GRANDE OPERAÇÃO

PF mira Grupo Refit e ex-governador Cláudio Castro em fraude de R$ 52 bilhões

Grupo Refit é alvo de investigação da Polícia Federal por fraude tributária.
Refit — Foto: Reprodução/TV Globo

Operação Sem Refino expõe esquema de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro, com prejuízos bilionários aos cofres públicos.

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, a Operação Sem Refino, que posicionou o Grupo Refit no centro de uma das maiores investigações sobre fraudes tributárias no setor de combustíveis do país. A ação, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, resultou em mandado de prisão para o empresário Ricardo Magro e buscas contra o ex-governador do Rio Cláudio Castro. As apurações miram suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal bilionária, um esquema que teria causado prejuízos incalculáveis aos cofres públicos e comprometido a dignidade da sociedade ao desviar recursos essenciais.

Um relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal pela PF detalha que o ex-governador Cláudio Castro atuou “de forma decisiva” para proteger os interesses do conglomerado empresarial. As investigações apontam para um complexo emaranhado de crimes, incluindo corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal de cifras bilionárias.

A Refit, que se apresenta como uma refinaria tradicional do Rio de Janeiro, destaca em seu site oficial uma trajetória iniciada em 1954, apenas um ano após a criação da Petrobras. Naquela época, a companhia era conhecida como Refinaria de Manguinhos. A empresa atravessou décadas de expansão e crise, chegando a suspender suas operações em 2005.

Em 2008, o Grupo Andrade Magro, liderado pelo empresário Ricardo Magro, adquiriu a refinaria praticamente falida no Rio por cerca de R$ 7 milhões. A família Magro, já conhecida em São Paulo pela administração da rede de postos Tigrão, vislumbrava uma operação muito mais ambiciosa ao investir na Refit.

“Refinaria fantasma”: o cerne da fraude

De acordo com as investigações da Polícia Federal, a Refit teria sido transformada em uma “refinaria fantasma”. A tese central da PF é que a empresa, apesar de se apresentar como tal, praticamente não refinava combustíveis, mas mantinha operações que teriam provocado prejuízos bilionários aos cofres públicos, especialmente dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.

O esquema investigado abrange suspeitas de sonegação fiscal massiva, lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Os investigadores apontam que esse modelo de negócios só prosperou graças ao suposto apoio e conivência de agentes públicos.

Em setembro de 2025, a Agência Nacional do Petróleo interditou a refinaria após apurações indicarem que a empresa importava gasolina declarando o produto como óleo bruto. Essa prática ilícita visava reduzir drasticamente o pagamento de impostos, lesando o erário.

Além disso, a PF identificou fortes indícios de operações simuladas, criadas para dificultar o rastreamento dos verdadeiros donos das cargas de combustível, complicando ainda mais a tarefa de responsabilização.

Pressões políticas e dívidas bilionárias

As suspeitas sobre a proximidade entre o Grupo Refit e o governo estadual do Rio de Janeiro não são recentes e já vinham sendo levantadas havia anos. Em novembro de 2023, a exoneração do então procurador-geral do estado, Bruno Dubeux, gerou grande repercussão nos bastidores políticos.

À época da exoneração de Bruno Dubeux, a Procuradoria-Geral do Estado havia firmado um acordo para que a Refit parcelasse uma dívida estimada em R$ 8 bilhões com o Rio de Janeiro. Contudo, esse pagamento, que poderia ter mitigado parte dos danos aos cofres estaduais, nunca foi concretizado.

No ano seguinte, em 2024, divergências internas no Instituto Estadual do Ambiente também expuseram a pressão exercida em relação à refinaria. Técnicos do órgão alertaram sobre o risco de contaminação ambiental e resistiram veementemente à renovação da licença da empresa. Em meio à crise e aos conflitos de interesse, quatro servidores públicos acabaram exonerados de suas funções.

Maior devedor do país e elos com o crime

A gravidade da situação financeira do conglomerado colocou a Refit no radar da Receita Federal. Em 2025, o grupo foi classificado como “devedor contumaz”, uma categoria utilizada para empresas que empregam a inadimplência tributária como uma estratégia permanente de negócio, causando danos sistemáticos ao sistema fiscal.

