XENOFOBIA EM DEBATE

Polícia do Rio investiga Ed Motta por injúria e ofensas xenofóbicas

Ed Motta sendo investigado por injúria por preconceito contra funcionário de restaurante
Áudios obtidos pelo RJ2 mostram Ed Motta chamando funcionário de ‘paraíba’

Cantor é alvo de inquérito por ataques a funcionário de restaurante, revelados em áudios de 2025, reacendendo a discussão sobre respeito e dignidade no ambiente de trabalho.

A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga, nesta terça-feira, 12 de maio de 2026, o cantor e compositor Ed Motta por injúria por preconceito contra um funcionário do restaurante Grado, no Jardim Botânico. A decisão de abrir o inquérito, motivada por áudios de 2025 nos quais o músico profere ofensas xenofóbicas e ameaças, ressalta a importância de combater a discriminação e garantir a dignidade no ambiente de trabalho, impactando diretamente a percepção de respeito e segurança na sociedade.

As gravações, obtidas pelo RJ2, mostram Ed Motta se referindo ao barman de forma depreciativa. “Eu tive uma noite horrível ontem por conta desse cara. Na décima [vez], se eu for falar com ele, vai sair porrada. Porque é a Tijuca contra o Nordeste, né? Então, é tipo: 'pô cara, seu paraíba filho da p..., entendeu? Você tá trabalhando com público, você não pode se comportar desse jeito.”, diz o cantor em um dos trechos.

Em outra parte do diálogo, o artista faz uma ameaça ainda mais explícita: “A próxima é tipo pular o balcão e pegar ele.”

Depoimento e desdobramentos

A confusão no restaurante, ocorrida em 2025, escalou para um bate-boca generalizado, levando o artista a deixar o local visivelmente irritado e a jogar uma cadeira. Após sua saída, um amigo, Nicholas Guedes Coppim, agrediu um cliente com um soco e uma garrafa de vinho, causando ferimentos. Coppim responde por lesão corporal em um inquérito à parte, onde Ed Motta figura como testemunha. O cantor, por sua vez, é investigado pelo crime de injúria por preconceito. Após duas horas de depoimento na delegacia, ele deixou o local sem falar com a imprensa.

Desculpas questionáveis

Posteriormente ao incidente, Ed Motta enviou um novo áudio ao proprietário do Grado, incluído na investigação. Nele, o cantor pede desculpas por ter arremessado a cadeira, mas centra sua indignação na cobrança da taxa de rolha. “Eu tive uma experiência terrível no restaurante. Fiz a reserva de uma mesa e vocês não me avisaram que teria uma rolha. A gente se conhece há tantos anos.... Poxa vida, tem que respirar fundo. E apareceu a rolha. Eu peço desculpa porque eu joguei uma cadeira, joguei uma cadeira no chão de ódio, entendeu?”, relatou. Ele ainda complementou: “Eu fiquei com ódio mortal da rolha que foi cobrada, o desrespeito que foi... Acho que a rolha, tudo bem cobrar a rolha, não tem problema nenhum, eu poderia pagar a rolha, não há problema com isso. A questão é combinar antes, né?”

Em outra gravação, o cantor voltou a ofender o funcionário, chamando-o de “babaca”. “Hoje eu desci o sarrafo porque um amigo fez uma pergunta pra ele e ele não respondeu. Simplesmente não respondeu. Eu falei: ele é assim mesmo, ele é um babaca.”

Versões contraditórias

No depoimento à polícia, o barman alegou que Ed Motta o ofendeu com expressões como "Vai tomar no c*, seu filho da put*, paraíba", entre outras palavras de baixo calão. O funcionário sentiu-se profundamente humilhado pelas ofensas de cunho xenofóbico.

Ed Motta, por sua vez, negou a acusação, classificando-a como “infundada” – sem fundamento –, e argumentou ser neto de baiano e bisneto de cearense, o que, segundo ele, lhe confere “amplo respeito pelos nordestinos”. O artista também ressaltou sua própria condição de pessoa gorda e negra, repudiando qualquer forma de preconceito.

O cantor afirmou ter tido problemas anteriores com o barman, alegando ter sido ignorado “sem qualquer motivo” em ocasiões passadas. Ele também expressou sentir-se “chateado e desprestigiado” pela cobrança da taxa de rolha, negando ter tido a “intenção de acertar qualquer pessoa” ao arremessar a cadeira.

