ENGORDAMENTO EM RISCO
Perda de quase 40% na faixa de areia de Ponta Negra, revela estudo da Funpec/UFRN
Monitoramento técnico da Fundação Norte-rio-grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec/UFRN) aponta redução de 39,27% no volume de areia em um ano, especialmente no entorno do Morro do Careca. Prefeitura contesta a ideia de perda definitiva.
Um estudo técnico realizado pela Fundação Norte-rio-grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec/UFRN) revelou uma preocupante redução de 39,27% na faixa de areia da engorda da Praia de Ponta Negra em apenas um ano. A decisão de monitorar a praia, tomada após a conclusão da obra de engordamento, visava acompanhar a estabilidade do novo contorno. O resultado, divulgado com base em dados de fevereiro de 2026 em comparação com fevereiro de 2025, aponta o entorno do Morro do Careca como a área mais afetada e sugere a necessidade de intervenções para conter a erosão, impactando diretamente a paisagem e o potencial turístico do local. A Prefeitura de Natal, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinfra), contudo, discorda da interpretação de perda definitiva do material, atribuindo a redução à dinâmica natural de redistribuição dos sedimentos.
A pesquisa, que analisou o volume de sedimentos, constatou uma perda absoluta de 400,9 mil metros cúbicos. O volume total caiu de 1,02 milhão de metros cúbicos em fevereiro de 2025 para 619,8 mil metros cúbicos em fevereiro de 2026. Essa diminuição expressiva levanta questões sobre a eficácia e a sustentabilidade da obra de engorda a longo prazo, afetando a qualidade do espaço de lazer e a proteção costeira.
Os pesquisadores da Funpec/UFRN ressaltam, no entanto, que a perda de sedimentos observada pode não ser definitiva. O levantamento se concentrou na faixa de areia acima da linha d'água, não considerando a "antepraia" – a área que permanece submersa. Para determinar com precisão se os sedimentos foram apenas deslocados para áreas submersas próximas ou redistribuídos para outros pontos da praia, seriam necessários levantamentos topobatimétricos complementares.
Relatório detalha perdas por zona
O relatório dividiu a área da engorda em três zonas: Área A (Via Costeira), Área B (trecho central de Ponta Negra) e Área C (entorno do Morro do Careca). A Área C foi a mais impactada, com perda de 51,87% de seu volume inicial, correspondendo a 111,1 mil metros cúbicos. A Área A (Via Costeira), apesar de ter um percentual de perda ligeiramente menor (49,74%), registrou a maior redução em volume absoluto, com 207 mil metros cúbicos. Já a Área B (Ponta Negra central) perdeu 82,7 mil metros cúbicos, o que representa 21,21% do seu volume original.
As projeções apresentadas no estudo indicam que, sem intervenções complementares como reaterro, controle de drenagem, redimensionamento de dissipadores e implantação de lagoas de captação, a tendência é de continuidade da perda de sedimentos na Zona C e redistribuição para a Zona B, até que se atinja um novo equilíbrio sedimentar. Essa perspectiva é um alerta sobre a necessidade de um planejamento costeiro mais robusto para garantir a permanência do investimento e a integridade ambiental e urbanística da orla.
Posição da Seinfra
A secretária municipal de Infraestrutura, Shirley Cavalcanti, assegura que o resultado do relatório não significa uma perda definitiva dos 40% do aterro hidráulico. Segundo ela, a redução observada reflete a dinâmica natural de transporte e redistribuição de sedimentos ao longo da praia, sem que isso implique na saída do material do sistema costeiro. Essa divergência de interpretação sublinha a complexidade do gerenciamento de ecossistemas marinhos e a importância de abordagens científicas e técnicas alinhadas.
Eventos erosivos marcaram o primeiro ano da engorda
O relatório da Funpec também documenta uma série de eventos erosivos que ocorreram ao longo do primeiro ano após a conclusão da engorda, com destaque para o entorno do Morro do Careca. Quatro episódios críticos foram listados pelos pesquisadores: chuvas intensas logo após a obra, que abriram um canal erosivo e exigiram recomposição emergencial; o período chuvoso seguinte, com escoamento concentrado de águas provocando nova erosão; a combinação de precipitações, drenagem urbana e marés elevadas, que acelerou a retirada de sedimentos e o avanço do mar; e, por fim, a persistência de sinais de erosão durante a campanha de monitoramento um ano após a obra, indicando que as medidas até então adotadas não foram suficientes para solucionar o problema.

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