SAÚDE E NUTRIÇÃO
Rótulos “light” e “sem açúcar” podem iludir consumidor, revela Unicamp
Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) demonstra como alegações nutricionais criam uma “aura de saúde” em produtos ultraprocessados, influenciando escolhas e expondo os consumidores a percepções equivocadas sobre alimentação saudável. Entenda o 'efeito halo' e as recomendações para políticas públicas.
Consumidores podem ser induzidos ao erro por rótulos de alimentos que prometem saúde sem entregar, alertam pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Um estudo abrangente, divulgado nesta segunda-feira, 11/05/2026, revelou que termos como “light” e “sem açúcar” criam uma “aura de saúde” em produtos ultraprocessados, desvirtuando a percepção do público sobre o que é realmente nutritivo e impactando diretamente suas escolhas alimentares e, consequentemente, sua saúde.
A pesquisa da Unicamp, que entrevistou 412 adultos com diversos perfis de consumo, mostrou que as alegações nutricionais nos rótulos influenciam a avaliação dos produtos, mesmo quando estes são ultraprocessados. Isso leva à desconsideração das características gerais do alimento, um fenômeno conhecido como “efeito halo”.
O efeito halo na nutrição é um viés psicológico: uma característica positiva isolada de um alimento faz o consumidor perceber o produto inteiro como saudável, mesmo que essa percepção não corresponda à realidade. Em outras palavras, se um rótulo destaca ser “orgânico”, “sem glúten” ou “light”, muitas pessoas automaticamente presumem que o alimento é nutritivo ou pouco calórico. Contudo, essa conclusão nem sempre é verdadeira. Um biscoito “orgânico” pode conter grandes quantidades de açúcar, um produto “sem glúten” pode ser pobre em nutrientes, e uma barrinha de proteína pode ter alto teor de gordura.
Sem açúcar, light e zero lactose: os resultados da pesquisa
Os resultados foram publicados na revista científica Journal of the American Nutrition Association. A nutricionista e doutoranda Camila de Mello Marsola conduziu a pesquisa, na qual os voluntários responderam a dois questionários:
- Um avaliou as motivações para a escolha dos alimentos, como saúde, preço, prazer e conveniência;
- O outro mensurou os aspectos psicológicos envolvidos no consumo, incluindo restrições alimentares, alimentação emocional e descontrole.
Em seguida, foram apresentados a sete pares de alimentos, consistindo em uma versão convencional e uma com alegação nutricional. Os participantes classificaram esses produtos em uma escala de “muito ruim para a saúde” a “muito bom para a saúde”.
Alegações nutricionais são mensagens que destacam a presença, ausência ou quantidade de nutrientes específicos, como açúcares, gorduras ou fibras. A seleção dos itens analisados baseou-se nos produtos mais comuns em anúncios de supermercados, incluindo alimentos voltados para emagrecimento, funcionais e para dietas específicas:
- Chocolate com e sem açúcar;
- Pão tradicional e sem glúten;
- Paçoca com e sem açúcar;
- Iogurte tradicional e enriquecido com proteínas;
- Requeijão normal e light;
- Biscoitos normais e enriquecidos com fibras;
- Leite com e sem lactose.
Os voluntários foram categorizados em cinco grupos conforme suas motivações para a escolha alimentar: hedonistas (priorizam sabor/prazer), equilibrados (comem o que gostam, mas pensam na saúde), despreocupados com nutrição, focados em saúde e peso, e sem padrão claro. A pesquisa demonstrou que todos os grupos foram influenciados pelas alegações nutricionais, percebendo esses alimentos como mais saudáveis do que suas opções tradicionais.
“Isso aconteceu, principalmente, quando colocávamos o contexto de dieta. Quem busca emagrecer, por exemplo, afirmava que faria a troca do pão por um sem glúten, o que não faz sentido. Se falamos de um alimento light, há, sim, uma redução de gorduras, mas não necessariamente uma redução de calorias, e isso o consumidor nem sempre percebe”, explica Diogo Thimoteo da Cunha, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) e orientador da pesquisa.
“Usamos alimentos do cotidiano. A paçoca sem açúcar, por exemplo, pode ter mais calorias do que a tradicional, porque ao retirar o açúcar para dar estrutura ao produto, o percentual de gordura aumenta. Assim, ela pode ser mais calórica que a versão com açúcar. O consumidor não entende essa nuance.”
As únicas exceções à regra foram o iogurte e o leite, já considerados naturalmente saudáveis pelos brasileiros. Nesses casos, a inclusão de termos como “alto teor de proteína” ou “sem lactose” não alterou significativamente a percepção de saúde dos participantes.
