COMPORTAMENTO E SAÚDE

Raízes do vício em apostas na infância desafiam famílias brasileiras

Criança utilizando tablet sob a observação de especialistas em saúde mental.
O uso precoce de telas e a falta de mediação afetiva são fatores de risco para transtornos de comportamento em adolescentes.

Especialistas alertam que a dependência em apostas entre adolescentes tem origem em falhas no acolhimento afetivo precoce e no uso excessivo de telas.

Especialistas da área de saúde mental apontam que o vício em apostas na adolescência raramente surge de forma isolada nesta etapa da vida, tendo raízes profundas fincadas nos primeiros anos de desenvolvimento emocional. O debate sobre as origens desse comportamento ganhou contornos urgentes em 11/07/2026, diante do crescimento dos casos que chegam aos consultórios.

Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, conduzido pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), revelam um cenário alarmante: mais de 1 milhão de adolescentes brasileiros, entre 14 e 17 anos, apostaram ao menos uma vez no último ano. Destes, 55,2% já se encontram na zona de risco ou apresentam transtorno relacionado ao vício.

Para psicanalistas, a causa desse movimento reside na falta de trocas afetivas nos primeiros anos de vida. Jailza Peguim, da Sow Saúde Integral, explica que o olhar do cuidador é o que permite ao bebê integrar suas emoções, algo que a saturação de estímulos das telas não é capaz de replicar. Onde deveria existir um vínculo, instala-se uma repetição mecânica.

Essa lacuna emocional encontra, na adolescência, um mercado projetado para a exploração da recompensa imprevisível. Conforme a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, realizada pelo Cetic.br (Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação), 28% das crianças e adolescentes brasileiros iniciaram o uso da internet antes dos seis anos de idade, um aumento expressivo em relação aos registros de 2016.

Flávia Anjos, psicanalista e diretora vice-presidente da Sow Saúde Integral, ressalta que o sofrimento do jovem é acompanhado de vergonha e isolamento familiar. Sintomas como a checagem compulsiva do celular, irritação e queda no rendimento escolar são sinais de alerta. Segundo os especialistas, a atribuição de culpa exclusiva à tecnologia funciona muitas vezes como um mecanismo de defesa, impedindo as famílias de identificarem fragilidades nos laços afetivos.

O tratamento para o quadro exige apoio especializado, descartando soluções baseadas apenas na força de vontade ou no controle punitivo. A integração entre escola e família é apontada como um dos pilares necessários para a identificação precoce e a superação dos mecanismos de dependência que afetam a saúde mental da juventude.

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