DECISÃO ELEITORAL ABRE POLÊMICA
TSE suspende pesquisa AtlasIntel após pedido de Flávio Bolsonaro; institutos divergem sobre decisão de Nunes Marques
Ministro Kassio Nunes Marques suspende levantamento por possível contaminação em perguntas. Especialistas e institutos de pesquisa questionam o argumento e a urgência da medida.
O ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou a suspensão liminar de uma pesquisa eleitoral do instituto AtlasIntel. A decisão, comunicada na terça-feira, 09/06/2026, atende a um pedido da campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e proíbe o instituto de divulgar, impulsionar ou republicar o levantamento até que o plenário da corte delibere sobre o caso. A informação foi divulgada pela Folha de São Paulo.
A pesquisa em questão foi publicada em 19 de maio. O pedido de suspensão, concedido parcialmente em 8 de junho, foi analisado cerca de 20 dias após a divulgação original. Especialistas em direito eleitoral apontam esse intervalo como um ponto que enfraquece o argumento de urgência, essencial para medidas liminares.
Na decisão, Kassio Nunes Marques apontou que a pesquisa poderia ter induzido os entrevistados devido à ordem e à formulação de certas perguntas. O ministro identificou que questionamentos sobre rejeição e imagem de Flávio Bolsonaro foram apresentados após um bloco de perguntas focado no Banco Master e em mensagens trocadas entre o senador e o empresário Daniel Vorcaro. Essa sequência, segundo o ministro, poderia ter contaminado as respostas.
O questionário continha 48 perguntas no total. Embora as questões sobre intenção de voto estivessem entre as primeiras, o ministro considerou que a apresentação de temas relacionados ao caso Master antes das perguntas sobre rejeição e imagem poderia influenciar a percepção dos respondentes.
José Paes Neto, advogado eleitoralista e vice-presidente da Comissão de Direito Constitucional da OAB-RJ, avalia que a ordem das perguntas sobre rejeição após o bloco sobre o Banco Master seria suficiente para contaminar a pesquisa. Contudo, ele ressalva que a inclusão de temas extraconjugais à disputa eleitoral é uma prática comum no mercado de pesquisas.
Emma Roberta Bueno, advogada e mestre em direito pelo IDP, considera que o lapso temporal entre a publicação e a decisão liminar fragiliza o argumento de urgência. Para ela, o caso deveria ter sido levado diretamente ao plenário, e os argumentos apresentados pelo PL não justificariam a suspensão, uma vez que o eleitor tem a capacidade de avaliar os dados de forma independente.
Fernando Neisser, professor da FGV Direito SP, critica a decisão. Ele argumenta que a restrição de pesquisas requer evidências robustas de fraude ou falhas metodológicas graves. Neisser sugere que o problema metodológico ocorreria se as perguntas sobre o caso Master precedessem as de intenção de voto, o que, segundo ele, não foi o caso aqui.
Bruno Andrade, da Abradep e professor do IDP, defende que a liminar está em conformidade com a legislação e cabe agora ao instituto AtlasIntel comprovar a justificativa metodológica para a ordem das perguntas. Ele estima que o impacto prático da decisão seja reduzido, mas impede o impulsionamento dos resultados antes do julgamento do plenário.
O TSE estipulou um prazo de dois dias para que a AtlasIntel apresente a documentação técnica referente à sua metodologia. O Ministério Público Eleitoral foi convocado para se manifestar em um dia, e o caso está previsto para análise do plenário do TSE na terça-feira (9).
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