DINHEIRO PÚBLICO EM FOCO

Produtora de filme sobre Bolsonaro captou R$ 110,8 milhões em verbas públicas

Cartaz do filme "Dark Horse" com Jim Caviezel, que narra momentos da campanha de Bolsonaro.
O filme de Bolsonaro retrata momentos marcantes da campanha presidencial de 2018, como o esfaqueamento sofrido por Bolsonaro em Juiz de Fora, Minas Gerais; na imagem, o cartaz do longa-metragem com o ator Jim Caviezel.

Rede empresarial ligada à produtora Go Up Entertainment, do filme “Dark Horse”, obteve recursos por meio de emendas parlamentares e contratos com a Prefeitura de São Paulo; ação no STF questiona a origem dos valores.

Uma complexa rede empresarial, administrada por Karina Gama, sócia da Go Up Entertainment – produtora do filme "Dark Horse" sobre Jair Bolsonaro (PL) –, captou R$ 110,8 milhões em verbas públicas. A revelação desta engenharia financeira, que inclui emendas parlamentares de deputados do PL e um termo de colaboração de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, levanta nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, sérias questões sobre a transparência e a ética no uso do dinheiro público. O cenário ganha maior relevância após a negação veemente de figuras políticas, como Flávio Bolsonaro (PL-RJ), sobre qualquer financiamento estatal na obra cinematográfica.

Os vultosos valores contrastam diretamente com a afirmação de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, que declarou haver “zero de dinheiro público” na produção cinematográfica sobre seu pai. Essa declaração foi utilizada como justificativa para um pedido de financiamento a Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, destinado a cobrir despesas do filme. Conforme apurou o jornal digital Intercept Brasil, o ex-banqueiro teria desembolsado R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025. Embora o Intercept Brasil alegue possuir documentos que comprovam as transações, os detalhes não foram publicados. Flávio Bolsonaro confirmou ter recebido dinheiro de Vorcaro, mas sem especificar os montantes.

O Instituto Conhecer Brasil, também presidido por Karina Gama, recebeu R$ 2 milhões do deputado federal Mário Frias (PL-SP) em 2025. Mário Frias, por sua vez, atua como produtor executivo de "Dark Horse". A verba foi dividida igualmente entre projetos de letramento digital e incentivo ao esporte, levantando um debate sobre a destinação de recursos públicos para entidades com vínculos tão próximos a produções de interesse político. Além disso, a instituição firmou um termo de colaboração de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, sob a gestão de Ricardo Nunes (MDB). Este acordo, também revelado pelo Intercept Brasil, visa o fornecimento de internet wi-fi em comunidades de baixa renda, resultado de um chamamento público realizado em 2024. A íntegra do documento tem 1,1 MB.

Outra entidade sob a presidência de Karina Gama, a ANC (Academia Nacional de Cultura), beneficiou-se de R$ 2,8 milhões em emendas parlamentares destinadas por cinco deputados do PL em 2024. Marcos Pollon (PL-MS) contribuiu com R$ 1 milhão, assim como Carla Zambelli, então deputada pelo PL de São Paulo. Alexandre Ramagem, pelo PL do Rio de Janeiro, destinou R$ 500 mil, enquanto Bia Kicis (PL-DF) direcionou R$ 150 mil e Gil Diniz (PL-SP), deputado estadual, concedeu R$ 200 mil. Esses recursos foram empregados na produção da série documental "Heróis Nacionais – Filhos Do Brasil Que Não Se Rende".

A relevância pública dessas movimentações financeiras levou a deputada Tabata Amaral (PSB-SP) a protocolar uma ação no STF (Supremo Tribunal Federal). A ação questiona os aportes públicos da Prefeitura de São Paulo e as emendas parlamentares às organizações ligadas à empresária. Desde 21 de março, o ministro Flávio Dino solicitou explicações de Mário Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon. A íntegra do pedido de Dino tem 182 KB, indicando que a investigação sobre a origem e a destinação desses fundos está em curso e que as decisões ainda não são definitivas, aguardando manifestações dos envolvidos.

Procurado pelo Poder360, a Prefeitura de São Paulo, Karina Gama – via Instituto Conhecer Brasil –, e o deputado Mário Frias não haviam se manifestado até a publicação desta reportagem. Em publicação na rede social X, na quinta-feira, 14 de maio de 2026, Mário Frias ironizou as alegações, afirmando: “O filme já foi acusado de receber dinheiro do Trump, de emenda, da prefeitura de São Paulo, todo tipo de narrativa tosca. Agora tentam transformar em crime a busca por investidores privados em 2024”.

Em contraste com a declaração de Flávio Bolsonaro, a Go Up Entertainment, em nota divulgada na quarta-feira, 13 de maio, negou ter recebido "um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro", mas omitiu qualquer menção a verbas públicas. A produtora reiterou que o projeto "Dark Horse" foi estruturado sob um modelo privado de desenvolvimento audiovisual, por meio de articulações e parcerias legítimas do mercado, sem a utilização de recursos públicos, e que conversas com potenciais apoiadores não configuram efetivação de investimento.

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