DESCOBERTA MONUMENTAL
Pesquisadores da Glasgow revelam páginas perdidas do Novo Testamento
Time internacional da Universidade de Glasgow resgata 42 folhas do Códice H, manuscrito do século 6, após rastrear 'imagens espelhadas' de tinta.
Pesquisadores da Universidade de Glasgow anunciaram, nesta quinta-feira, 30 de abril de 2026, a recuperação de 42 páginas do Códice H, um manuscrito crucial do século 6 com cartas de São Paulo. A descoberta, impulsionada por técnicas de imagem avançadas, desvenda vestígios "fantasma" de um texto considerado perdido desde o século 13, quando o códice foi desmembrado no Mosteiro da Grande Lavra, no monte Athos, na Grécia. Este achado é monumental por oferecer insights inéditos sobre a transmissão das escrituras cristãs e a leitura dos textos sagrados na Antiguidade, impactando profundamente nossa compreensão da história religiosa e cultural.
A história dessas páginas remonta ao século 13, quando, no Mosteiro da Grande Lavra, no monte Athos, na Grécia, um manuscrito de séculos foi desmembrado. Suas folhas foram raspadas e reutilizadas, servindo de material para a encadernação de outros volumes. Essa prática, comum na época devido à escassez de materiais e à necessidade de reaproveitar livros deteriorados, marcou o início de um longo período de esquecimento para parte do Códice H.
O manuscrito em questão, o Códice H, representava uma cópia das cartas de São Paulo do século 6, sendo um dos testemunhos mais valiosos para o estudo do Novo Testamento. Contudo, o que não se podia prever é que esse ato de reutilização deixaria uma marca sutil, mas duradoura. Séculos mais tarde, essa 'impressão' involuntária permitiria que a humanidade recuperasse parte do que se julgava para sempre perdido.
O resgate dessas 'páginas fantasma' do Novo Testamento é um triunfo da ciência e da persistência. Uma equipe internacional, liderada pelo Professor Garrick Allen da Universidade de Glasgow, na Escócia, revelou a recuperação de 42 páginas do Códice H, fragmentos que hoje se encontram dispersos em bibliotecas da Itália, Grécia, Rússia, Ucrânia e França. A redescoberta não se deu pela localização física de novos pedaços do manuscrito, mas sim pela engenhosa reconstrução de traços 'fantasma', marcas tênues deixadas pela tinta original no momento em que o pergaminho foi reescrito.
"Os produtos químicos da nova tinta causaram um dano por transferência nas páginas opostas", detalhou Allen. "Isso criou essencialmente uma imagem espelhada do texto na folha vizinha, deixando vestígios que, por vezes, se estendem por várias páginas. Invisíveis a olho nu, esses rastros se tornam muito claros com as mais recentes técnicas de imagem, como um eco do passado que agora podemos ouvir."
Para essa proeza, a equipe colaborou com a Early Manuscripts Electronic Library (Emel), empregando imagens multiespectrais sobre fotografias das páginas preservadas. Esta técnica avançada capta luz em diversos comprimentos de onda, permitindo isolar e realçar os traços outrora imperceptíveis. A autenticidade da descoberta foi robustamente confirmada: especialistas em Paris realizaram testes de radiocarbono no pergaminho, corroborando a datação do manuscrito original no século 6, conforme divulgado pela Universidade de Glasgow.
O valor inestimável dessas páginas recuperadas transcende a mera adição de fragmentos já conhecidos das cartas paulinas. O cerne da descoberta reside em outros aspectos cruciais. Os pesquisadores apontam que as folhas trazem os exemplos mais antigos de listas de capítulos das cartas de Paulo, notavelmente distintas das divisões contemporâneas. Além disso, elas revelam correções e anotações minuciosas feitas por escribas do século 6, um tesouro de evidências sobre como os textos sagrados eram lidos, corrigidos e transmitidos na prática diária, oferecendo um vislumbre direto dos primeiros passos da erudição bíblica.
Adicionalmente, o Códice H possui uma característica que o eleva a um patamar ainda mais valioso. Conforme reportado pelo site The Debrief, ele representa o manuscrito mais antigo conhecido a integrar o "Aparato de Eutálio", um sistema de apoio ao estudo ancestral que enriquecia os textos do Novo Testamento, demonstrando a complexidade do trabalho intelectual da época.
"Considerando que o Códice H é um testemunho tão crucial para nossa compreensão das escrituras cristãs, ter descoberto qualquer nova evidência — e ainda mais essa quantidade — de como ele era originalmente, é simplesmente monumental", declarou Allen, sublinhando a emoção e o impacto da pesquisa.
Este projeto visionário foi viabilizado pelo financiamento do Templeton Religion Trust e do Conselho de Pesquisa em Artes e Humanidades do Reino Unido, parcerias que demonstram o compromisso com a preservação do conhecimento. Para os interessados, já se encontra disponível uma edição digital de acesso livre em codexh.arts.gla.ac.uk, com uma edição impressa atualmente em preparação, prometendo democratizar ainda mais o acesso a esta descoberta histórica.
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