SEGURANÇA AÉREA: LIÇÕES

Relatório do Cenipa detalha falhas no acidente com avião da Voepass

Equipes de resgate e destroços da aeronave da Voepass após o acidente.
Relatório final aponta falhas sistêmicas e operacionais no acidente de 2024 em Vinhedo.

Documento aponta 19 fatores contribuintes, incluindo sistema de degelo inoperante e cultura organizacional que normalizou desvios técnicos.

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) identificou 19 fatores contribuintes para a queda do avião da Voepass em Vinhedo, tragédia que resultou na morte de 62 pessoas. O relatório final, divulgado após análise técnica rigorosa, elucida como uma sucessão de falhas operacionais e comportamentais culminou no acidente ocorrido em 9 de agosto de 2024.

A aeronave ATR-72, que partira de Cascavel rumo ao aeroporto de Guarulhos, perdeu sustentação após o acúmulo de gelo nas asas, entrando em estol e girando em parafuso até o impacto no solo. Conforme o documento, o sistema de proteção pneumática estava inoperante, um problema que já havia sido registrado em outra aeronave da frota.

Enio Beal Júnior, piloto e coronel da reserva da FAB (Força Aérea Brasileira), explicou ao CNN Prime Time que o ponto crítico foi a gestão dessas inoperâncias. Embora a aviação permita voos com itens avariados conforme o manual MEL (lista de equipamentos mínimos), o caso da Voepass apresentou um décimo primeiro item falho que sequer foi formalmente registrado.

"O problema é que quando a gente deixa de anotar esses itens, a próxima tripulação não toma conhecimento e a manutenção não atua", pontuou Enio Beal Júnior. Para o especialista, a correção dessas falhas depende mais de método do que de tecnologia.

Além das falhas mecânicas, o Cenipa destacou a lentidão da tripulação em reconhecer a gravidade da emergência e a presença de conversas não relacionadas à operação na cabine, o que dispersou a atenção. O relatório também apontou a existência de uma cultura de normalização de desvios na companhia aérea.

Refletindo sobre o impacto do caso na aviação, Enio Beal Júnior enfatizou que a negligência documental é o maior risco. "É gente comum dentro de um ambiente que foi, aos poucos, deixando o desvio se tornar rotina. Eu insisto no sistema, no ambiente e não na pessoa", concluiu, defendendo que o episódio sirva como referência fundamental para a segurança de toda a aviação brasileira.

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