FUTURO DA INDÚSTRIA
Plano Real para a Energia: Abrace propõe pacto por reindustrialização do Brasil
Paulo Pedrosa, presidente da Abrace Energia, defende um novo modelo para impulsionar a indústria nacional com energia limpa e competitiva, transformando o cenário econômico do país e gerando empregos essenciais para o desenvolvimento sustentável.
A urgente necessidade de reindustrializar o Brasil com base em energia limpa e competitiva ganha novo fôlego com a proposta de um "Plano Real para a Energia", defendida por Paulo Pedrosa, presidente da Abrace Energia, nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026. A iniciativa surge como resposta à perda do protagonismo industrial e aos desafios do custo e da qualidade energética, cruciais para o desenvolvimento econômico e a geração de empregos no país.
O Brasil, que já superou uma crise estrutural nos anos 1990 com o bem-sucedido Plano Real, agora se depara com um desafio diferente, mas igualmente vital: a garantia de energia acessível e de qualidade para sustentar sua indústria e expandir a economia. A proposta de Pedrosa não busca apenas estabilizar o setor, mas reorganizar expectativas e restaurar a confiança de que o país pode ser líder na industrialização de baixo carbono.
Temos uma vantagem natural inegável: uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, vastos recursos renováveis e potencial para ampliar a demanda industrial qualificada, além do gás natural como combustível de transição. Essa combinação permite ao Brasil almejar a liderança global na produção de bens verdes e competitivos. Contudo, essa força comparativa não se traduz em competitividade efetiva. A energia limpa, que poderia ser barata, chega cara ao consumidor final; falta coordenação e demanda estruturada, criando um paradoxo que afasta investimentos em um momento crucial.
É imperativo reverter essa lógica. O país precisa mudar o foco de uma política centrada na expansão da oferta para uma estratégia que priorize a expansão do consumo inteligente, especialmente aquele que transforma a base produtiva, gera empregos e recursos para políticas públicas, ao mesmo tempo que reduz emissões. Isso exige uma nova arquitetura regulatória e fiscal, que use a energia como ferramenta para a política industrial.
A proposta é clara: primeiro, projetos industriais com benefícios ao país e ao planeta devem passar por análise técnica rigorosa para garantir consistência econômica e energética, com incentivos atrelados apenas aos volumes efetivamente associados a eles. Segundo, é crucial combinar instrumentos regulatórios, tributários e de mercado para destravar investimentos. Não se trata de escolher entre Estado ou mercado, mas de alinhar ambos rumo à reindustrialização com energia limpa e competitiva. Terceiro, os benefícios devem estar vinculados a resultados tangíveis: eletrificação de processos, ganho de competitividade, substituição de combustíveis poluentes e modernização produtiva com menor intensidade de carbono.
Nesse cenário, a eletrificação industrial é um vetor estratégico fundamental. Ela absorve o excedente de energia renovável, diminui emissões nos usos finais e eleva a competitividade nacional, sendo uma política energética, industrial e climática em um só movimento. O gás natural, por sua vez, complementa essa estratégia, atuando como combustível de transição para reduzir custos e viabilizar ganhos rápidos em setores de difícil eletrificação.
Para isso, é vital organizar a oferta de gás para atender à demanda industrial. Leilões direcionados, com a participação da PPSA e da Petrobras, podem assegurar previsibilidade e escala. A abertura do mercado, com estímulo à oferta de gás de terceiros e novos produtores, é essencial para ampliar a concorrência e baixar os preços.
No setor de energia elétrica, o foco deve recair sobre o consumo adicional comprovado. A desoneração de encargos como CDE, PROINFA, EER e LRCAP para projetos industriais habilitados pode impulsionar novos investimentos. A previsibilidade deve ser garantida por uma transição gradual de reinserção desses encargos no longo prazo, de forma similar à URV do Plano Real, permitindo que o sistema se torne mais eficiente e a nova energia assuma gradualmente mais custos. Medidas como a depreciação acelerada de equipamentos para eletrificação e descarbonização completam o pacote, barateando o capital e incentivando a modernização industrial.
É crucial entender que não se trata de subsídio. Nenhum consumidor não beneficiado pagará mais. Ao contrário, com a nova carga assumindo parte dos custos atuais de encargos e a diluição dos custos de infraestrutura, todos pagarão menos. Essa energia de transição energética ainda suportará novos investimentos em geração, essenciais para um setor sob pressão. É uma estratégia de país. Com os sinais econômicos corretos, a nova demanda poderá reagir a preços mais eficientes, ajudando o setor a operar com mais eficácia e reduzindo cortes por excesso de oferta.
O Brasil não precisa escolher entre competitividade e sustentabilidade. Ambas as agendas devem ser alinhadas. Um Plano Real para a energia é mais do que uma reforma setorial; é uma decisão estratégica para o futuro do país. Ou usamos nossa vantagem energética para construir uma base industrial moderna, limpa e competitiva, ou continuaremos a ver a indústria nacional perder relevância em um mundo que já reconheceu a energia como um novo diferencial estratégico. A história nos mostra que o Brasil é capaz de grandes pactos diante de desafios imensos. A questão é se teremos a ambição necessária.
*Paulo Pedrosa é presidente da Abrace Energia, associação que representa os grandes consumidores de energia*
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