ENERGIA ABABUNDANTE
Setor elétrico busca novas demandas para absorver excedente de energia
Com oferta maior que o consumo, o setor elétrico discute estratégias para atrair grandes consumidores como data centers e indústrias, visando destravar novos investimentos.
O setor elétrico brasileiro enfrenta um novo desafio: absorver o excedente de energia produzido e transformá-lo em desenvolvimento econômico. Após anos focadas em aumentar a oferta, empresas agora buscam ativamente novas demandas, como data centers, projetos de aço verde, baterias e indústrias intensivas em energia. Essa busca visa não apenas equilibrar o sistema, mas também destravar uma nova rodada de investimentos no país, em um cenário de aumento dos cortes de geração renovável e incertezas sobre futuros aportes.
A discussão ganhou destaque no Enase, principal encontro do setor elétrico, realizado no Rio de Janeiro. Adriana Waltrick, CEO da Spic Brasil, ressaltou a necessidade de uma estratégia conjunta entre governo, reguladores e iniciativa privada. "Temos que juntar programa de Estado, regulador e iniciativa privada para um grande plano de país", defendeu, enfatizando a importância de criar condições para atrair grandes consumidores de energia e impulsionar a economia.
Waltrick vê o leilão de baterias como um auxílio para lidar com os desequilíbrios atuais, armazenando energia em momentos de baixa demanda para uso posterior. Contudo, ela alerta que a tecnologia não resolve o problema estrutural de uma economia que precisa atrair novas indústrias intensivas em eletricidade.
Fabio Bortoluzo, CEO da Atlas Renewable Energy no Brasil, pede cautela ao debater o excesso de energia, pontuando que o problema se concentra em horários específicos do dia, enquanto a demanda nos períodos de ponta segue sendo um desafio. Apesar disso, ele prevê uma expansão significativa do consumo de eletricidade nos próximos anos, com destaque para o crescimento da indústria de data centers, impulsionada pela digitalização e inteligência artificial. "Vemos uma onda de data centers próximos aos grandes centros de consumo", afirmou. A Atlas suspendeu US$ 1 bilhão em investimentos no Brasil devido à falta de perspectivas.
Além dos data centers, Bortoluzo cita a eletrificação de frotas de veículos e a produção de fertilizantes verdes como segmentos promissores para ampliar a demanda. Ele também destaca as baterias como ferramenta essencial para mitigar os efeitos dos cortes de geração renovável e viabilizar novos investimentos, citando projetos de armazenamento que a Atlas desenvolve no Chile.
Rui Chammas, CEO da Isa Energia Brasil, confirma que a demanda por novas cargas já surge, especialmente no Sudeste. No entanto, a falta de planejamento e infraestrutura adequada dificulta a instalação desses empreendimentos perto dos centros consumidores. "Não existe um mês que eu não receba três ou quatro empresários de data centers para trazer esse empreendimento para São Paulo", declarou. O executivo alerta para a necessidade de antecipação do setor, já que a implantação de novas linhas de transmissão pode levar cerca de quatro anos, para garantir que a infraestrutura elétrica acompanhe o crescimento da demanda futura.
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