ENERGIA DOS VENTOS
Rio Grande do Norte lidera a corrida pela energia eólica offshore no Brasil
Com regulamentação avançando e potencial promissor, Estado se consolida como principal aposta brasileira para a geração de energia em alto-mar, prometendo empregos e desenvolvimento.
O Rio Grande do Norte se projeta como o principal polo brasileiro para o desenvolvimento da energia eólica offshore, modalidade de geração de energia em alto-mar. A liderança do Estado se sustenta em ventos constantes, um fator de capacidade superior à média internacional e sua consolidação como maior gerador de energia eólica em terra. O cenário é impulsionado pela fase avançada de licenciamento de projetos, iniciativas de pesquisa e desenvolvimento e uma cadeia produtiva robusta ligada ao setor, enquanto o governo federal acelera a regulamentação da atividade no País.
A consolidação do marco legal para a energia eólica offshore deu um passo fundamental com a aprovação, pela Câmara dos Deputados em janeiro de 2025, da Lei 15.097. Posteriormente, em abril deste ano, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) estabeleceu diretrizes para a regulamentação do setor. A próxima etapa crucial será a publicação do decreto que definirá as regras operacionais, um passo considerado essencial para destravar investimentos bilionários e viabilizar os estudos técnicos das áreas marítimas.

Atualmente, o Brasil não possui nenhuma usina eólica offshore em operação, apesar de o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) registrar 59 manifestações de interesse de empresas para implantação de parques na costa. Estima-se, segundo o Banco Mundial, que o País tenha um potencial de geração offshore de aproximadamente 1,2 terawatt, com a possibilidade de criar até 516 mil empregos diretos até 2050.
O Nordeste desponta como a região com a maior concentração de áreas promissoras para a eólica offshore, graças à intensidade e regularidade de seus ventos. O Rio Grande do Norte se destaca pela sua posição geográfica, com um extenso litoral, ventos constantes e a proximidade de áreas costeiras com centros consumidores, além de liderar historicamente a geração de energia eólica em terra.
Dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmam a liderança do Rio Grande do Norte na geração de energia eólica em terra, com mais de 10 gigawatts de capacidade instalada em operação. O setor tem um peso crescente na matriz elétrica estadual, transformando municípios em polos de geração energética e de arrecadação de impostos.
A consolidação de uma cadeia econômica vinculada às energias renováveis no Estado abrange operações logísticas, montagem de equipamentos, serviços de engenharia, manutenção e pesquisa aplicada. A expansão da eólica offshore é vista como uma oportunidade de ampliação desse ciclo industrial e tecnológico.
Um dos projetos pioneiros do País está em fase de desenvolvimento em Areia Branca, município da região Oeste do Rio Grande do Norte. O projeto-piloto de pesquisa, desenvolvimento e inovação (PDI) é conduzido pelo Senai em parceria com as empresas Esteyco e Dois A Engenharia, com o objetivo de validar tecnologias adaptadas às condições marítimas brasileiras e estabelecer uma base técnica para futuros empreendimentos comerciais.
O Ibama emitiu a licença prévia para o parque experimental em junho do ano passado. Em novembro de 2025, foi lançado um edital para atrair novos parceiros financeiros para a iniciativa, com previsão de início de operação no segundo semestre de 2028.
Antonio Medeiros, coordenador de pesquisa e desenvolvimento do Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis, ressalta o impacto do projeto no desenvolvimento econômico e industrial ligado à economia do mar. Segundo ele, o projeto transforma a energia dos ventos em uma cadeia de geração de empregos e renda, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida.
A regulamentação em curso também atrai o interesse de empresas nacionais e estrangeiras. Há cerca de um mês, quatro empresas, com apoio do Conselho Global de Energia Eólica (GWEC), formaram a Coalizão Eólica Marinha (CEM). O grupo, que já conta com outras oito companhias, articula-se com governos estaduais e investidores, visando estruturar parte relevante da cadeia produtiva da atividade no Brasil.
A diretora da CEM e de Desenvolvimento de Novos Negócios da Shizen Energy Group, Edisiene Correia, destaca o interesse das empresas em estabelecer sedes no Brasil para atender às exigências de conteúdo local. Ela também aponta que outros estados, além daqueles com projetos offshore, como a Bahia, podem se beneficiar com fornecedores de cabos, aerogeradores, pás e estaleiros.
O Rio Grande do Norte busca se posicionar como um polo logístico e tecnológico para a atividade, com vantagens competitivas como o Porto-Ilha de Areia Branca, a estrutura portuária de Natal e a proximidade com áreas de forte incidência de ventos.
Jean Paul Prates, ex-senador e atual presidente do Conselho de Administração do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), autor do projeto que originou o marco legal da energia offshore, descreve a legislação como uma nova fronteira de desenvolvimento econômico, energético, industrial, tecnológico e social para o Brasil. Ele enfatiza o ordenamento do uso do mar, atração de investimentos, proteção de comunidades e o retorno da riqueza gerada ao território.
A energia eólica offshore é uma realidade consolidada em países europeus e asiáticos, com a primeira usina instalada na Dinamarca em 1994. Atualmente, o mercado global soma cerca de 92 gigawatts de capacidade instalada em alto-mar, com a China liderando o setor.
Apesar do recente aumento de custos enfrentado pelo setor em diversos países, conforme análises do Boston Consulting Group (BCG), a expansão da energia offshore é vista internacionalmente como um pilar da transição energética e da redução das emissões de carbono. No Brasil, a modalidade surge como um complemento importante para as fontes renováveis já estabelecidas, como hidrelétricas, solar e eólica terrestre, podendo reduzir a dependência de termelétricas em períodos de estiagem.
Projetos offshore oferecem a vantagem da menor disputa territorial em comparação às usinas em terra, além da proximidade com grandes centros de consumo. Contudo, pesquisadores alertam para possíveis impactos ambientais, como ruído subaquático durante a construção e alterações na vida marinha durante a operação dos parques.
Mamour Sop Ndiaye, professor do Departamento de Engenharia Elétrica do Cefet-RJ, destaca a necessidade de monitoramento ambiental contínuo e aprimoramento regulatório para a expansão da atividade. Marcello Cabral, diretor de Novos Negócios da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), prevê um 'ponto de inflexão' para o setor no Brasil nos próximos cinco anos, impulsionado pela regulamentação e pelos estudos de viabilidade.
Cabral ressalta a importância das leis de transição energética aprovadas no Brasil para o cumprimento de acordos internacionais e a competitividade no mercado global, cada vez mais exigente com produtos verdes.
A expectativa do mercado é que, após a publicação do decreto regulamentador, as empresas iniciem os estudos técnicos das áreas marítimas. No entanto, a construção efetiva dos parques, incluindo licenciamento, testes, infraestrutura e operação comercial, ainda deve levar cerca de uma década.
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