GESTÃO E SEGURANÇA

Violência deixou o Brasil doente: segurança pode se inspirar no SUS

Foto ilustrativa de policiamento urbano.
Joana Monteiro aponta que a segurança pública brasileira carece de planejamento estrutural de longo prazo.

Joana Monteiro, da FGV/Ebape, aponta a falta de prioridade institucional como o principal entrave. Especialista defende planejamento estratégico e divisão clara de competências entre entes federativos.

A necessidade de conferir peso político à segurança pública e reformular a estrutura de governança do setor é o caminho urgente para conter a crise que assola o País. Segundo Joana Monteiro, professora da FGV/Ebape, a ausência de uma prioridade institucional clara impede o avanço efetivo no enfrentamento à violência, que exige, na visão da especialista, uma lógica de atuação semelhante à que rege o Sistema Único de Saúde (SUS).

O paralelo com a saúde ilustra as falhas estruturais atuais. Enquanto o SUS, consolidado a partir da década de 1980, permitiu a descentralização, o estabelecimento de metas e a padronização de indicadores entre União, Estados e Municípios, a segurança pública opera sob uma lógica fragmentada e reativa. Historicamente, a responsabilidade recai quase exclusivamente sobre as polícias civil e militar, perpetuando a visão míope de que o problema se resolve unicamente com o aumento do efetivo nas ruas.

Conforme dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgados recentemente, o País registrou em 2025 (ano anterior à análise) o menor número de mortes violentas desde 2012, com 40.775 vidas perdidas. Apesar da redução estatística em relação ao pico de 2017, o cenário permanece crítico. Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) consolidaram o domínio territorial e expandiram sua influência para a economia formal, diversificando o crime organizado.

A infiltração dessas organizações exige uma resposta estatal sofisticada. Casos como o da Operação Carbono Oculto revelaram como brechas na regulação financeira, no coração da Faria Lima, permitiram a lavagem de dinheiro proveniente do crime. Para Joana Monteiro, a criminalidade organizada funciona como um "câncer" na estrutura social. Sem uma coordenação nacional que ofereça suporte técnico e financeiro, a estratégia de acionar a Polícia Militar como solução universal assemelha-se a um "analgésico genérico" aplicado a um paciente grave, sem atacar as causas profundas da patologia.

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