RH E TECNOLOGIA
Pressionados a usar a IA, profissionais sem preparo veem queda na qualidade de suas entregas
Meta, Microsoft e Amazon cortam milhares de vagas enquanto investem bilhões, mas analistas apontam falta de treinamento como o real problema.
Nesta quinta-feira, 07 de maio de 2026, o cenário global do trabalho revela uma contradição alarmante: enquanto grandes corporações como Meta, Microsoft, Amazon e Oracle anunciam cortes massivos de milhares de funcionários e planos bilionários de investimento em Inteligência Artificial, analistas do Gartner desmascaram a narrativa de que a IA é a principal responsável. Em vez de uma revolução tecnológica, o mercado observa uma crescente pressão sobre os profissionais para utilizarem ferramentas de IA sem o devido preparo, resultando em uma preocupante queda na qualidade das entregas e abalando a dignidade e a autoestima de trabalhadores em todo o mundo. Esta dinâmica questiona a responsabilidade corporativa e o verdadeiro valor do investimento em pessoas frente à automação.
O mundo do trabalho merecia notícias melhores após o 1º de maio. Infelizmente, empresas ao redor do globo continuam demitindo aos milhares. Os gestores frequentemente culpam a Inteligência Artificial, mas a tecnologia pode ser apenas um bode expiatório para decisões mais profundas de corte de custos.
A IA também impacta profissionais que, embora não percam seus empregos, veem-se pressionados por suas lideranças para usar essas plataformas sem terem formação ou sequer treinamento adequado. O resultado é que, em nome da velocidade e do volume, o mercado começa a observar uma sensível queda na qualidade das entregas, gerando frustração e desmotivação.
Há um terceiro aspecto, talvez o mais perigoso a longo prazo, decorrente de maus usos da IA generativa. Graças à sua incrível interface conversacional e à aparente, porém falsa, capacidade de responder corretamente a qualquer coisa, mais pessoas utilizam essa tecnologia para atividades prosaicas, as quais seriam perfeitamente capazes de executar sem ajuda. Isso mina o desenvolvimento de habilidades e a autonomia profissional.
Os números são colossais e reforçam a urgência da discussão. Nos últimos dias, a Meta, dona do WhatsApp, Facebook e Instagram, anunciou o corte de 10% de seus quadros, equivalente a cerca de 8.000 pessoas, além de eliminar aproximadamente 6.000 vagas. A Microsoft, por sua vez, abriu um programa de demissão voluntária para 7% de suas equipes nos EUA, atingindo outros 8.000 profissionais. Soma-se a isso os 16 mil desligamentos da Amazon e os 30 mil da Oracle ao redor do mundo nos últimos meses, evidenciando uma tendência global de reestruturação.
Ao mesmo tempo em que há cortes, o investimento em IA dispara. A Meta planeja injetar entre US$ 115 bilhões e US$ 135 bilhões em Inteligência Artificial neste ano de 2026, o dobro do que investiu em 2025. Já a Microsoft deve destinar cerca de US$ 190 bilhões à tecnologia, um aumento de 61% em relação ao ano anterior. Há algo um tanto distópico na utopia de um recurso revolucionário que continua prometendo transformar positivamente vidas e negócios, e a culpa, segundo especialistas, não é da IA em si, mas de como ela é percebida e implementada.
O assunto ganhou destaque na palestra de abertura da Conferência Gartner Data & Analytics, que ocorreu em São Paulo, nos dias 28 e 29 de abril de 2026. "O Gartner estima que apenas 1% a 2% dos cortes de empregos anunciados são, de fato, atribuíveis à IA", afirmou Sarah James, diretora analista sênior da consultoria. Ela complementou: "É apenas uma narrativa sendo usada por alguns para justificar jogar pessoas ao mar."
"Só 6% dos líderes de IA consideram que sua organização está totalmente pronta para a IA no que diz respeito a pessoas, habilidades e gestão de mudanças", acrescentou Gareth Herschel, vice-presidente analista do Gartner. Essa estatística desmonta a narrativa de maturidade que o mercado costuma vender e expõe a lacuna entre a ambição tecnológica e a preparação humana.
As capacidades da Inteligência Artificial crescem exponencialmente, partindo de uma base já bastante alta. As pessoas, por outro lado, avançam de forma linear. Esperar que elas simplesmente se apropriem, por sua conta, dessa tecnologia e a usem criativa, segura, produtiva e eticamente torna-se cada vez mais uma miragem empresarial.
Pelo contrário, a pressão por resultados majorados pela IA, a falta de preparo e o medo de perder o emprego têm feito com que profissionais a abracem de forma atabalhoada. Disso resultam entregas com erros graves e pessoas com autoestima e confiança profissional em frangalhos, um custo humano que as empresas parecem ignorar.
"Eu sei que isso parece muito trabalho, mas, sinceramente, se você está investindo em IA sem investir nas suas pessoas, você está jogando dinheiro fora", decretou James. "Se você quer uma organização pronta para a IA, precisa de pessoas prontas para a IA."
Parece óbvio, mas a lógica capitalista, muitas vezes, privilegia o lucro imediato. E essa tecnologia, infelizmente, se presta a justificar decisões corporativas que demonstram imaturidade e até irresponsabilidade, mascarando a necessidade de investimento contínuo em capital humano.
O Gartner indicou que apenas 1% das pessoas demitidas "por causa da IA" no primeiro semestre de 2025 passou por isso depois que a tecnologia havia efetivamente trazido resultados. Os demais perderam o emprego por expectativas que talvez nunca se materializem. A consultoria sugere que metade acabará sendo recontratada até 2027, ainda que em outras funções.
As big techs, muitas das quais criam essa tecnologia, devem saber disso tudo muito bem, ou pelo menos muito melhor que a maioria dos mortais. Porém, ao adotar essas posturas, promovem uma grande deseducação do mercado pelo exemplo, perpetuando mitos e negligenciando o desenvolvimento de uma força de trabalho adaptada.
Portanto, o verdadeiro risco é cultural, não técnico. Empresas que não investirem mais em pessoas acabarão ficando para trás, não importa quão boa seja a sua tecnologia. A sustentabilidade e a inovação de longo prazo dependem diretamente do talento e da capacidade humana de se adaptar e colaborar com as ferramentas digitais.
Como disse Sarah James, "precisamos reconhecer que 'IA primeiro' não significa 'pessoas por último'". A mensagem é clara: o futuro do trabalho com Inteligência Artificial exige uma abordagem equilibrada, onde a valorização do capital humano é tão crucial quanto o avanço tecnológico.
Gostou desta notícia?
Entre no nosso grupo do WhatsApp!
Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!
📲 Quero entrar no grupo
Comentários (0)
Deixe seu comentário