DIAGNÓSTICO PRECISO
Sem B12: quando a "ansiedade" é um sinal de alerta físico
Médicos e especialistas reforçam a necessidade de investigação completa para evitar sequelas neurológicas permanentes.
Uma importante alerta médico, emitido por especialistas da área, destaca que a deficiência de vitamina B12 pode mascarar-se como transtornos de ansiedade, impactando diretamente a saúde e o bem-estar de inúmeros indivíduos. A constatação, reforçada por profissionais como o hematologista Rodolfo Kameo e o psiquiatra Adiel Rios, sublinha que sintomas comuns como irritabilidade, cansaço persistente e palpitações podem não ser apenas sinais de desgaste emocional, mas sim a manifestação de uma carência nutricional. Essa compreensão é vital para evitar anos de tratamentos ineficazes e prevenir sequelas neurológicas permanentes, conforme sublinhado nesta domingo, 17 de maio de 2026, no contexto da medicina integrada.
A carência de vitamina B12 pode deflagrar uma série de sintomas que, à primeira vista, facilmente se confundem com quadros psiquiátricos. Irritabilidade acentuada, uma sensação de cansaço que não cede, palpitações inesperadas, dificuldade de concentração e a tão descrita "mente embaçada" são queixas frequentes de pacientes que procuram consultórios médicos, muitas vezes convictos de estarem apenas exaustos emocionalmente.
“A deficiência de vitamina B12 pode levar a um quadro de anemia associado a sintomas neuropsiquiátricos”, detalha o hematologista Rodolfo Kameo, do Hospital Santa Lúcia Sul, em Brasília. O médico enfatiza que a gama de sinais é vasta, podendo abranger depressão, ansiedade, psicose, demência e, em casos mais graves, até mesmo delírio, demonstrando a complexidade da interação entre nutrição e saúde mental.
Quando a ansiedade pode ter origem física
No dia a dia da prática clínica, a presença de sintomas físicos concomitantes a um quadro emocional serve como um potente sinal de alerta para os médicos. Sensações incomuns como formigamentos nas mãos e nos pés, tontura ao se levantar, alterações no equilíbrio, exaustão extrema e falhas de memória são indicadores que se desviam do perfil clássico dos transtornos ansiosos, apontando para a necessidade de uma investigação mais profunda.
O psiquiatra Adiel Rios, que atende em São Paulo, observa que é comum pacientes passarem meses ou até anos tratando a ansiedade sem que a origem orgânica seja devidamente investigada. “O corpo grita ansiedade. A causa, porém, é nutricional”, adverte Rios. Ele esclarece que a vitamina B12 desempenha um papel fundamental na síntese de neurotransmissores cruciais para o humor e o equilíbrio emocional, como a serotonina e a dopamina, evidenciando a interconexão entre o físico e o mental.
Apesar da clara relação entre a deficiência nutricional e os sintomas psiquiátricos, o Dr. Kameo faz uma ressalva importante: “É fundamental ressaltar que a maioria dos casos de ansiedade não está associada à deficiência de vitamina B12”. Por isso, para um diagnóstico preciso e um tratamento eficaz, a avaliação médica criteriosa e exames laboratoriais específicos são indispensáveis.
Exame simples pode evitar sequelas neurológicas
A jornada diagnóstica geralmente se inicia com um exame de sangue para aferir os níveis séricos de vitamina B12. Em certas situações, para descartar uma deficiência funcional — que pode ocorrer mesmo com níveis aparentemente normais —, outros marcadores podem ser solicitados, garantindo uma avaliação completa e acurada.
Diversos grupos são considerados de maior vulnerabilidade à carência de B12: indivíduos veganos que não realizam suplementação adequada, pacientes submetidos a cirurgia bariátrica, idosos, portadores de gastrite atrófica ou anemia perniciosa, e aqueles que utilizam cronicamente medicamentos que interferem na absorção da vitamina, como omeprazol e metformina.
Para o psiquiatra Rios, negligenciar esses sinais pode acarretar consequências duradouras. “Tratar a mente sem investigar o organismo é tratar metade da pessoa”, afirma, sublinhando a importância de uma visão holística da saúde.
Rodolfo Kameo reforça o alerta, salientando que a deficiência prolongada de vitamina B12 pode resultar em sequelas neurológicas permanentes. “Se demorar para tratar a deficiência de B12, haverá piora progressiva da anemia e é possível que fique sequela neurológica”, pontua o hematologista, enfatizando a urgência do diagnóstico e tratamento.
Sintomas persistentes exigem investigação médica
Especialistas são unânimes: sintomas emocionais que persistem, sobretudo quando acompanhados de manifestações físicas, jamais devem ser tratados apenas como ansiedade sem uma investigação clínica aprofundada. A deficiência de vitamina B12, por sua natureza insidiosa, pode progredir lentamente, comprometendo o funcionamento do cérebro e do sistema nervoso antes mesmo que alterações significativas surjam nos exames de sangue.
Além do impacto no estado emocional, a escassez da vitamina pode desencadear fraqueza muscular, alterações de sensibilidade, dificuldades de locomoção e lapsos de memória. Não raro, pacientes navegam por anos entre diversas consultas psiquiátricas e tentativas de tratamento para ansiedade, sem que a verdadeira origem de seus sofrimentos seja desvendada.
O psiquiatra Adiel Rios reitera que a medicina contemporânea já superou a dicotomia entre saúde mental e física. “O intestino fala com o cérebro. Os hormônios falam com o humor. As vitaminas falam com os neurônios”, exemplifica, destacando a complexidade e a interconexão do corpo humano. Ele conclui que a identificação precoce da deficiência de vitamina B12 tem o poder de prevenir danos irreversíveis e, fundamentalmente, elevar a qualidade de vida do paciente.
Embora seja verdade que nem todo quadro de ansiedade está vinculado à carência de vitamina B12, a mensagem dos especialistas é clara: sintomas persistentes, especialmente quando acompanhados de sinais físicos notórios, demandam uma investigação médica completa e sem demora. O diagnóstico antecipado não só evita o agravamento da anemia e potenciais danos neurológicos, mas também poupa o paciente de anos de tratamentos que falham em atacar a causa real de seu sofrimento. Em um cenário de aumento expressivo dos casos de ansiedade no Brasil, a comunidade médica advoga por uma abordagem mais ampla e humanizada, que contemple fatores nutricionais e metabólicos antes de firmar um diagnóstico definitivo, assegurando que o cuidado seja verdadeiramente integral.
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