação de débitos com descontos expressivos e juros facilitados. Contudo, enquanto oferece um respiro crucial para a dignidade de quem vive sob o peso das dívidas, especialistas alertam que a medida não resolve as causas estruturais do problema e pode, a longo prazo, gerar novos desafios econômicos para a sociedade.

O programa prevê a renegociação de dívidas com descontos e condições facilitadas de pagamento, incluindo juros menores. Podem aderir pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos — o equivalente a R$ 8.105 —, com a possibilidade de usar parte dos recursos do FGTS para quitar parte dos débitos.

A medida provisória que cria o Novo Desenrola foi editada na noite de segunda-feira, 04 de maio de 2026, enquanto a portaria que regulamenta o programa foi publicada nesta terça-feira, 05 de maio de 2026. Esses atos conferem base legal para que os bancos comecem, de fato, a operar as renegociações. Conforme noticiou o g1, as instituições financeiras haviam apenas indicado portais oficiais para pré-cadastro até esta terça-feira. No início da noite do mesmo dia, a Febraban informou que o sistema seria liberado, permitindo o início das negociações pelos bancos.

Especialistas apontam pontos positivos e negativos do programa, que trazem impacto direto na vida dos cidadãos.

Pontos positivos

1. Alívio no bolso melhora o controle das contas

O benefício mais imediato é a melhora no humor e na saúde financeira da população. O economista e professor de finanças do Insper, Alexandre Chaia, afirma que o programa traz um "alívio das famílias" em um cenário onde a renda cresce, mas o endividamento ainda compromete a qualidade de vida. "Quando você cria um programa que melhora a relação da dívida e reduz os juros, esses são pontos positivos", afirma Chaia, ressaltando que a medida abre mais espaço no orçamento doméstico.

O especialista explica que contrair dívidas não é, por si só, algo negativo, citando compras parceladas como uma "forma de adquirir um bem que não seria possível comprar à vista, usando o sistema financeiro para financiar". O problema, segundo ele, reside no "custo da dívida, que hoje é elevado no Brasil por causa dos juros".

2. Programa ataca dívidas com juros elevados

A planejadora financeira Carol Stange destaca que a renegociação "representa uma saída real" para quem está preso a um ciclo de juros abusivos, que podem atingir até 400% ao ano. "A renegociação com desconto de até 90% e juros limitados a 1,99% ao mês representa uma saída real. O alívio no orçamento mensal é imediato para quem aderir", pontua Stange.

A inclusão de dívidas estudantis é vista por especialistas como um acerto estratégico. Para Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil, a renegociação envolvendo o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) atinge um problema estrutural relevante da educação superior. "Isso pode evitar que um passivo de longo prazo continue travando a vida financeira de jovens e recém-formados", comenta Araújo.

3. Uso do FGTS ajuda a evitar novos empréstimos

A possibilidade de usar o saldo do FGTS é vista como uma troca racional, embora gere preocupações no médio e longo prazo. Para o economista Alexandre Chaia, inicialmente, o uso pode ser positivo ao "trocar um dinheiro que rende pouco por uma dívida que tem um custo alto". Otávio Araújo, da ZERO Markets Brasil, corrobora essa visão, explicando que, para famílias com pouco dinheiro disponível, o fundo funciona como um "respiro financeiro imediato", eliminando a necessidade de buscar novos empréstimos.

4. Bloqueio às bets melhora o controle de gastos

O programa prevê o bloqueio do CPF do beneficiário em plataformas de apostas por 12 meses, como forma de reduzir o risco de novo endividamento. Especialistas veem a medida como positiva para conter gastos compulsivos e vincular a renegociação da dívida a um mecanismo comportamental. "Faz sentido, já que parte do endividamento atual tem relação direta com o crescimento das bets", afirma a planejadora financeira Carol Stange.

