MILÍCIA DIGITAL ATACA

Servidor público relata invasão e ameaças de milícia digital em Macapá

Prédio da Prefeitura de Macapá.
A Polícia Federal identificou uma estrutura que utilizava recursos públicos da Prefeitura de Macapá.

Psicólogo aponta estrutura ligada à Prefeitura de Macapá que teria desviado R$ 25 milhões. Vítima relata invasão e ameaças com arma para entregar celular.

Um servidor público em Macapá relatou ter sido vítima de uma invasão em seu apartamento e ameaçado por um homem armado. A ação ocorreu em busca de um celular que conteria informações sobre o funcionamento de uma suposta milícia digital. A investigação da Polícia Federal (PF) aponta que essa estrutura utilizava recursos públicos da Prefeitura de Macapá para financiar a produção de conteúdo político em redes sociais, atacar adversários e pagar influenciadores digitais, com um esquema que teria movimentado mais de R$ 25 milhões.

Segundo informações obtidas pela Rede Amazônica, pessoas ligadas à investigação sofreram ameaças, invasões e intimidações após o avanço das apurações. O caso, que se refere a fatos ocorridos em 2024 e 2025, é um dos desdobramentos da Operação Palanque Digital, deflagrada pela PF.

O psicólogo Gleidson Alves Barros, identificado pela PF como operador da estrutura, descreveu o momento de terror que viveu. Ele relatou que um homem armado invadiu sua residência, buscando o aparelho celular onde estariam dados sobre o grupo. "A minha casa foi invadida por uma pessoa desconhecida, querendo o celular onde tinha informações, e estava armado. Eu achei que naquele momento ia morrer. Eu estava amarrado em cima da cama e ele ficava insistindo e pedindo o celular. Queria saber se eu tinha informações contra o prefeito", declarou a vítima.

De acordo com um relatório da PF, a estrutura operava dentro da Prefeitura de Macapá, reunindo agentes públicos, produtores de conteúdo e influenciadores digitais. O grupo seria responsável pela produção de publicações favoráveis ao então prefeito Antônio Paulo de Oliveira Furlan, e por ataques a opositores. A PF aponta o ex-prefeito, que é pré-candidato ao Governo do Amapá, como o principal beneficiário, com indícios de que ele tinha conhecimento e aprovava as atividades.

Núcleo de Coordenação e Servidores

O núcleo de coordenação era composto por figuras ligadas diretamente à administração municipal. Entre eles, José Furlan Neto (irmão do ex-prefeito), descrito como coordenador político; José Ivo Melo Souza, que ocupava a secretaria de gabinete, apontado como membro central; Gleidson Alves Barros, responsável pela função operacional; Juarez Pantoja Menescal de Sousa, ex-secretário de comunicação, considerado um dos principais coordenadores; e Diego Cesar dos Santos Silva Trajano, ex-secretário de comunicação e articulação institucional, encarregado da orientação política.

O relatório também menciona duas servidoras da Secretaria Municipal de Comunicação, que teriam sido responsáveis pela formalização e prorrogação de contratos com uma empresa de comunicação que teria fornecido suporte financeiro à rede. A investigação se baseia em depoimentos e em conversas analisadas pela PF, que revelam orientações para a produção de conteúdos difamatórios, discussões sobre alvos e negociações de pagamentos, como a solicitação de criação de páginas no padrão de portais de notícias para aumentar o engajamento.

Análise de Áudios e Produção de Ataques

Áudios analisados pela perícia da Polícia Federal mostram a elaboração de peças de ataque contra adversários políticos, incluindo uma montagem do governador com "mãos cheias de sangue". A PF descreve a estrutura como financiada com recursos públicos, por meio de contratos com uma agência de publicidade, responsável pelos repasses a administradores de páginas. O superintendente da PF no Amapá, Milton Neves, explicou que o esquema envolvia desinformação, fake news e conteúdos elogiosos ao ex-prefeito, tudo pago com dinheiro público.

O governador do Amapá, Clécio Luís, expressou indignação com os desdobramentos da operação, classificando o desvio de R$ 25 milhões como um crime contra a população e a democracia. Ele ressaltou que sua gestão foi alvo de uma estrutura profissionalizada de desinformação ao longo de quase quatro anos. O governador reiterou sua confiança na justiça para que todos os envolvidos sejam responsabilizados e o patrimônio público ressarcido.

Posicionamentos Oficiais

A defesa de Dr. Furlan declarou que nenhuma das suspeitas levantadas até o momento foi comprovada, classificando a atribuição de chefia de qualquer grupo investigado como grave e sem fundamento. A nota enfatiza que os fatos investigados datam de 2024 e 2025, período em que Dr. Furlan não era pré-candidato, e reafirma a confiança nas instituições.

Juarez Menescal também se manifestou, afirmando confiar na justiça e nas investigações. Ele alegou que os diálogos divulgados são recortes retirados de contexto, refletindo a rotina de trabalho em comunicação e marketing político, e que sua atuação esteve restrita às atribuições legais do cargo. Menescal ressaltou que o vazamento ocorreu após perder a confiança da equipe e que busca construir uma narrativa sem respaldo no conteúdo integral.

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