ALERTA PARA AGRO

Santander alerta para riscos ao agro e infraestrutura com a chegada do El Niño

Gráfico de projeção do El Niño e imagem de plantação de soja.
O fenômeno El Niño pode afetar significativamente a produção agrícola e a logística de grãos no Brasil.

Relatório do Santander aponta que empresas como Rumo e Hidrovias do Brasil podem enfrentar desafios significativos devido a impactos climáticos na produção agrícola e na logística de grãos.

A crescente probabilidade de um evento forte de El Niño nos próximos meses acende um sinal de alerta para os setores de agronegócio e logística de grãos no Brasil. Analistas do Santander avaliaram, em relatório divulgado nesta quinta-feira, 18/06/2026, que empresas como a Rumo e a Hidrovias do Brasil podem enfrentar riscos relevantes. Estes riscos surgem caso o fenômeno climático afete a produção agrícola ou provoque interrupções no transporte de cargas, impactando diretamente a economia e a vida de milhares de produtores e trabalhadores.

A NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) projeta uma chance superior a 80% de formação do El Niño após junho de 2026. A probabilidade de um evento forte ou muito forte, que pode intensificar os impactos, situa-se acima de 65% entre outubro e dezembro.

O Santander detalha que as consequências podem variar desde a quebra de safra, especialmente na segunda safra de milho, até problemas de navegabilidade em hidrovias cruciais para o escoamento. Há também a previsão de redução no ritmo de crescimento dos fretes rodoviários e uma pressão adicional sobre a já delicada rentabilidade dos produtores rurais.

Embora o Centro-Oeste não seja historicamente a área mais atingida pelo fenômeno, os analistas observam uma tendência de concentração de chuvas em períodos mais curtos. Essa dinâmica amplifica a volatilidade da produtividade agrícola, gerando incertezas para quem depende do campo.

Hidrovias podem enfrentar dificuldades operacionais

Um dos pontos de maior atenção se concentra na região Norte. O levantamento do Santander aponta que, durante episódios de El Niño, o nível do Rio Tapajós tende a baixar cerca de 0,9 metro em média. Essa redução compromete a navegabilidade, afetando diretamente o escoamento de grãos pelo estratégico Arco Norte, uma rota vital para as exportações brasileiras e para a economia local.

O cenário representa um risco especialmente relevante para a Hidrovias do Brasil, cuja operação é intrinsecamente ligada às condições de navegação na vasta região amazônica. A interrupção nesse fluxo logístico pode ter efeitos cascata.

O estudo também identificou que, em anos de El Niño, os preços dos fretes rodoviários de grãos em Mato Grosso tendem a crescer menos. Nas rotas principais, como Sorriso-Miritituba e Sorriso-Rondonópolis, o impacto médio é de pelo menos 10 pontos percentuais negativos na variação anual dos fretes. Isso ocorre porque reduções na produção diminuem a demanda por transporte, aliviando a pressão sobre os custos logísticos.

Rentabilidade do produtor segue pressionada

Além dos desafios climáticos, os produtores mato-grossenses já lidam com margens mais apertadas. O Santander projeta que a rentabilidade das lavouras continuará deprimida na safra 2026/27, devido aos custos elevados com fertilizantes e defensivos agrícolas. Uma eventual queda de produtividade causada pelo El Niño pode agravar ainda mais esse quadro, reduzindo a geração de caixa dos agricultores e impactando investimentos futuros no campo, afetando a dignidade e o sustento dessas famílias.

Exportações de Mato Grosso podem recuar

Nas projeções-base do Santander, Mato Grosso deverá produzir cerca de 100,5 milhões de toneladas de soja e milho em 2026/27, uma queda de 4% na comparação anual. As exportações combinadas dos dois grãos podem recuar 11%, para aproximadamente 49,2 milhões de toneladas. A análise de sensibilidade indica que cenários de menor produtividade poderiam levar as exportações a níveis ainda mais baixos, aumentando os desafios para toda a cadeia logística.

Apesar dos riscos, o Santander avalia que a Rumo se mantém relativamente protegida pela diversificação de suas operações. A companhia é responsável pelo transporte de grande parte dos grãos originados em Mato Grosso e detém participação próxima de 44% nas exportações do estado. Mesmo assim, uma combinação de quebra de safra e gargalos logísticos pode afetar os volumes transportados e limitar o crescimento do Ebitda projetado para 2027.

A conclusão do Santander é que o risco para empresas ligadas à infraestrutura de grãos é de intensidade média a alta. O impacto mais severo dependerá da combinação entre problemas climáticos na produção agrícola e eventuais interrupções nas rotas logísticas, com consequências amplas para a economia e o bem-estar social.

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