SAÚDE MENTAL EM FOCO
Psiquiatra alerta sobre sobrecarga de cuidadores e o impacto na saúde mental
Médico psiquiatra Éverson Damasceno explica que o cuidado excessivo sem limites e sem apoio pode gerar estresse crônico, afetando a dignidade de quem zela por entes queridos com doenças crônicas, idosos ou pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento.
O cuidado contínuo com familiares que possuem doenças crônicas, idosos ou pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento pode acarretar impactos severos na saúde física e emocional de quem assume essa responsabilidade. O alerta é do médico psiquiatra Éverson Damasceno, que nesta terça-feira, 07/07/2026, ressaltou que o problema não reside no ato de cuidar, mas sim no excesso de responsabilidades assumidas sem o estabelecimento de limites e sem o devido apoio.
“O cuidado em si não adoece. O que adoece, na verdade, é o fato de cuidar sem limites e sem você respeitar também a necessidade de muitas vezes não deixar aquilo tudo nas suas costas”, explicou Damasceno.

O especialista enfatiza a importância de volta atenção também para os cuidadores. Ele cita profissionais da saúde, professores, pais, mães e cuidadores de idosos como grupos que frequentemente vivenciam essa sobrecarga. "A gente acaba percebendo a necessidade de ambos os lados. Só que o que é mais negligenciado ou silenciado é a posição do cuidador."
Ninguém consegue suportar sozinho as demandas do cuidado permanente, e pedir ajuda não é sinônimo de abandono. "É importante muitas vezes pedir ajuda e isso não significa que você precisa abandonar quem precisa dela. Você pedir ajuda não faz com que a outra pessoa acabe se prejudicando por isso."
Entre os sinais de esgotamento emocional, Damasceno destaca irritabilidade, insônia, cansaço persistente, perda da paciência e desinteresse por atividades antes prazerosas. "A tendência é você ficar imerso tanto nesse papel de cuidador que acaba esquecendo um pouco de si mesmo."
Frequentemente, indivíduos que priorizam as necessidades alheias em detrimento das próprias negligenciam seu bem-estar. "Geralmente é um perfil de pessoas que vão priorizar muito as necessidades do outro antes de si mesmas. São pessoas que não cuidam de si como geralmente elas se doam."
Um dos sinais mais preocupantes é a culpa ao descansar. "É perigoso quando está presente a sensação de culpa que surge quando você descansa. São pessoas que aprenderam que cuidar de si mesmas é um egoísmo. Aprenderam isso de uma forma errada. Você não precisa adoecer para provar que ama alguém."
Cuidar da própria saúde é parte integrante do cuidado oferecido ao outro. "Essas pessoas têm que entender que cuidar de si também faz parte de cuidar dos outros."
A sobrecarga do cuidador configura um processo de estresse crônico, com potencial para gerar sintomas físicos e emocionais. "Estamos falando de uma situação de estresse crônico, pelo excesso de responsabilidades."
A sociedade, segundo o médico, tende a valorizar o sacrifício, mas oferece pouquíssimo suporte. "Culturalmente hoje nós vivemos em uma sociedade que aplaude o sacrifício, mas ela não dá suporte a quem se sacrifica. Não adianta você só enaltecer, romantizar e, ao mesmo tempo, não dar essa chance de acolhimento e de escuta."
Sintomas físicos como dores de cabeça, aumento da pressão arterial, queda de cabelo, crises de ansiedade, gastrite, dores musculares e irritabilidade indicam que o organismo do cuidador permanece em estado de alerta permanente.
Mães atípicas estão entre os grupos mais vulneráveis ao esgotamento. Elas lidam com demandas intensas de tratamento dos filhos e, simultaneamente, enfrentam barreiras de acesso a serviços especializados. "O foco vai ser sempre na saúde e na oportunidade que os filhos vão estar tendo ou não acesso às terapias e aos tratamentos adequados. A gente sabe que, na prática, isso deixa a desejar um pouco, principalmente pela grande fila de espera."
Familiares de pessoas com doenças neurodegenerativas, como Alzheimer, também são frequentemente afetados. "Os familiares que cuidam de pais ou de outros parentes que estão passando por algum processo de quadro demencial também vão exigir esse cuidado e, muitas vezes, isso vai fazendo com que você deixe de viver a sua própria rotina."
É comum que um único membro da família concentre toda a responsabilidade, enquanto outros se acomodam. "Sempre alguém da família, que tem essa posição mais proativa e altruísta, acaba puxando para si esse excesso de responsabilidades. Só que isso é corrosivo, é desgastante."
O psiquiatra orienta que o cuidador busque acompanhamento profissional quando o sofrimento começa a comprometer sua própria vida. "O maior objetivo de procurar ajuda vai ser quando o sofrimento compromete sua própria saúde."
Sinais que exigem atenção incluem ansiedade intensa, sintomas depressivos, irritabilidade constante, insônia prolongada e sensação de perda de controle. "Quando o sofrimento pesa tanto que você começa a não estar mais conectado com sua própria vida e com suas próprias relações, provavelmente já passou do limite há um tempo."
O amor pelo outro não deve ser anulado pela necessidade de autocuidado. Muitas vezes, a posição de cuidador surge inesperadamente, exigindo reorganização familiar. "O fato de você se cuidar não vai anular o amor que você tem pelo outro, porque você também precisa de ajuda."
O equilíbrio é fundamental. "O cuidador também é um ser humano. Precisa se alimentar bem, dormir bem, manter suas interações, seus vínculos sociais, aprender a dividir um pouco mais as responsabilidades e aceitar ajuda quando for preciso."
Entre as recomendações práticas, Damasceno sugere a criação de pequenas pausas ao longo do dia. "Em primeiro lugar, eu acho importante criar micropausas. Pelo menos dez minutos entre uma tarefa e outra para tomar um café, respirar fundo ou ouvir uma música que você gosta."
É crucial aprender a delegar responsabilidades. "Tem pessoas que assumem muitas responsabilidades por pensar que ninguém vai fazer aquilo da mesma forma."
Estabelecer limites claros e construir uma rede de apoio com familiares e amigos também são essenciais. "Da mesma forma como você é a base do apoio para ofertar esse cuidado, você também precisa contar com pessoas que consigam aliviar um pouco esse peso."
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