CRISE NA USP

USP corta água e luz na reitoria ocupada por estudantes

Estudantes em frente ao prédio da reitoria da USP durante ocupação em 09 de maio de 2026.
Estudantes ocupam a reitoria da USP pelo 2º dia, enfrentando corte de serviços essenciais.

Greve estudantil na Universidade de São Paulo entra no 2º dia de ocupação; alunos cobram reajuste de auxílio estudantil para R$ 1.804.

Estudantes da Universidade de São Paulo continuam a ocupação da reitoria neste sábado, 09 de maio de 2026, pelo segundo dia consecutivo. A mobilização se intensifica em resposta ao corte de água e luz imposto pela administração, liderada pelo reitor Aluísio Augusto Cotrim Segurado, que interrompeu as negociações sobre as pautas estudantis. A permanência dos alunos, mesmo sob condições adversas, destaca a urgência das reivindicações, especialmente o reajuste do PAPFE, fundamental para a dignidade e a permanência de estudantes em vulnerabilidade socioeconômica, e sinaliza um impasse crítico no diálogo universitário.

Estudantes em frente ao prédio da reitoria da USP durante ocupação em 09 de maio de 2026.

A principal reivindicação dos estudantes é o reajuste do PAPFE (Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil), um auxílio crucial para alunos em vulnerabilidade socioeconômica. Atualmente, o programa oferece R$ 335 para quem possui vaga em moradia estudantil e R$ 885 para aqueles que necessitam de apoio financeiro integral. Os manifestantes exigem que ambos os valores sejam elevados para R$ 1.804, montante equivalente ao salário mínimo paulista. Eles argumentam que os auxílios atuais não são suficientes para cobrir as despesas básicas de vida e estudo em uma cidade como São Paulo, comprometendo seriamente a permanência e a formação desses jovens na instituição.

Fachada da reitoria da USP

A ocupação teve início na quinta-feira, 07 de maio de 2026, após a reitoria encerrar as conversas com os estudantes, que já estavam em greve há 25 dias. Inicialmente acampados em frente à entrada do prédio, um grupo de alunos derrubou portas de vidro no final da tarde para ingressar no saguão da administração central. A USP criticou veementemente a invasão, classificando-a como uma “escalada da violência”. Diversos institutos da universidade também se posicionaram contra a ação.

Assista ao vídeo do momento em que estudantes entram no prédio da reitoria:
📹 #Vídeo Estudantes da USP ocupam reitoria e cobram retomada de negociações. Alunos da Universidade de São Paulo ocuparam, na quinta-feira, 07 de maio de 2026, o prédio da reitoria da instituição. O grupo cobra que o reitor Aluísio Augusto Cotrim Segurado retome as negociações sobre o PAPFE. Acesse: pic.twitter.com/tLGw31SKyn

Na sexta-feira, 08 de maio de 2026, a instituição respondeu cortando o fornecimento de água e luz do prédio, visando inviabilizar a permanência dos estudantes. Para superar essa dificuldade, sindicatos de funcionários, centros acadêmicos e docentes da universidade têm se mobilizado para fornecer alimentos e galões de água aos alunos.

Com tendas para descanso, caixas de som e uma comissão dedicada à limpeza do espaço, os alunos demonstram organização para manter a mobilização. Um show da artista independente Sophia Chablau está agendado para o fim da tarde na rua da reitoria, reforçando o caráter cultural e de resistência do movimento.

A restrição ao acesso da imprensa à parte interna do prédio e a necessidade de muitos estudantes usarem máscaras evidenciam o clima de receio e o temor de represálias por parte da administração universitária, gerando um ambiente de tensão e desconfiança.

Demandas Estudantis

Em resposta às exigências de elevar o auxílio para R$ 1.804, a reitoria ofereceu um aumento de R$ 27 no auxílio integral e R$ 5 no parcial. O reitor Aluísio Augusto Cotrim Segurado afirma que a demanda dos estudantes mudou, e que o salário mínimo paulista nunca fez parte das discussões iniciais. Os estudantes, por sua vez, negam essa versão.

Além do PAPFE, os alunos reivindicam mudanças nas regras de uso dos espaços acadêmicos, a criação de cotas trans e a implementação de um vestibular indígena. Uma minuta sobre o uso dos espaços, inclusive, chegou a ser revogada pela reitoria após a ampliação da greve estudantil.

A infraestrutura da universidade também é alvo de críticas. Relatos de larvas, baratas e até pedaços de vidro nas refeições do restaurante universitário não apenas expõem falhas estruturais, mas também afetam diretamente a saúde e a dignidade dos alunos. A contratação de mais professores, ponto central na greve estudantil de 2023, permanece como outra demanda crucial.

Impasse

O reitor Segurado não demonstrou intenção de ceder. Em entrevista a jornalistas na sexta-feira, 08 de maio de 2026, ele declarou não reconhecer qualquer erro na condução das negociações que culminaram na invasão do prédio.

Afirmou que a proposta da instituição, apresentada na última reunião com os estudantes em 30 de abril de 2026, era final, considerando as "possibilidades orçamentárias da universidade".

O reitor criticou o que chamou de "outra agenda, externa à universidade", mencionando o uso de símbolos em camisas e bandeiras de partidos. Citou ainda a convocação de um ato contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) como um indício de orquestramento político.

A classe estudantil nega veementemente qualquer associação partidária. Para um estudante de comunicação da universidade, que preferiu não ser identificado, a tentativa de vincular o movimento a partidos "é uma forma de tentar deslegitimar os alunos que estão aqui". Segundo ele, "discursos políticos, de debate político, estão presentes, mas é algo natural e não ligado organicamente a algum tipo de partido político ou movimento específico".

Estopim do Conflito

A greve estudantil seguiu-se à paralisação de funcionários técnicos e administrativos da USP, que se encerrou em 24 de abril de 2026, após um acordo com a reitoria. A greve dos funcionários durou 10 dias.

Essa movimentação inicial ocorreu após a criação da GACE (Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas) pela reitoria, um bônus destinado a professores por atividades adicionais, em 31 de março de 2026.

No desfecho da greve dos funcionários, os trabalhadores aceitaram uma bonificação de cerca de R$ 1.600 mensais, que equipara seus ganhos ao valor destinado a professores por meio da GACE.

Dentre as garantias concedidas aos funcionários pela instituição, estava justamente o diálogo da reitoria com os estudantes sobre as pautas da categoria. Como resultado, rodadas de conversa foram realizadas, mas sem chegar a um destrave nas demandas estudantis.

De acordo com o reitor, em entrevista ao Jornal da USP, "não cabe mais negociação quando uma das partes entende que ela só termina com o atendimento total de todas as demandas".

Esta reportagem foi produzida pelo estagiário de jornalismo João Lucas Casanova sob supervisão do secretário de Redação Assistente Guilherme Pavarin.

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