Pontos negativos

1. Alivia agora, mas não resolve a causa do problema

Há consenso entre os especialistas de que o Novo Desenrola não resolve o problema estrutural do endividamento. No centro da questão estão a falta de educação financeira e os juros elevados no país. "O programa trata a consequência, que é a dívida já acumulada, mas não elimina o fator que empurra as famílias para o vermelho, como crédito caro, renda apertada e juros altos", avalia Otávio Araújo, da ZERO Markets Brasil. Ou seja, sem mudanças estruturais, parte das famílias tende a se endividar novamente.

O economista Bruno Carazza, comentarista do Jornal da Globo, lembra que o Primeiro Desenrola, em vigor de junho de 2023 a maio de 2024, trouxe um alívio temporário no endividamento. Ele observa, no entanto, que a curva de endividamento voltou a subir após o período.

2. Gastos públicos e juros altos criam ciclo vicioso

"O governo vai usar um dinheiro que não é dele. Então, vai ter que repor em algum momento", diz Chaia, do Insper. Esse risco levanta a preocupação de que o problema esteja apenas sendo empurrado para frente, sem ser resolvido de fato. Com mais gastos públicos para sustentar o programa, aumenta a pressão sobre as contas do governo e sobre a taxa básica de juros (Selic), o que mantém os juros altos e faz o ciclo se repetir. "O governo dá subsídios para ajudar as famílias, o que aumenta o endividamento público e faz o Banco Central manter os juros altos para conter a inflação — o que, no fim, acaba prejudicando as próprias famílias", resume Chaia.

3. Risco de mais consumo e novo endividamento

Outra preocupação é com o aumento do consumo. O alívio no orçamento e a volta do acesso ao crédito podem estimular novos gastos, transformando esse fôlego momentâneo em risco de novas dívidas. "O problema é que as famílias vão voltar a se endividar, porque, no fim das contas, o alívio tem como objetivo estimular mais consumo — criando mais dívida no longo prazo", alerta Chaia. Na visão do professor, há um caráter eleitoreiro na medida, já que o programa busca melhorar o humor da população a cerca de seis meses da disputa e, de alguma forma, elevar a popularidade do governo.

4. Uso do FGTS reduz proteção e afeta a habitação

Apesar de dar um alívio imediato, o uso do FGTS reduz o dinheiro que o trabalhador tem guardado para momentos críticos, como uma demissão, enfraquecendo sua proteção financeira. Para os especialistas, isso acaba sendo trocar uma reserva de segurança por uma solução que resolve só o curto prazo. "Usar até 20% desse saldo para pagar dívida é uma decisão que precisa ser calculada com cuidado, e não tomada no impulso do alívio imediato. Para quem tem emprego instável, pode ser trocar uma vulnerabilidade por outra", alerta a planejadora financeira Carol Stange.

Além do impacto individual, o uso do FGTS também preocupa pelo efeito no financiamento da habitação popular. O fundo é uma das principais fontes de recursos do programa Minha Casa Minha Vida e pode diminuir a capacidade de sustentar o programa. "O governo vai ter que entrar com dinheiro público para substituir os recursos do FGTS que estão sendo usados para manter o Minha Casa Minha Vida funcionando", diz Chaia, do Insper.

5. Bom pagador pode acabar sendo 'penalizado'

Especialistas também avaliam que a medida pode reforçar a expectativa de que novos programas de renegociação ou perdão de dívidas voltem a ocorrer com frequência, o que pode enfraquecer a disciplina de pagamento de parte dos devedores. "Esse é o chamado risco moral, que é um argumento comum contra esse tipo de política", diz Otávio Araújo, da ZERO Markets Brasil. Nesse cenário, há o risco de que o custo dessas iniciativas, financiadas com recursos públicos, seja diluído para toda a sociedade, inclusive para quem mantém as contas em dia. O economista Daniel Sousa, comentarista da GloboNews, já havia avaliado o tema antes do lançamento do Novo Desenrola. Para ele, o Brasil não estimula o bom pagador e, pelo contrário, acaba premiando o mau pagador.

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