MUDANÇAS NO COMPORTAMENTO

Solteirice em alta: como os brasileiros estão reinventando a vida sem um parceiro

Pessoas de diferentes idades celebrando a vida independente no Brasil.
O novo retrato dos solteiros no Brasil, com foco em autonomia e novas formas de convivência.

Dados do IBGE revelam que quase metade da população vive sem companheiro, desafiando estigmas sociais e transformando o mercado.

Quase metade da população brasileira vive atualmente sem um companheiro ou companheira, consolidando uma mudança estrutural na forma como a sociedade constrói suas relações. O levantamento, detalhado pelo Globo Repórter na sexta-feira (7), indica que 48,7% dos brasileiros se declaram solteiros, categoria que engloba pessoas que nunca se casaram, divorciados, separados ou viúvos.

O cenário, que reflete dados recentes do IBGE, deixa para trás a visão de que a ausência de um matrimônio seria sinônimo de fracasso pessoal. Hoje, a busca pela autonomia, a valorização das amizades e a priorização de projetos individuais ocupam o centro da vida de milhões de brasileiros, ressignificando o que significa habitar o próprio espaço.

Para muitas mulheres, essa autonomia tem gerado redes de afeto sólidas. Grupos de amigas, como Thaíse Valentim, Rafaely Alves, Sabrina Franco e Carolina Piacitelli, exemplificam como a vida solo possibilita conexões mais profundas. Após enfrentar um divórcio, Rafaely enfatiza que a independência permitiu a construção de uma trajetória pautada em viagens e conquistas próprias, longe da figura estigmatizada da "solteirona".

Apesar da mudança cultural, especialistas apontam que o preconceito ainda persiste de forma desigual. A psicóloga e professora da Universidade de Brasília (UnB), Valeska Zanello, observa que as mulheres ainda são mais julgadas pelo estado civil do que os homens. O psicanalista Lucas Bulamah concorda, destacando que, enquanto o "solteirão" costuma ser visto com charme, a mulher solteira ainda enfrenta o peso de julgamentos sociais, embora uma nova representação da mulher solteira e feliz esteja ganhando força.

As transformações também são demográficas e econômicas. Com uma média de idade para o primeiro casamento fixada em 29 anos para mulheres e 31 para homens, a postergação da união é acompanhada por um mercado imobiliário em adaptação. Cerca de 20% dos brasileiros residem sozinhos, o que impulsionou a oferta de apartamentos compactos, como o de 22 metros quadrados onde vive Elmo, em São Paulo, espaço que ele define como suficiente para sua felicidade plena.

Seja por meio de aplicativos de namoro ou de iniciativas presenciais, como o "catálogo de solteiros" criado pela empreendedora Samantha Hewsen em Brasília, a forma de buscar um par também se diversificou. No entanto, para Valeska Zanello, a lição mais importante é a desvinculação entre felicidade e união romântica. Como resume Denise, que aos 61 anos optou pela liberdade após três casamentos, a vida pode ser plena mesmo sem a presença de um parceiro.

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