O alerta para os rótulos e a alfabetização nutricional
A pesquisa da Unicamp conclui que as mensagens de Marketing nas embalagens exercem grande influência sobre as escolhas dos consumidores. Tal achado reforça a urgência de regras mais rigorosas para o uso dessas alegações e a necessidade de maior alfabetização nutricional da população. Segundo o estudo, essas mensagens podem induzir o consumidor a percepções equivocadas sobre o que constitui uma alimentação verdadeiramente saudável.
Entre os principais pontos levantados sobre os rótulos, destacam-se:
- Destaque de atributos positivos: Os rótulos são elaborados para realçar vantagens dos produtos, como “sem açúcar”, “light” ou “alto teor de fibras e proteínas”. O estudo classifica essas mensagens em três grupos: alegações “saudáveis”, funcionais e dietéticas especiais (como “sem glúten” ou “sem lactose”).
- Marketing sobrepondo-se à informação: As alegações nutricionais atraem mais atenção na embalagem do que informações essenciais. Em alguns casos, avisos obrigatórios aparecem em letras até 50% menores que o destaque principal.
- “Efeito halo” ou “aura de saúde”: Quando o produto ressalta um ponto positivo, como “baixo teor de gordura”, o consumidor tende a inferir que ele é saudável de modo geral, mesmo que possua outros aspectos nutricionais negativos.
- Regras atuais e contexto no Brasil: O estudo menciona que a Anvisa já estabelece quais termos podem ser utilizados nos rótulos, mas aponta lacunas na forma como essas informações são dispostas nas embalagens.
- Influência nas escolhas: Os rótulos funcionam como “atalhos” que moldam a decisão de compra, levando o consumidor a crer que está fazendo uma escolha mais saudável, sem uma análise completa da composição do produto.
O estudo também formula recomendações para aprimorar esse cenário e guiar políticas públicas. Entre elas:
- Regras mais rígidas para ultraprocessados: Restringir o uso de alegações como “zero açúcar” ou “alto teor de fibras” em produtos ultraprocessados, evitando que pareçam mais saudáveis do que realmente são.
- Equilíbrio na informação dos rótulos: Tornar mais visíveis os avisos obrigatórios, que hoje podem aparecer em tamanho significativamente menor do que as alegações de Marketing.
- Educação nutricional: Incentivar a população a compreender que a redução de um nutriente isolado não torna o produto automaticamente saudável.
- Leitura mais crítica dos rótulos: Auxiliar o consumidor a não se basear apenas nos destaques da embalagem, mas no conjunto da composição do produto.
O equilíbrio é a resposta
Segundo Diogo Thimoteo da Cunha, a pesquisa foi motivada pelo avanço da onda wellness, que se traduz na busca por mais qualidade de vida e saúde e que, consequentemente, impulsionou a indústria. “Nos mercados, essas seções começaram a ganhar um pouco mais de destaque. Antes era uma prateleira tímida. Agora você tem corredores inteiros.”
Nas prateleiras, termos como “zero açúcar” ou “rico em proteínas” conquistaram espaço. Os pesquisadores, ao analisar esses alimentos, notaram que a ideia de saudabilidade muitas vezes se restringe à frente do rótulo: na parte traseira, onde está a tabela nutricional, encontra-se uma extensa lista de ingredientes artificiais e processos complexos. O objetivo da pesquisa era testar se o consumidor percebe essa discrepância.
Como resultado, o estudo sugere que há uma lacuna na alfabetização nutricional, impedindo o público de enxergar além do que o rótulo tenta mostrar – e, principalmente, do que ele busca esconder. “Nosso papel é desmistificar um pouco esses aspectos, porque considero difícil termos uma rotulagem que dê conta de tudo isso sem ser extremamente opressora para o mercado.”
O orientador do estudo reforça a importância de desmistificar erros comuns, como acreditar que produtos sem lactose ou sem glúten são menos engordativos ou mais saudáveis. Na verdade, eles representam apenas alternativas para pessoas com restrições alimentares específicas, e não necessariamente opções mais nutritivas para a população em geral.
A expectativa, de acordo com o nutricionista, não é condenar esses alimentos, mas promover um consumo mais consciente e inteligente. Uma barra de proteína, por exemplo, é mais prática para levar na bolsa do que um ovo cozido e pode ser uma aliada em certas situações. O refrigerante zero pode ser uma opção para quem busca emagrecer, mas não oferece o valor nutritivo de um suco natural.
No fim das contas, o segredo reside no equilíbrio. “Gostamos muito daquela frase: o básico funciona. Arroz e feijão formam uma combinação excelente do ponto de vista de proteínas, leite é excelente, carne é excelente. Não queremos ficar muito nesse ciclo de que nutricionista só fala de fruta e verdura, mas é importante que todos saibam que isso é essencial”, conclui.
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