RECORDES E CIÊNCIA

Sebastian Sawe: A Estratégia Completa do Recorde Sub-2h na Maratona de Londres

Sebastian Sawe correndo na Maratona de Londres
Foto: REUTERS/Matthew Childs / Adobe Stock

O queniano Sebastian Sawe redefiniu o atletismo ao correr 42 km em 1h59min30s na Maratona de Londres. Entenda como a combinação de nutrição avançada, adaptação fisiológica e tecnologia de ponta superou a 'simples' refeição de pão e mel.

O queniano Sebastian Sawe reescreveu a história do atletismo ao cruzar a linha de chegada da Maratona de Londres em impressionantes 1 hora, 59 minutos e 30 segundos, tornando-se o primeiro a romper a barreira das duas horas em uma prova oficial. Esse feito extraordinário, que continua a inspirar o mundo do esporte e é amplamente debatido nesta quarta-feira, 29 de abril de 2026, surpreendeu muitos ao revelar uma refeição pré-corrida aparentemente simples: duas fatias de pão, mel e chá. No entanto, o sucesso por trás desse recorde transcende a simplicidade, mergulhando em uma arquitetura nutricional e fisiológica de ponta, planejada para maximizar cada gota de energia e minimizar o impacto no corpo do atleta.

A verdade é que por trás do feito de Sebastian Sawe, houve uma estratégia nutricional sofisticada. Ela foi baseada em um altíssimo consumo de carboidratos antes e durante a prova, impulsionada pelo uso de tecnologias que aprimoram a absorção intestinal. A suplementação foi meticulosamente planejada ao longo do percurso, e até mesmo um tênis ultraleve de 97 gramas, com placa de carbono, contribuiu para a performance histórica.

Durante a corrida, Sawe ingeriu cerca de 230 gramas de carboidratos, um valor significativamente acima das recomendações tradicionais. A reposição foi constante, realizada a cada 5 quilômetros com géis, bebidas energéticas, cafeína e um hidrogel inovador, desenvolvido para facilitar a absorção de nutrientes sem causar desconforto gastrointestinal, um ponto crítico em provas de longa distância.

Nos dias que antecederam a Maratona de Londres, o atleta queniano já consumia bebidas ricas em carboidratos, buscando maximizar seus estoques de glicogênio. Antes mesmo da largada, ele ingeriu bicarbonato e tomou um gel energético, complementando com outro gel contendo cafeína na metade do percurso, otimizando seu estado energético.

O acompanhamento científico do atleta, realizado por meio de rastreamento com carbono-13 na respiração, revelou um dado impressionante: Sebastian Sawe chegou a utilizar quase 100 gramas de carboidrato por hora por volta do quilômetro 30. Esse é um limite considerado próximo do máximo que o corpo humano consegue sustentar atualmente, evidenciando uma adaptação excepcional.

O que realmente sustenta quase duas horas nesse ritmo

Nutricionistas consultados pelo G1 explicaram que o pão e o mel funcionam por serem carboidratos simples, de rápida absorção, que ajudam a evitar desconfortos gástricos. No entanto, essa refeição leve é eficaz apenas porque o atleta já largou com os estoques de glicogênio — a forma de energia armazenada no corpo — completamente cheios.

Um maratonista de elite pode armazenar entre 400 g e 800 g de glicogênio nos músculos e no fígado. Esse estoque substancial é resultado da alimentação cuidadosamente planejada nos dias anteriores à prova, e não da refeição leve consumida na manhã da corrida, detalha o nutricionista Eduardo Reis, membro do departamento científico da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva (ABNE).

Durante a prova, a ingestão contínua de carboidratos é crucial para manter os níveis de glicose no sangue, retardar a fadiga e preservar parte do glicogênio muscular, prolongando a capacidade de alta performance do atleta.

Especialistas ressaltam que, sem essa combinação essencial — de estoques elevados e ingestão estratégica durante a corrida —, uma refeição leve isolada antes da largada aumentaria drasticamente o risco da temida "quebra" de desempenho.

Segundo Reis, a estratégia meticulosamente adotada por Sawe prioriza o esvaziamento gástrico eficiente, fundamental para o conforto do atleta, aliado à manutenção constante da glicemia.

“Para um atleta que corre a quase 21 km/h, o conforto gastrointestinal é tão importante quanto a energia disponível”, afirma o especialista, sublinhando a delicadeza do balanço fisiológico.

