SAÚDE SOB SUSPEITA
PF desvenda rede de corrupção na saúde em Mossoró
Operação Mederi revela R$ 8 milhões em contratos suspeitos e R$ 2,2 milhões em saques de dinheiro vivo pela Dismed.
A Polícia Federal expôs, nesta sexta-feira, 15 de maio de 2026, um complexo esquema de suspeitas de corrupção envolvendo contratos de saúde pública no Rio Grande do Norte. A Operação Mederi revela uma rede de repasses ilícitos e desvio de verbas, com a Dismed Distribuidora de Medicamentos e diversas prefeituras potiguares sob escrutínio. Essa investigação não apenas desvenda um possível desvio de milhões de reais, mas também atinge a dignidade de uma sociedade que clama por serviços de saúde eficazes e transparentes, minando a confiança na integridade da gestão dos recursos públicos.
As informações, divulgadas em apuração exclusiva, detalham diálogos suspeitos, saques em dinheiro e menções a percentuais que, segundo a Polícia Federal, podem indicar o pagamento de propina em vários municípios potiguares.
Entre as evidências coletadas, destaca-se uma conversa de março de 2022 entre Oseas Monthalggan Fernandes Costa, sócio-administrador da Dismed, e seu cunhado Maycon Lucas Zacarias Soares. Nas mensagens, Maycon enviou uma foto da sede da Prefeitura de Mossoró para agendar a entrega de um “envelope” a Oseas, que estava dentro do prédio público naquele momento. A PF não detalhou o conteúdo do envelope, mas, dias após essa troca de mensagens, a Dismed recebeu quase R$ 140 mil do Fundo Municipal de Saúde de Mossoró. No mesmo dia, a investigação aponta que parte desse valor foi transferida para contas ligadas aos próprios sócios da empresa e a seus familiares.
Relatórios da investigação indicam que, entre maio e outubro de 2024, a Dismed recebeu mais de R$ 8 milhões de diversas prefeituras. Desse montante, aproximadamente R$ 2,2 milhões foram sacados em espécie. A maior parte dessas retiradas foi efetuada por Maycon Lucas Zacarias Soares, enquanto o próprio Oseas Monthalggan Fernandes Costa também realizou saques diretos. A Polícia Federal suspeita que algumas dessas operações foram fracionadas em valores abaixo de R$ 50 mil para evitar a comunicação automática ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), uma prática que levanta sérias preocupações sobre a transparência das movimentações.
Uma escuta ambiental realizada no escritório da Dismed, em Mossoró, revelou Oseas mencionando uma suposta divisão de valores com percentuais atribuídos a pessoas identificadas como “ALLYISON” e “FÁTIMA”. A PF interpreta “ALLYISON” como uma referência a Allyson Bezerra, o então prefeito de Mossoró. A investigação também aponta que familiares dos sócios teriam sido usados para guardar dinheiro em espécie e realizar movimentações bancárias, com a esposa de Maycon, em mensagens analisadas pela PF, confirmando o transporte de valores armazenados em casa.
A apuração demonstra um rápido crescimento no volume de contratos públicos da Dismed nos últimos anos. A empresa movimentou mais de R$ 65 milhões em uma única instituição financeira entre 2018 e 2023, um volume que a investigação busca entender em sua totalidade.
Além de Mossoró, a Operação Mederi cita contratos firmados com fundos municipais de saúde de várias outras cidades potiguares, incluindo Tibau, Serra do Mel, Upanema, Patu, Porto do Mangue, Campo Grande, Triunfo Potiguar, Areia Branca e Grossos.
A Polícia Federal afirma que as apurações continuam para identificar o destino exato dos recursos, os possíveis beneficiários do esquema e a eventual participação de outros agentes públicos. Este é um processo em andamento, sem decisões definitivas sobre culpa ou inocência, e todos os envolvidos têm o direito à defesa. A sociedade aguarda ansiosamente por respostas, esperando que a justiça prevaleça e que a saúde pública seja devidamente protegida.
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