CRISE OCULTA
Violência sexual contra crianças dispara no país e triplica em dez anos
Dados do Ministério da Justiça apontam 59.366 vítimas em 2025, quase 121 casos por dia.
A proteção de crianças e adolescentes contra a violência sexual enfrenta um desafio alarmante no Brasil: dados recentes do Ministério da Justiça revelam que o número de vítimas quase triplicou em uma década, alcançando a marca de 59.366 casos registrados em 2025. A divulgação, que coincide com o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, expõe uma realidade brutal de crescimento de 204,5% desde 2015, quando foram contabilizadas 19.496 vítimas, sublinhando a urgência de ações efetivas para salvaguardar a dignidade e a infância de milhares de menores.
O patamar de violência permanece historicamente elevado, indicando que a estabilização observada em comparação com 2024, quando 59.666 vítimas foram contabilizadas, não representa uma melhora substancial na proteção infanto-juvenil.
A relevância desses números é acentuada pela coincidência com o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, celebrado nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026. A data, estabelecida em 1998, visa mobilizar a sociedade para o enfrentamento contínuo desse tipo de crime hediondo.
No período de 2015 a 2025, o Brasil acumulou um total chocante de 486.001 vítimas, o que representa uma média alarmante de 121 registros diários. Os anos de 2023, 2024 e 2025 marcaram os maiores picos da série histórica, com os casos anuais consistentemente superando a marca de 59 mil.
O ápice foi atingido em 2023, com 59.779 ocorrências.
As estatísticas englobam registros de estupro de vulnerável, uma categoria legal que protege indivíduos menores de 14 anos, pessoas com deficiência e outras vítimas legalmente consideradas incapazes de consentir. É importante notar que esses dados não abrangem as informações do estado do Rio de Janeiro.
As vítimas do sexo feminino são as mais atingidas, concentrando 84,7% das notificações no período analisado, com 412.025 meninas e adolescentes vitimadas. Entre os meninos, 68.718 casos foram registrados, enquanto 5.258 registros não especificam o sexo da vítima.
Em 2025, a taxa nacional de vítimas alcançou 27,82 por 100 mil habitantes.
Em termos de volume absoluto, São Paulo lidera o ranking de estados com mais ocorrências desde 2015, somando 100.571 registros. Em seguida, figuram Paraná (55.809), Minas Gerais (41.703), Rio Grande do Sul (40.921) e Pará (34.969), números que refletem a dimensão da tragédia em diferentes regiões.
Contudo, quando analisada a incidência proporcional, alguns estados revelam taxas ainda mais preocupantes. Em 2025, o Pará registrou 54,21 vítimas por 100 mil habitantes, seguido pelo Paraná, com 44,93. São Paulo, por sua vez, apresentou um índice de 26,56 por 100 mil habitantes.
Procurado para comentar as medidas adotadas no enfrentamento do problema, o Ministério da Justiça não se manifestou até a sexta-feira, 15 de maio de 2026.
A delegada Monique Lima, titular da 6ª Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, explica que o aumento nos registros reflete uma conjunção de fatores: "A violência sexual contra crianças e adolescentes ainda é um problema muito grave e subnotificado, mas houve um avanço importante na capacidade de identificar e denunciar esses casos", afirma, destacando a importância da rede de proteção.
Ela pontua que profissionais de saúde, educação, assistência social e segurança pública estão mais capacitados para reconhecer os sinais de abuso. "Muitas situações que antes ficavam escondidas dentro de casa agora chegam ao conhecimento das autoridades", observa a delegada.
A maioria das ocorrências, reitera Monique Lima, envolve crianças com menos de 14 anos, o que evidencia a extrema vulnerabilidade das vítimas.
Somente em 2025, o estado de São Paulo contabilizou mais de 10 mil casos nessa faixa etária, com aproximadamente 9.900 classificados como estupro de vulnerável. O cenário preocupante se estende para 2026, com mais de 2.600 registros já no primeiro trimestre.
Monique Lima enfatiza que a violência sexual não discrimina classes sociais e, tragicamente, é frequentemente perpetrada por pessoas do convívio das próprias vítimas.
"São casos cometidos por alguém do convívio familiar ou social. Não é um problema de um bairro ou de uma classe específica. É uma violência estrutural", conclui a delegada, ressaltando a complexidade e a profundidade do desafio.
Daniel Cerqueira, pesquisador e um dos coordenadores do Atlas da Violência, avalia que a redução da subnotificação contribui para o aumento dos números, impulsionada por campanhas de conscientização, avanços legislativos e maior preparo das autoridades em identificar os casos.
Contudo, ele pondera que essa explicação, isolada, não justifica a magnitude do crescimento. "Eu acredito também que os casos tenham aumentado", afirma Cerqueira, que aponta a disseminação de discursos misóginos e da "machosfera" entre adolescentes como fatores que podem agravar o problema. "Há um recrudescimento dessas culturas misóginas e machistas, associado ao radicalismo político e à importação dessa cultura red pill", detalha o pesquisador.
Para Daniel Cerqueira, os números oficiais, apesar de alarmantes, revelam apenas uma fração da realidade. "Isso ainda é a ponta do iceberg", conclui, ressaltando a urgência de uma abordagem mais profunda e abrangente.
Estados com mais vítimas de estupro de vulnerável (2015–2025):
- 1º São Paulo – 100.571 casos
- 2º Paraná – 55.809 casos
- 3º Minas Gerais – 41.703 casos
- 4º Rio Grande do Sul – 40.921 casos
- 5º Pará – 34.969 casos
- 17º Rio Grande do Norte – 5.869 casos
Fonte: Ministério da Justiça
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