NEUROCIÊNCIA E HERANÇA
Traumas não são herdados: o que a ciência diz sobre a transmissão geracional
Estudos indicam que o que se transmite entre gerações é uma maior sensibilidade ao estresse, e não a memória de eventos traumáticos específicos.
A neurociência busca esclarecer se eventos traumáticos podem ser transmitidos biologicamente de pais para filhos. Conforme explica Francisco José Esteban Ruiz, professor de Biología Celular da Universidad de Jaén, não há evidências de que memórias de guerras, agressões ou perdas sejam herdadas geneticamente, embora o ambiente e a biologia influenciem as futuras gerações de maneiras complexas.
A dinâmica do estresse e da adaptação
O que ocorre na prática é a transmissão de uma maior sensibilidade ou adaptação dos sistemas que regulam o medo e o estresse. Esse processo acontece por meio da convivência familiar e do ambiente pré-natal. Ao contrário de uma “área do medo” fixa, o trauma altera redes cerebrais responsáveis pela detecção de ameaças e regulação emocional, como a amígdala e o córtex pré-frontal. Como essas redes dependem da plasticidade neuronal em circuitos vivos, não existe um mecanismo biológico conhecido que copie memórias autobiográficas de um progenitor para o descendente.
O papel da aprendizagem e da gestação
O desenvolvimento infantil ocorre em estreita interação com os cuidadores. Crianças aprendem por imitação a identificar perigos, observando as reações, posturas e expressões faciais dos pais. Essa aprendizagem modela a percepção de segurança do indivíduo. Paralelamente, o ambiente uterino desempenha um papel crucial: o estresse intenso durante a gestação pode afetar o metabolismo materno e a função placentária, influenciando o desenvolvimento fetal. No entanto, cientistas apontam que é difícil separar o impacto dessas condições de outros fatores como nutrição, saúde da mãe e suporte social.
Limites da epigenética
Embora existam pesquisas sobre marcas epigenéticas, a ciência ressalta que essas alterações não provam a herança direta do trauma mental. Muitas dessas marcas reorganizam-se durante a formação dos gametas. A conclusão mais prudente é que, embora o ambiente familiar e genético influencie a sensibilidade ao estresse, a biologia oferece possibilidades de adaptação e mudança. Terapias eficazes e condições de vida saudáveis demonstram que genes não são um destino imutável.
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