NOVA ESPERANÇA CIENTÍFICA

Universidade Northwestern avança com vacina contra câncer de HPV

Ilustração de vírus HPV, que pode causar diversos tipos de câncer.
Pesquisa aponta nova esperança contra cânceres ligados ao HPV

Imunizante aumenta em 8 vezes a defesa do corpo contra células tumorais. Resultados pré-clínicos são animadores, mas testes em humanos são necessários, conforme estudo publicado em fevereiro na Science Advances.

A pesquisa da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, revelou que uma promissora vacina, desenvolvida a partir de fragmentos modificados do papilomavírus humano (HPV), demonstrou alta eficácia no combate a células tumorais. O estudo, publicado em fevereiro na revista Science Advances e amplamente analisado nesta domingo, 03/05/2026, oferece nova esperança para milhões de pessoas afetadas por cânceres associados ao vírus, ao elevar em até oito vezes a capacidade do sistema imune de identificar e destruir as células cancerosas.

Uma possível vacina, elaborada a partir de fragmentos modificados do papilomavírus humano (HPV), mostrou-se altamente eficaz no combate a células tumorais. Esta descoberta animadora veio de uma pesquisa da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, publicada em fevereiro na prestigiosa revista Science Advances. Nos testes realizados, o imunizante aumentou em até oito vezes a capacidade das células de defesa do organismo de reconhecer o local exato do câncer para, então, eliminá-lo.

A abordagem deste estudo difere da estratégia usualmente empregada para a prevenção do HPV. "O estudo aborda uma vacina terapêutica direcionada a cânceres associados ao vírus. Ela contém um pequeno fragmento de uma proteína viral derivada do HPV, que também se encontra nas células tumorais formadas por ele", esclarece o oncologista Henrique Alkalay Helber, especialista em tumores ginecológicos do Hospital Israelita Albert Einstein. "Ao ser exposto a esse fragmento, o sistema imune ativa células de defesa, que passam a reconhecer as células que expressam essa proteína, aprimorando significativamente sua capacidade de atacá-las."

Os dados do estudo indicam que o imunizante em teste, denominado N-HSNA, potencializou a resposta do sistema imunológico tanto em avaliações feitas em animais quanto em células humanas in vitro. Os camundongos que receberam a vacina tiveram a sobrevida prolongada, e a redução dos tumores foi amplificada quando o tratamento medicamentoso foi combinado com imunoterapia.

"Essa imunoterapia especializa as células de defesa do corpo, responsáveis por eliminar células doentes, ensinando-as a reconhecer partículas desse vírus. É como conceder a essa linha de defesa a capacidade de enxergar com óculos especiais", compara a imunologista Ana Karolina Marinho, membro da Comissão Técnica para a Revisão dos Calendários Vacinais da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

O produto em desenvolvimento é pensado especificamente para tratar indivíduos que já possuem tumores formados por lesões causadas pelo vírus. Entre os cânceres mais comuns que têm origem nessa infecção, destacam-se os de colo do útero, ânus, vulva, vagina, pênis, boca e garganta. Estima-se que 5% dos casos de câncer em todo o mundo estejam diretamente associados ao contato com este agente infeccioso, o que sublinha a relevância da pesquisa.

Apesar de os resultados serem considerados muito animadores, a comunidade científica recomenda cautela antes de considerar sua aplicação em seres humanos. "Esses são dados de estudos pré-clínicos, ou seja, realizados em animais e culturas de células. Eles representam um avanço importante, mas, para que a eficácia observada seja validada, é imprescindível passar por testes em humanos. Isso inclui ao menos três fases, que ampliam gradualmente o público imunizado, visando garantir tanto a eficiência quanto a segurança, evitando efeitos colaterais indesejados", ressalta Ana Karolina Marinho.

Um vírus perigoso — e totalmente evitável

Existem mais de 200 tipos de HPV, todos transmissíveis por contato direto com pele, mucosa ou por relação sexual. Os tipos 16 e 18 são os mais frequentemente associados à formação de câncer. Em geral, estes não causam as verrugas e lesões cutâneas mais conhecidas da doença.

Uma vez instalado nas células, o vírus pode provocar uma infecção persistente, que altera e multiplica essas células de forma descontrolada. "O tumor não é o vírus em si, mas sim células humanas transformadas após a infecção pelo HPV. Por essa razão, essas proteínas virais permanecem nas células cancerosas, permitindo que o sistema imune, uma vez treinado pela vacina, reconheça a célula como doente e possa destruí-la", detalha Henrique Helber.

A vacina em estudo tem o potencial de ser utilizada de forma complementar aos tratamentos atuais, como radioterapia e quimioterapia. "A intenção é ampliar a resposta imune antitumoral em associação com outras terapias já amplamente empregadas na prática médica", afirma o médico do Hospital Israelita Albert Einstein.

É fundamental recordar que o câncer de colo do útero e outras neoplasias ligadas ao HPV são altamente preveníveis por meio de vacina já amplamente disponível no Brasil. "A vacina é uma ferramenta extremamente eficaz para combater o câncer e previne contra os principais tipos de HPV cancerígeno. Quanto antes for aplicada, menor o risco de contato prévio com o vírus e, consequentemente, maior será a proteção", conclui a especialista da SBIm.

Na rede pública de saúde, a vacinação está acessível para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de pessoas imunossuprimidas e vítimas de violência sexual. Na rede privada, a vacina também está disponível, e é sempre recomendado consultar um médico para avaliar a indicação mais adequada.

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