ABUSO CONTRA CRIANÇAS

Psicóloga Amanda Palácio incentiva combate a abusos contra crianças e adolescentes

Retrato de Amanda Palácio, psicóloga clínica.
Psicóloga clínica Amanda Palácio fala sobre a importância do combate ao abuso.

Especialista alerta para a importância do acolhimento, da escuta ativa e da rede de proteção para vítimas. Números de estupro de vulnerável crescem 106% em Natal e RN.

A psicóloga clínica Amanda Palácio reforça a necessidade de a sociedade manter o debate sobre o enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes durante todo o ano. A especialista enfatiza a importância da participação de famílias, escolas e comunidades para identificar e agir diante de suspeitas ou relatos de sofrimento infantil, orientação que se estende a crianças próximas de vítimas.

O primeiro passo crucial, segundo Palácio, é o acolhimento sem julgamentos. "A criança precisa ser ouvida, acreditada e protegida. O adulto não deve minimizar, duvidar ou expor. O silêncio protege o agressor, nunca a vítima", afirma a servidora pública, especialista em infância e adolescência.

Para crianças a partir de três anos, a segurança para expressar sentimentos é fundamental. Muitas vítimas nessa faixa etária temem não ser validadas, serem culpadas ou causarem conflitos familiares, o que pode dificultar a revelação. A postura do adulto ao conversar é determinante: "Acredito que o mais importante é acolher a criança sem pressioná-la, escutar com calma, não fazer interrogatório, sem perguntas invasivas no primeiro momento, sem expressar choque ou julgamento, a partir daquela informação que está sendo revelada", orientou.

As consequências de um abuso ou exploração sexual são devastadoras, impactando o alicerce do desenvolvimento infantil. "Quando a gente fala de um abuso, de uma exploração sexual, a gente está falando de um trauma, de uma violação de direito que está atingindo ali uma fase do desenvolvimento, que é um alicerce para o resto da vida, que é a infância", ressalta Palácio.

Essa ambivalência de sentimentos, como medo e culpa, pode levar à dificuldade de reconhecer a violência. O impacto emocional pode gerar ansiedade, mudanças de comportamento e negação. Contudo, a psicoterapia surge como um caminho de cura. "O atendimento vai ajudar a criança ou o adolescente a elaborar o sofrimento, ressignificar essa experiência, fortalecer a autoestima e reconstruir a sensação de segurança que foi quebrada anteriormente", explica a psicóloga.

O acompanhamento familiar é vital, e em alguns casos, intervenção multiprofissional, com assistentes sociais, escolas e psiquiatras, torna-se necessária. A duração do tratamento varia conforme a gravidade e a resposta individual, mas o foco principal deve ser o restabelecimento psicoemocional da vítima.

Amanda Palácio observa um fortalecimento nas campanhas de conscientização, que vêm ajudando a diminuir o silêncio em torno de casos de abuso, inclusive aqueles praticados por familiares próximos. "Alguém da família nuclear que não é falado, onde existe uma vergonha e um medo por trás, começa a eclodir, vir à tona. Então, a gente percebe que as campanhas, de fato, têm ajudado", pontua.

Os dados revelam a urgência do tema: entre 2020 e 2024, o estupro de vulnerável contra menores de 17 anos cresceu 106% em Natal e no Rio Grande do Norte. Em 2025, mais de quatro meninas eram estupradas por hora no Brasil, com 76% dos abusos ocorrendo em casa. Somente nos primeiros quatro meses de 2023, o Disque 100 registrou mais de 17,5 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes.

A psicóloga defende um engajamento social mais sólido para combater essa realidade. "É uma responsabilidade coletiva combater a violência infantil. Quanto mais preparada a sociedade tiver, com famílias e Poder Público dispostas a acolher as vítimas e punir os agressores, maior será a chance de proteger essa faixa tão vulnerável", conclui.

Em Natal, a Prefeitura tem intensificado ações de combate, incluindo o 1º Fórum Municipal de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual Infantil. A mobilização envolve secretarias como Direitos Humanos (SEMIDH), Assistência Social (SEMTAS), Segurança Pública (SEMDES), Educação (SME), As Mulheres (SEMUL) e Saúde (SMS), com foco em prevenção, acolhimento e punição.

Em caso de suspeita, a orientação é buscar a rede de proteção: Conselho Tutelar, delegacia especializada, Polícia Militar (190) ou Disque 100.

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