DOENÇA PODE VOLTAR

Sarampo: O risco de retorno da doença no Brasil e a importância da vacinação

Pessoa com marcas vermelhas na pele indicando sarampo.
A imagem mostra o pescoço de uma pessoa com várias marcas vermelhas características do sarampo.

Especialistas alertam para o risco iminente de reintrodução do sarampo no país, impulsionado por surtos em outros continentes e pela queda na cobertura vacinal. A ciência reforça a imunização como principal barreira.

Apesar de o Brasil ter sido declarado livre da circulação do sarampo pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o país enfrenta um risco iminente de reintrodução da doença. Esta quinta-feira, 04/06/2026, marca um alerta significativo, especialmente com o aumento de casos em outros continentes e a preocupação com a cobertura vacinal em território nacional.

O diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, Eder Gatti, emitiu uma nota técnica destacando a ameaça. Fatores como a alta de infecções nas Américas, onde Estados Unidos, Canadá e México concentraram 67% dos casos continentais em 2025, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), intensificam essa preocupação. Para turistas que pretendem viajar para acompanhar a Copa do Mundo, o cenário representa um risco adicional.

O infectologista Alberto Chebabo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta a gravidade da situação: “Isso é grave e gera preocupação porque mesmo os países com uma cobertura vacinal adequada, como o Brasil, estão sob risco de ter um respingo dessa situação que está fora de controle no mundo, inclusive em países desenvolvidos.” A queda na percepção da gravidade da doença, aliada a discursos antivacina, contribui para a vulnerabilidade da população.

A melhor prevenção reside na imunização

No Brasil, a cobertura vacinal para o sarampo em 2025 atingiu 92,66% para a primeira dose e 78,02% para o reforço. “O impacto da entrada do vírus é reduzido porque temos uma alta imunidade da população; isso freia a disseminação”, pondera Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios, Exantemáticos, Enterovírus e Emergências Virais do Instituto Oswaldo Cruz. Contudo, ela adverte que, por ser um vírus altamente contagioso, ele pode encontrar pessoas não imunizadas, tornando a vacinação a alternativa mais segura.

A recomendação do Ministério da Saúde para quem pretende viajar é tomar a tríplice viral pelo menos 15 dias antes da viagem. Crianças a partir de 6 meses que forem para áreas endêmicas podem ter as doses antecipadas. A vacina contra o sarampo, produzida a partir do vírus vivo atenuado, estimula o corpo a desenvolver anticorpos. Pessoas que já tiveram a doença não precisam de nova dose, pois adquirem imunidade vitalícia.

A estratégia de vacinação foi adotada pelo Ministério da Saúde em 1968. Contudo, a vacina só se consolidou como medida de controle a partir de 1988, com distribuição ampla. Um surto em 1997, que infectou mais de 50 mil crianças, levou à atualização do protocolo para duas doses e ampliação do público-alvo. Esse esforço resultou na queda drástica de casos: de 61,4 mil em 1990 para apenas um caso importado em 2001. O calendário atual prevê a primeira dose da tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba) aos 12 meses, com reforço aos 15 meses. Adultos até 29 anos sem o esquema completo podem receber até duas doses; entre 30 e 59 anos, uma dose se não houver histórico de doença ou vacinação. Idosos a partir de 60 anos já são considerados protegidos.

Discurso antivacina e disparidade regional aumentam vulnerabilidades

A contida percepção da gravidade do sarampo no Brasil deixou muitos adolescentes e jovens adultos sem as doses completas da vacina, aumentando o contingente de suscetíveis. O retorno expressivo de casos em 2019, com 21,7 mil pacientes contaminados, coincidiu com a emergência da pandemia de covid-19. Segundo um artigo do cientista político Samuel de Melo Barbosa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), há uma correlação direta entre a desconfiança em vacinas e a queda na cobertura vacinal. A hesitação dos pais em vacinar os filhos, influenciada por discursos de desinformação, atrasa o calendário vacinal, segundo Fátima Soares, enfermeira do Programa Municipal de Imunizações de São Paulo.

A preocupação com bolsões de baixa cobertura vacinal, especialmente no Norte do país, onde há maior concentração de cidades com indicadores abaixo do desejado, é acentuada pela falta de estrutura em alguns municípios. Abiude Souza, agente comunitário de saúde em Manaus (AM), relata a precarização do trabalho, com falta de equipamentos e desvio de função, comprometendo o registro e rastreio de casos suspeitos. A alta rotatividade de agentes temporários exige treinamento constante das novas equipes.

Contenção do contágio e vigilância ativa

Diante desses desafios, o Ministério da Saúde e as secretarias estaduais e municipais intensificam campanhas de vacinação e a vigilância epidemiológica. Ao identificar um caso suspeito, inicia-se uma cadeia de investigação que inclui exames laboratoriais para confirmação, busca e vacinação de contatos não imunizados, e sequenciamento genético do vírus para rastrear a origem. “O fato de não termos tido casos secundários depois dos três confirmados neste ano demonstra que teve uma boa ação de vigilância e de controle da doença”, afirma Alberto Chebabo, validando a eficácia da estratégia.

Sarampo: uma doença grave que pode levar à morte

O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa, transmitida por secreções respiratórias. Até 90% das pessoas não vacinadas em contato com um infectado podem adoecer. Os sintomas incluem manchas avermelhadas, febre alta, coriza, conjuntivite e dores no corpo, podendo evoluir para pneumonia, surdez e até óbito. “O maior risco de complicação é para as crianças menores de um ano, e também os imunossuprimidos, que não podem se vacinar. Nesses casos, pode haver quadros de septicemia e até óbito”, alerta Chebabo. A empresária Thereza Lopes, que teve sarampo aos 4 anos, reforça a importância da ciência e da vacinação para a qualidade de vida, alertando que qualquer doença fragiliza o indivíduo.

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