Segundo dados do Ministério da Fazenda, as dívidas acumuladas pelas diversas empresas do conglomerado Refit alcançam a impressionante cifra de R$ 52 bilhões, tornando-o o maior passivo tributário do país. No Rio de Janeiro, a Refinaria de Petróleos de Manguinhos, parte do grupo, aparece como a segunda maior devedora do estado, com uma dívida superior a R$ 14 bilhões, atrás apenas da Petrobras.

O Grupo Refit também entrou na mira da Operação Carbono Oculto, que investigava uma extensa rede de empresas suspeitas de auxiliar o Primeiro Comando do Capital (PCC) na lavagem de dinheiro. A empresa, no entanto, nega veementemente qualquer ligação com o crime organizado.

Em novembro de 2025, a Polícia Federal voltou a cumprir mandados de busca e apreensão contra pessoas e empresas vinculadas ao conglomerado, em uma ofensiva focada em fraudes tributárias, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

As investigações também alcançaram o Judiciário fluminense. Em março deste ano, 2026, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) afastou o desembargador Guaraci Vianna de suas funções após a identificação de decisões consideradas controversas no processo de recuperação judicial da refinaria, levantando sérias questões sobre a imparcialidade das decisões.

O impacto no mercado de combustíveis

Segundo investigadores e representantes do setor, o modelo de negócios da Refit teria provocado desequilíbrios significativos e uma concorrência desleal no mercado de combustíveis, prejudicando empresas que atuam dentro da legalidade e, em última instância, o consumidor.

O presidente do Instituto Combustível Legal, Emerson Kapaz, ressaltou nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, que a crescente atuação do crime organizado no setor de combustíveis se dá porque o mercado movimenta volumes financeiros muito superiores aos do tráfico internacional de cocaína.

“O crime organizado entrou no setor porque fatura três vezes mais do que fatura com cocaína. Dentro do setor de combustíveis, o crime organizado fatura R$ 62 bilhões. Em cocaína, segundo o Fórum Nacional de Segurança Pública, eles faturam R$ 22 bilhões”, explicou Kapaz à GloboNews, evidenciando a dimensão do problema.

O dirigente acrescentou que o crime organizado transcendeu sua atuação tradicional nas prisões, passando a operar diretamente em setores estratégicos da economia formal.

“Eu falo que nós não temos mais crime organizado, nós temos a ‘economia do crime’ hoje. Esse pessoal cresceu primeiro nas prisões e agora está se alimentando no setor econômico. É no setor econômico que eles estão faturando uma fortuna de dinheiro — e principalmente em combustíveis, onde você tem uma massa financeira muito grande”, afirmou Kapaz, alertando para a sofisticação das organizações criminosas.

Kapaz revelou que o instituto já havia solicitado a falência da Refit à Justiça, com base nos contundentes indícios de crimes praticados pela refinaria. “Apesar de a gente ver esses escândalos, os avanços são grandes. Então tudo isso está mudando”, ponderou, mostrando otimismo na capacidade de enfrentamento.

O que dizem os envolvidos

Em nota, a defesa do ex-governador Cláudio Castro declarou que ele está “à disposição da Justiça para dar todas as explicações, convicto de sua lisura”. Os advogados afirmaram ainda que todos os procedimentos adotados durante a gestão de Castro obedeceram a critérios técnicos e legais.

A defesa acrescentou que a administração de Castro “foi a única a conseguir que a Refinaria de Manguinhos pagasse dívidas com o estado”, o que, segundo os representantes do ex-governador, reforça sua postura “isenta e institucional” diante dos fatos.

Por sua vez, o Grupo Refit informou que as questões tributárias envolvendo a companhia estão sendo discutidas na Justiça. A empresa afirmou que a atual gestão herdou dívidas fiscais de administrações anteriores e que vem adotando medidas ativas para regularizar os pagamentos.

Segundo a refinaria, mais de R$ 1 bilhão já foi pago ao Estado do Rio de Janeiro no último ano. A empresa declarou ainda que as operações contra a companhia “prejudicam a concorrência” e negou veementemente ter falsificado declarações fiscais para obter vantagens tributárias indevidas.

A Refit também negou “veementemente” ter fornecido combustível ao crime organizado e afirmou que sempre atuou denunciando postos ligados a facções criminosas, buscando afastar-se das graves acusações.

A Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro informou que está colaborando com a operação da PF, mantém cooperação permanente com os órgãos de segurança e que o caso é acompanhado pela corregedoria, garantindo a lisura do processo.

A reportagem não conseguiu contato com as defesas dos outros citados até o fechamento desta edição.

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