CRISE FINANCEIRA

Banco Central revela endividamento recorde das Famílias

Famílias brasileiras endividadas, com 30% da renda comprometida para pagar dívidas e cenário de juros altos.
Famílias brasileiras comprometem 30% da renda mensal para pagar dívidas — um recorde. Foto: Jornal Nacional/ Reprodução.

30% da renda mensal comprometida e 50% de endividamento total. Selic em 14,75% ao ano agrava a situação, impactando milhões de brasileiros.

O Banco Central revelou nesta quarta-feira, 29/04/2026, um cenário alarmante para as Famílias brasileiras: o comprometimento da renda mensal com dívidas atingiu o recorde histórico de 30% em fevereiro, enquanto o endividamento total acumulado em 12 meses alcançou 50% dos ganhos. Essa escalada sem precedentes reflete o peso dos juros elevados, impulsionados pela taxa Selic em 14,75% ao ano, e a falta de equilíbrio fiscal que impede a queda das taxas. A situação, que já empurra milhões à inadimplência e dificulta o acesso ao crédito, ameaça o bem-estar e a dignidade de cidadãos como a analista Patrícia Lisboa da Silva, que se vê com o nome negativado e priorizando gastos essenciais.

A experiência de Patrícia Lisboa da Silva ressoa com a de muitos brasileiros: "Negativaram meu nome, eu estou com nome sujo, tentando negociar outros e, realmente, junta tudo de uma vez: as despesas de casa, cartões de crédito, escola, etc. Aí a gente começa a analisar as prioridades, quais são as prioridades. Começa a pagar só o que é prioridade", desabafa a analista. A história de Patrícia não é um caso isolado, mas um retrato doloroso da crise que afeta incontáveis lares.

O levantamento do Banco Central confirma a gravidade da situação. As Famílias, em média, destinam quase um terço de sua renda para cobrir débitos – um pico histórico registrado em fevereiro. Olhando para o endividamento de longo prazo, o montante total das dívidas em relação à renda acumulada nos últimos 12 meses disparou para 50% dos ganhos familiares, estabelecendo um novo recorde.

Atualmente, a taxa Selic se mantém em 14,75% ao ano. Este é o principal instrumento que o Banco Central utiliza para controlar a inflação, e sua elevação impacta diretamente os juros de empréstimos e financiamentos em todo o país. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central define a Selic, considerando, entre outros fatores cruciais, o panorama das contas públicas. Economistas são unânimes: sem um equilíbrio fiscal robusto, a redução dos juros torna-se uma meta inatingível.

André Perfeito, economista da Garantia Capital, adverte sobre a insustentabilidade do cenário: "O patamar de taxa de juros é praticamente insustentável. Estamos falando de taxa de juros reais de 7%, 7,5%. Isso é decorrente, entre outras coisas, de um processo que não foi feito pelo governo antes de segurar as contas públicas para ajudar o Banco Central a justamente conduzir uma política monetária mais acomodatícia, no sentido de corte de juros. Esse processo devia ter começado lá atrás, mas o governo não conseguiu ou não quis fazer um processo de ajuste mais forte e tem tido um custo."

A persistência de juros elevados acentua o fardo das dívidas para as Famílias, refletindo-se diretamente no aumento da inadimplência. Em fevereiro, a taxa atingiu um recorde de 4,4%, embora tenha mostrado uma leve queda para 4,3% em março. Este cenário de alto risco torna o acesso a novos empréstimos ainda mais desafiador, com os bancos adotando uma postura de maior exigência.

Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, explica a perigosa dinâmica: "As Famílias estão acessando linhas de crédito emergenciais. E é isso que faz uma grande diferença, porque a partir do momento que elas não têm acesso a linhas de crédito com juros mais acessíveis, elas acabam indo para o cheque especial, cartão de crédito rotativo, e aí os juros são significativamente maiores e pesam muito mais no orçamento das Famílias."

Diante da crise, o governo sinaliza o anúncio de um novo programa de renegociação de dívidas nos próximos dias. Contudo, essa medida é vista com ceticismo por especialistas.

A economista Zeina Latif critica a intervenção estatal: "Essa não é uma função do Estado. Isso tem que deixar o mercado resolver. As pessoas encontrarem formas de renegociarem as suas dívidas, porque também é interesse da instituição financeira. O custo do crédito aumenta. Então, eu acho que essa deveria ser uma solução de mercado e não o governo estimulando, proporcionando esse tipo de política que poderá acabar estimulando artificialmente mais endividamento, mais gastos."

Corroborando a análise, Roberto Padovani, economista-chefe da BV, reforça: "O endividamento segue elevado e quanto mais o governo estimula a economia, mais a taxa de juros fica elevada e sufoca o consumo das pessoas. Portanto, para resolver definitivamente o problema, seria preciso uma gestão fiscal que estimule menos a economia, contas públicas empurrando menos o crescimento, e isso permitiria que o Banco Central cortasse juros e, de alguma forma, trouxesse alívio financeiro."

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