METFORMINA PROTEGE VISÃO
Remédio de diabetes pode frear perda de visão por idade, diz estudo
Pesquisa publicada na BMJ Open Ophthalmology sugere que o medicamento, amplamente usado para diabetes tipo 2, pode reduzir em 37% a progressão da degeneração macular relacionada à idade. Especialistas alertam que são necessários mais estudos para comprovar a relação de causa e efeito.
Um antigo e acessível medicamento contra o diabetes pode oferecer uma nova esperança na preservação da visão. Pesquisadores da Universidade de Liverpool, na Inglaterra, publicaram um estudo na revista BMJ Open Ophthalmology nesta quinta-feira, 25 de junho de 2026, indicando que a metformina, utilizada por cerca de 2.000 pessoas com diabetes tipo 2 ao longo de 5 anos, esteve associada a uma menor progressão da Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI).
A pesquisa observou uma diminuição de 37% no avanço da DMRI em estágio intermediário em pacientes que usavam o fármaco continuamente, mesmo após ajustes para outros fatores de risco como idade, sexo, controle glicêmico e tempo de diagnóstico da doença. A DMRI é uma das principais causas de cegueira em idosos, afetando a mácula, responsável pela visão central e detalhada, essencial para ler, reconhecer rostos e identificar cores.
A doença manifesta-se em duas formas. A seca, mais comum, envolve o afinamento da mácula e o acúmulo de drusas (aglomerados de proteína e gordura) na retina, com uma evolução lenta. Já a forma úmida é mais agressiva, caracterizada pelo crescimento de vasos sanguíneos anormais sob a retina, que podem vazar fluidos e levar à perda visual rápida. Fatores como envelhecimento, genética, tabagismo, hipertensão, colesterol alto e diabetes descontrolado são gatilhos importantes para ambas.
Mecanismos Biológicos em Jogo
A ligação entre a metformina e a saúde ocular pode ter bases biológicas sólidas. Segundo a oftalmologista Erika Yasaki, do Hospital Israelita Einstein, o medicamento não se limita ao controle da glicose. Ele também intervém em processos celulares ligados ao envelhecimento, como a redução do estresse oxidativo e da inflamação, ambos mecanismos diretamente implicados na progressão da DMRI. A retina, com sua alta demanda metabólica e necessidade de oxigênio, é particularmente vulnerável.
A ativação da AMPK, uma via celular relacionada à regulação energética, limpeza e sobrevivência celular, é apontada como um dos efeitos benéficos da metformina. "Em estudos experimentais, isso já foi associado à proteção de fotorreceptores e do epitélio pigmentar da retina, com redução de estresse oxidativo e melhora da função mitocondrial", explica a médica Solange Travassos, coordenadora do departamento de Saúde Ocular da Sociedade Brasileira de Diabetes. Esses achados sugerem um potencial protetor do medicamento para a saúde ocular.
Necessidade de Evidências Clínicas Robustas
Apesar do caráter promissor do estudo observacional, os especialistas ressaltam que ele não estabelece uma relação de causa e efeito. "Este é um trabalho observacional, portanto, não pode estabelecer causa e efeito, apenas que existe uma associação entre a metformina e uma menor progressão da DMRI", alerta Nicholas Beare, principal autor do estudo e pesquisador da Universidade de Liverpool. Isso significa que o medicamento pode estar associado ao benefício, mas não ser o fator direto.
Outra limitação é que a pesquisa focou em pacientes com diabetes tipo 2. São necessárias novas análises para verificar se o efeito se estende à população geral com DMRI. Beare enfatiza a necessidade de um ensaio clínico prospectivo para comprovar o benefício. "Esses efeitos são insuficientes para mudar a prática clínica atual, mas indicam a necessidade de um ensaio clínico prospectivo", afirmou em entrevista à Agência Einstein.
Para confirmar o potencial da metformina na prevenção ou desaceleração da DMRI, um ensaio clínico em humanos comparando o uso do medicamento com placebo seria essencial. O estudo original foi publicado pela Agência Einstein em 25 de junho de 2026 e adaptado para o Poder360.
Inovações e Tratamentos Atuais
Enquanto aguardam-se os resultados de novos estudos, a indústria biotecnológica já explora o potencial da metformina. A Curative Biotech, dos Estados Unidos, desenvolve uma versão reformulada do medicamento para aplicação direta nos olhos, em colírios ou injeções intraoculares. O objetivo é direcionar a substância para o epitélio pigmentar da retina, visando ativar a AMPK, reduzir a secreção de VEGF (Fator de Crescimento do Endotélio Vascular) e equilibrar o cálcio celular, mecanismos cruciais na doença. O projeto, com foco inicial na DMRI seca, aguarda a realização de um primeiro ensaio clínico em humanos previsto para este ano.
Atualmente, o tratamento para a DMRI seca inclui suplementação com antioxidantes e ômega-3. Para a forma úmida, injeções intraoculares de medicamentos antiangiogênicos são o padrão, visando estabilizar ou melhorar a visão. Terapias genéticas também estão em estudo pela Academia Americana de Oftalmologia, com a promessa de tratamentos de aplicação única.
Prevenção e Estilo de Vida
Independentemente do tipo de DMRI, o estilo de vida desempenha um papel vital. "Manter uma dieta equilibrada, controlar peso, pressão arterial e colesterol e, principalmente, não fumar estão entre as medidas de saúde geral mais eficazes para reduzir o risco ou a progressão da DMRI", destaca Yasaki. Consultas oftalmológicas periódicas são igualmente cruciais. "Hoje, a conduta mais segura continua sendo acompanhamento oftalmológico, controle dos fatores de risco e decisão compartilhada com o médico", completa Solange Travassos.
É fundamental ressaltar que não há indicação para o uso de metformina por conta própria para fins oftalmológicos. Embora possa se tornar um coadjuvante futuro no combate à degeneração macular relacionada à idade, sua eficácia e segurança para essa finalidade ainda precisam ser cientificamente comprovadas.
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