Quando ocorre a quebra

A chamada “quebra” não está associada a um quilômetro exato da maratona. Ela emerge da combinação de fatores como a redução acentuada do glicogênio, a dificuldade em manter a glicose no sangue, a desidratação, o aumento da temperatura corporal e a fadiga neuromuscular, explica a doutora em Ciências Nutricionais e Metabolismo pela Unicamp, Heloisa Castanheira Santo André.

A estratégia de Sebastian Sawe foi precisamente desenhada para impedir que esses fatores se acumulassem e comprometessem seu desempenho.

O risco de queda de energia é maior quando a refeição leve é a única estratégia adotada e não há um preparo adequado nos dias anteriores.

No caso de atletas de elite, como Sawe, esse risco é minimizado por dois fatores principais:

  • **Eficiência metabólica:** Permite um maior uso de gordura como fonte de energia, poupando carboidratos.
  • **Suplementação contínua:** Ingestão planejada de géis e bebidas ricas em carboidratos ao longo de toda a prova.

“Um corredor que chega à prova com baixos estoques de glicogênio, que não se alimentou bem nos dias anteriores ou que não consome carboidrato durante a corrida pode ter queda de rendimento. Mas, no caso de um atleta de elite, essa refeição leve é combinada com uma preparação nutricional anterior e com ingestão planejada de carboidratos durante a prova”, destaca Santo André, enfatizando a visão global.

Por que carboidratos simples são centrais na estratégia

Pão e mel ganharam destaque na história por representarem uma combinação eficiente de glicose e frutose. Essas duas substâncias utilizam transportadores distintos no intestino, o que potencializa a capacidade de absorção de energia. Contudo, na prática, alimentos como arroz, banana, mingau, bebidas esportivas e géis podem cumprir o mesmo papel energético.

O ponto central não reside no alimento específico, mas sim na capacidade do corpo de absorver grandes quantidades de carboidrato sem sofrer desconforto intestinal. Essa capacidade, segundo Santo André, exige adaptação e treinamento específico durante a fase de preparação.

“O pão fornece glicose e o mel oferece glicose e frutose. Essa combinação utiliza diferentes transportadores no intestino, o que maximiza a absorção de energia sem sobrecarregar o sistema digestivo”, acrescenta Reis, reforçando a importância dessa sinergia.

Tecnologia e fisiologia entram na conta

O desempenho espetacular de Sebastian Sawe também contou com fatores que transcendem a nutrição:

  • **Tênis ultraleve:** Modelo Pro Evo da Adidas, com apenas 97 gramas e placa de carbono, otimizando a impulsão.
  • **Uso de hidrogel:** Melhoria significativa na absorção intestinal de nutrientes.
  • **Controle antidoping rigoroso:** Testes surpresa a cada três dias, garantindo a integridade da competição.
  • **Características físicas:** Pernas longas e panturrilhas finas, que naturalmente reduzem o gasto energético.
  • **Economia de corrida:** Típica de atletas quenianos, que podem gastar até 20% menos energia por quilômetro percorrido.

Essa eficiência biomecânica e fisiológica permite que eles utilizem menos glicogênio por minuto e convertam o carboidrato ingerido em energia útil de forma mais eficaz.

Quanto carboidrato é necessário

Não existe um valor único e universal para a ingestão de carboidratos, mas recomendações gerais indicam:

  • **Corridas de 1 a 2 horas:** Cerca de 30 gramas por hora.
  • **Corridas de 2 a 3 horas:** Cerca de 60 gramas por hora.
  • **Corridas de mais de 3 horas:** Cerca de 90 gramas por hora.

Sebastian Sawe ultrapassou significativamente esses valores, aproximando-se de 100 gramas por hora em parte da prova. Esse feito é possível apenas com uma combinação de treinamento intestinal específico, uma mistura inteligente de glicose e frutose, e o apoio da tecnologia de absorção.

O que a história realmente mostra

A refeição aparentemente simples antes da largada não foi o segredo mágico do recorde. Ela foi, na verdade, a etapa final de uma engrenagem complexa e bem azeitada que envolveu:

  • Nutrição meticulosamente planejada por dias.
  • Estoques máximos de glicogênio no corpo.
  • Ingestão contínua e estratégica de carboidratos durante a prova.
  • Tecnologia avançada para otimizar a absorção.
  • Suplementação precisa e inteligente.
  • Economia biomecânica e equipamentos de ponta.

Sem esse conjunto integrado, o pão e o mel teriam sido apenas pão e mel, incapazes de sustentar um recorde que redefine os limites da capacidade humana na maratona.

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