ABUSO DE PODER

STF prende pai de Daniel Vorcaro em operação contra infiltrados na PF

Míriam Leitão explica operação policial do Caso Master que prendeu pai de Daniel Vorcaro
Míriam Leitão explica operação policial do Caso Master que prendeu pai de Daniel Vorcaro

Decisão do ministro André Mendonça revela rede criminosa para intimidar e vazar dados sigilosos; prisões preventivas somam 7 alvos.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, a deflagração da 6ª fase da Operação Compliance Zero. A medida levou à prisão de Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, e de outros seis alvos, além do cumprimento de 17 mandados de busca e apreensão. A decisão judicial revelou detalhes de uma complexa rede criminosa que, segundo a Polícia Federal (PF), operava para intimidar desafetos, obter informações sigilosas e monitorar adversários do banqueiro. Essa estrutura clandestina, que envolvia até mesmo integrantes da própria PF, expõe uma grave infiltração no aparato de segurança pública, abalando a confiança nas instituições e levantando sérias questões sobre a integridade do Estado.

As investigações da Polícia Federal apontam que alguns integrantes da própria corporação, incluindo uma delegada e policiais da ativa e aposentados, colaboravam ativamente com a organização criminosa. Eles faziam parte do núcleo batizado de "A Turma", grupo especializado em ameaças, intimidações presenciais, coerções, levantamentos clandestinos e acessos indevidos a sistemas governamentais, para atender aos interesses de Daniel Vorcaro.

De acordo com a PF, Marilson Roseno da Silva liderava este grupo e agia a mando de Henrique Vorcaro, que demandava as vantagens ilícitas e operava os pagamentos. Entre os policiais federais investigados e citados na decisão estão:

  • Sebastião Monteiro Júnior, policial federal aposentado;
  • Anderson Wander da Silva Lima, policial federal da ativa, lotado na Superintendência Regional da PF no Rio de Janeiro;
  • Valéria Vieira Pereira da Silva, delegada da PF;
  • Francisco José Pereira da Silva, policial federal aposentado.

Os investigadores apontam que Valéria e Francisco foram responsáveis por repassar informações sigilosas a Marilson Roseno, obtidas por meio de consultas indevidas no sistema e-Pol, uma plataforma interna de uso exclusivo da corporação. A decisão também menciona Manoel Mendes Rodrigues, descrito como um “empresário do jogo” no Rio de Janeiro e líder de um braço local da organização.

Para a Polícia Federal, o padrão de condutas observado sugere uma perigosa infiltração do grupo em “circuitos informacionais sensíveis”. Utilizando pessoas próximas ou com acesso funcional privilegiado, a organização facilitava a movimentação de recursos financeiros e de dados sigilosos para seus próprios fins criminosos.

Além de "A Turma", a PF identificou um segundo grupo, denominado "Os Meninos", com perfil eminentemente tecnológico. Este braço da organização dedicava-se a ataques cibernéticos, invasões telemáticas, derrubada de perfis e monitoramento telefônico ilegal. À época dos fatos, ambos os grupos eram gerenciados por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido pelo apelido de “Sicário”, e que visava cumprir os comandos do "núcleo central da organização criminosa".

Sexta fase da Operação Compliance Zero

A prisão de Henrique Vorcaro, ocorrida em Nova Lima, na região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), nesta quinta-feira, 14 de maio de 2026, marca a nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes financeiras. Ele foi um dos sete alvos de mandados de prisão preventiva e 17 de busca e apreensão cumpridos pela Polícia Federal. Os alvos são suspeitos de integrar uma organização criminosa acusada de praticar intimidação, coerção, obtenção de informações sigilosas e invasão de dispositivos informáticos.

Henrique Vorcaro é apontado como o responsável por demandar os serviços ilícitos e efetuar os pagamentos aos integrantes desses núcleos, nos quais se articulavam crimes como coação e vazamento de informações. Os mandados de prisão preventiva foram expedidos contra:

  • Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro;
  • David Henrique Alves;
  • Victor Lima Sedlmaier;
  • Rodrigo Pimenta Franco Avelar Campos;
  • Manoel Mendes Rodrigues;
  • Anderson Wander da Silva Lima, policial federal da ativa lotado na Superintendência Regional da PF no Rio de Janeiro;
  • Sebastião Monteiro Júnior, policial federal aposentado.

É importante ressaltar que as prisões preventivas são medidas cautelares e não representam uma condenação definitiva, cabendo recurso às defesas dos investigados.

Dados sigilosos e a rede de influência

A representação da Polícia Federal detalha que, em 2024, Marilson Roseno da Silva buscou auxílio de pelo menos três policiais federais para realizar consultas indevidas em sistemas internos da corporação. O objetivo era desvendar o conteúdo de um inquérito policial no qual Henrique Moura Vorcaro havia sido intimado. Em um trecho destacado, Marilson aciona Anderson Wander da Silva Lima, afirmando que “um parceiro vai encontrar comigo aqui e vai trazer uma sucinta aqui”, acompanhado da imagem da intimação.

Para os investigadores, esse episódio reforça a suspeita de que a estrutura clandestina mobilizada por Marilson e pelo grupo "A Turma" atuava não apenas em intimidações e cobranças, mas também na obtenção estratégica de informações sigilosas relacionadas a investigações de interesse direto de Henrique Vorcaro, evidenciando a extensão da rede de influência.

O que dizem os investigados

Em nota enviada à TV Globo, a defesa de Henrique Vorcaro declarou: "Constata-se que decisão se baseia em fatos cuja comprovação da respectiva licitude e o lastro de racionalidade econômica ainda não estão no processo. E não estão porque não foram solicitados à defesa e nem a ele. O ideal seria ouvir as explicações antes de medida tão grave e desnecessária. Cuidaremos imediatamente de demonstrar a estamos a dizer ainda hoje". O g1, por sua vez, ainda não conseguiu contato com os demais investigados.

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