A delegada Daniela Terra, titular da 15ª DP, informou que ouvirá as testemunhas indicadas por Ed Motta, além do homem que agrediu o cliente e o dono do restaurante nos próximos dias. A investigação continua em andamento.

Ed Motta prestou depoimento na 15ª DP (Gávea) — Foto: Rafael Nascimento/g1 Rio

Outros detalhes do depoimento

O cantor declarou ser cliente do Grado há cerca de nove anos, divulgando o estabelecimento diversas vezes em suas redes sociais. Ele afirmou que “sempre leva sua própria garrafa de vinho” e que “em nenhuma ocasião lhe foi cobrada a taxa de rolha, tendo em vista o elevado consumo”. Ed Motta ainda mencionou que o restaurante já lhe concedeu cortesia mesmo quando compartilhava a mesa com amigos.

Ao questionar o gerente sobre a cobrança da taxa, Ed Motta ouviu que “a taxa foi cobrada em virtude de a mesa estar cheia”. O artista relatou ter ficado “extremamente chateado”, levantou-se e disse: “Nunca mais volto aqui”.

“Ainda sob influência de emoção, pegou uma cadeira e arremessou-a ao chão, sem a intenção de acertar qualquer pessoa — a cadeira sequer danificou”, descreve o termo do depoimento. Ed Motta acrescentou que, “em virtude de seu tamanho, esbarrou em uma mesa onde havia dois casais” e notou que, “por conta desse esbarrão, uma bolsa de umas das ocupantes da mesa caiu ao chão”. Ele afirmou que, na mesma noite, enviou mensagens ao sócio do estabelecimento, expressando seu descontentamento com o atendimento. Só soube do desfecho da confusão, com mais xingamentos e agressões, na manhã seguinte.

Relembre o episódio

A confusão, que se iniciou com um desentendimento entre pessoas da mesa de Ed Motta e funcionários, rapidamente envolveu frequentadores de uma mesa vizinha. Imagens e depoimentos indicam que uma pessoa dessa mesa foi agredida com uma garrafada e um soco por Nicholas Guedes Coppim, que agora responde por lesão corporal. Segundo depoimento, a garrafa foi arremessada com tanta força que estilhaçou em uma parede, quebrando inclusive um relógio.

Um funcionário do restaurante relatou à polícia que Ed Motta proferiu ofensas xenofóbicas contra nordestinos, incluindo as frases: "Vai tomar no c*, seu filho da put*, paraíba", entre outras. Um trecho do relato do funcionário também foi exibido no Fantástico, ampliando o alcance do debate sobre o respeito e a inclusão.

Ed Motta presta depoimento sobre confusão em restaurante — Foto: Rafael Nascimento/ g1

A taxa de rolha e novas ofensas

O desentendimento inicial, conforme explicado pelo barman e corroborado por outros funcionários, ocorreu pela cobrança da taxa de rolha. Ed Motta não pagava a taxa quando ia sozinho ou apenas com a esposa, mas como havia mais seis pessoas em sua mesa, a cobrança foi realizada, o que o deixou insatisfeito.

Um dos acompanhantes de Ed Motta, Nicholas Guedes Coppim, teria perguntado ironicamente ao funcionário: "Você gosta de mulher?", gerando constrangimento. Nesse momento, Ed Motta teria dito: "Olha, o babaca está rindo. Nunca vi esse babaca rindo. Está sempre de mal com a vida, esse paraíba". Em seguida, o cantor colocou a taça de vinho no balcão e acrescentou: "Vou embora antes que eu faça alguma coisa com um desses paraíbas", antes de se levantar e dizer: "Cambada de paraíba". Ele ainda se virou para o funcionário e falou: "Vai tomar no c* seu filho da put* paraíba".

Imagens do incidente mostram o cantor arremessando uma cadeira, que não atingiu ninguém.

A 15ª DP (Gávea) investiga dois crimes: a lesão corporal contra um frequentador da mesa vizinha, onde Ed Motta é testemunha, e a injúria por preconceito, da qual ele é apontado como autor.

A defesa de Ed Motta negou agressões por parte do artista, afirmando ao Fantástico que ele saiu indignado devido ao atendimento. Os advogados de Nicholas Guedes Coppim e Diogo Couto, ambos envolvidos na confusão, declararam que seus clientes estão à disposição das autoridades e repudiam qualquer ato de violência.

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