MEDO NAS RUAS

Um terço dos brasileiros evita sair com celular por medo de assalto, revela estudo

Pessoa segurando celular com expressão de preocupação em ambiente urbano.
Cidadãos relatam receio de circular com celular nas ruas devido à criminalidade.

Estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Datafolha revela impacto do crime na vida de 33,5% da população.

Quase um terço da população brasileira (33,5%) já desistiu de sair com o aparelho celular por receio de assaltos. O dado alarmante foi revelado por um estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Datafolha, divulgado no domingo, 10 de maio de 2026. A pesquisa sublinha como a facilidade de lucro com a venda dos aparelhos e a realização de desvios via Pix transformaram o celular no principal alvo de criminosos, gerando uma onda de insegurança que impõe mudanças drásticas e silenciosas na rotina dos cidadãos. Essa alteração de comportamento impacta diretamente a dignidade, a mobilidade e o bem-estar social, além de causar prejuízos econômicos significativos ao País.

A crise da Segurança Pública, em grande medida, sintetiza-se no medo relacionado ao celular. Esse aparelho tornou-se uma evidência da violência urbana, que se manifesta desde furtos qualificados – como as famosas gangues da bicicleta – até casos graves de violência armada, que infelizmente podem culminar em latrocínio, conforme apontam os pesquisadores. A simples possibilidade de fazer lucro, não só com a venda do aparelho, mas também com a realização de desvios por Pix e a aplicação de diferentes tipos de golpes, solidificou o celular como o principal alvo.

Mesmo com uma queda nos roubos, o patamar elevado de ocorrências e as abordagens criminosas ainda causam grande preocupação, especialmente em São Paulo. Recentemente, imagens chocantes, como a do assassinato do ciclista Vitor Medrado, de 46 anos, em fevereiro de 2025, perto do Parque do Povo, no Itaim-Bibi, zona sul da capital, abalaram a população. Vitor foi morto com um tiro à queima-roupa. “Podia ser qualquer pessoa ali. Foi aleatório, parece uma roleta-russa o tempo todo”, desabafou meses depois ao Estadão a enfermeira Jaquelini Santos, de 40 anos, viúva da vítima. Ao menos três suspeitos foram presos pelo crime.

Em outro caso emblemático, a médica Marília Dalprá, de 67 anos, teve quatro costelas quebradas e parte do pulmão comprometida após ser assaltada no começo de 2025, no Parque Continental, zona oeste. Um dos assaltantes chegou a morder o dedo dela na tentativa de levar a aliança, mas não conseguiu. Pelo menos um suspeito foi detido.

Para os pesquisadores, a vida não se reorganiza apenas pela violência extrema, mas pela constante expectativa de exposição à violência em situações corriqueiras: caminhar na rua, sair à noite, portar o celular, usar acessórios de valor ou seguir o caminho habitual. Como consequência direta, esse medo transforma a mobilidade em um “cálculo permanente de autoproteção”. “O medo da violência faz com que as pessoas alterem seus comportamentos, e, ao alterar seus comportamentos, elas têm sua mobilidade reduzida”, explica Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum. “Isso gera prejuízos do ponto de vista psicológico para essas pessoas e do ponto de vista econômico, porque elas deixam de consumir, deixam de circular em determinados espaços.”

O estudo “Medo do Crime e Eleições 2026: Os Gatilhos da Insegurança”, encomendado pelo FBSP ao Instituto Datafolha, foi realizado entre os dias 9 e 10 de março de 2026. O objetivo foi captar não só a vitimização da população, mas também as modalidades de crime mais recorrentes quando se aborda o medo.

Violência contra a mulher

A pesquisa aponta ainda que 36,5% dos entrevistados já mudaram o percurso rotineiro por medo da violência e outros 35,6% deixaram de sair à noite. Essas medidas são adotadas não só pelo receio do roubo de celular, mas também por medo relacionado a outros tipos de crime – como a violência sexual, que tem mulheres como as principais vítimas, por exemplo.

A desagregação dos dados por sexo mostra que as mudanças de comportamento são mais intensas entre as mulheres: enquanto 40,9% delas já deixaram de sair à noite por medo, esse percentual não supera os 30% entre os homens. “A mudança de comportamento por sexo não deve ser lida como um dado isolado, mas como a tradução prática de uma estrutura mais ampla de insegurança: as mulheres não apenas relatam mais medo, elas reorganizam mais fortemente seus deslocamentos, horários e formas de portar objetos em resposta a esse medo, revelando um efeito desigual sobre o direito à cidade”, reforçam os pesquisadores.

A temática da segurança pública também se desdobra em outras preocupações. Recentemente, a Itália investiga integrantes do PCC como mafiosos, qualificando a facção como a “mais perigosa da América do Sul”. Outro estudo aponta que quatro em cada dez brasileiros notam a presença de PCC, CV e outras facções onde moram. Como mostrou o Estadão, São Paulo registrou alta de 41% nos casos de feminicídio no primeiro trimestre de 2026, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP), e essa modalidade de crime também cresce em outros estados.

O estudo divulgado no domingo, 10 de maio de 2026, utilizou metodologia quantitativa por meio de entrevistas pessoais, abordando entrevistados em pontos de fluxo populacional, distribuídos geograficamente nas áreas pesquisadas. Com abrangência nacional, a pesquisa incluiu regiões metropolitanas e cidades do interior de diferentes portes, em todas as regiões do Brasil, somando 137 municípios. A amostra foi realizada com a população brasileira, de 16 anos ou mais, totalizando 2.004 entrevistas. A margem de erro para o total da amostra é de 2 pontos para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%.

Segundo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP, um dos objetivos do estudo é orientar um debate eleitoral mais programático. “A gente não está falando aqui de proposta para cada um dos problemas apontados, mas em indicar quais são os fenômenos que deveriam ser priorizados pelo poder público e pelos futuros candidatos, seja a governos estaduais ou ao governo federal, do ponto de vista de uma política de segurança”, afirmou.

O lançamento ocorre em meio a um momento de protagonismo da segurança pública no cenário nacional. O governo federal lançará na terça-feira, 12 de maio de 2026, um plano de combate ao crime organizado, com um investimento previsto de R$ 960 milhões ainda em 2026. Na semana passada, o tema também foi pauta da conversa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com Donald Trump, nos Estados Unidos.

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