RISCO NUCLEAR AFASTADO

Operação secreta remove 13 kg de urânio enriquecido da Venezuela para os EUA

Foto do Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (Ivic) com o reator RV-1.
O reator RV-1, em Caracas, onde o urânio altamente enriquecido foi usado.

Autoridades da Venezuela, EUA e Reino Unido, com apoio da AIEA, concluíram missão secreta para retirar material que poderia ameaçar a segurança global. Urânio era destinado a reator experimental.

Em uma noite no fim de abril, um comboio militar venezuelano percorreu, discretamente, os 160 km entre a sede do Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (Ivic, na sigla em espanhol), nos arredores de Caracas, e o porto de Puerto Cabello, no Estado de Carabobo. No veículo escoltado, estava um contêiner com cerca de 13 kg de urânio altamente enriquecido (com concentração acima de 20%), a caminho dos Estados Unidos.

A operação envolveu os governos da Venezuela, dos Estados Unidos e do Reino Unido, além da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Todos trabalharam durante anos para garantir que o envio ocorresse em segurança, conforme revelado posteriormente. Em 8 de maio, a AIEA explicou que se tratava de 'uma missão conjunta cuidadosamente planejada, realizada sob rígidas medidas de segurança, já que este tipo de material nuclear pode representar um risco de proliferação ou uma ameaça à segurança se cair em mãos erradas'.

Segundo Jack Crawford, pesquisador do Royal United Services Institute, o urânio altamente enriquecido (HEU) é usado em reatores nucleares para fins pacíficos, mas também pode ser empregado para produzir material físsil ou bombas. 'Os 13 kg de urânio altamente enriquecido que foram retirados [da Venezuela] são, teoricamente, suficientes para serem refinados posteriormente e produzir uma pequena arma nuclear', explicou Crawford à BBC Verify. Sua retirada constitui o esforço internacional mais recente para eliminar a possibilidade de que urânio altamente enriquecido destinado a usos pacíficos possa ser adquirido por atores não estatais ou governos que busquem desenvolver armas nucleares.

Há anos, vínculos do governo venezuelano com Irã, Rússia, Cuba e Coreia do Norte têm sido motivo de preocupação para os Estados Unidos e, segundo especialistas, também para a AIEA. A Venezuela chegou a ter urânio altamente enriquecido como combustível para o RV-1, primeiro reator nuclear da América Latina, instalado no início da década de 1960 no Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas, no contexto do programa Átomos para a Paz.

O programa Átomos para a Paz, lançado pelo presidente norte-americano Dwight Eisenhower na década de 1950, propunha colocar a tecnologia nuclear a serviço da humanidade, com a criação de uma agência da ONU (que se tornaria a AIEA) para gerenciar e distribuir material nuclear para fins pacíficos. Os Estados Unidos ofereceram capacitação e tecnologia a países em desenvolvimento. Em março de 1955, o governo Eisenhower autorizou o fornecimento de material físsil e assistência para reatores nucleares aos Estados do 'mundo livre'.

Um ano depois, a Venezuela adquiriu o reator RV-1, que operou até 1991. O fechamento definitivo ocorreu em 1997, quando parte do combustível foi retirada e o restante permaneceu sob custódia segura até agora. O reator foi convertido para esterilização de instrumentos médicos por raios gama. Durante sua operação, o RV-1 utilizou combustível nuclear vindo dos Estados Unidos e do Reino Unido.

A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, aumentou a urgência da operação. Segundo o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Yván Gil, a ação militar norte-americana afetou as imediações da sede do Ivic, confirmando a necessidade de remover o urânio que a Venezuela solicitava há anos. Assim, no início de abril, iniciou-se a operação secreta com a participação das autoridades venezuelanas, da Administração Nacional de Segurança Nuclear dos EUA (NNSA), da AIEA e do governo do Reino Unido.

A AIEA supervisionou as salvaguardas e a verificação técnica. O Reino Unido ficou responsável pelo traslado do urânio até o complexo nuclear de Savannah River, na Carolina do Sul, EUA. A embarcação Pacific Egret, da Nuclear Transport Solutions, transportou o material, deixando de transmitir sua localização via satélite em 11 de abril e chegando a Charleston, Carolina do Sul, em 8 de maio. O Departamento de Estado dos EUA informou que, até o início de maio, a NNSA já havia retirado ou eliminado mais de 7.340 kg de material nuclear para uso militar.

Hoje, a maioria dos reatores de pesquisa pode usar urânio pouco enriquecido (LEU). Isso permitiu a recuperação de cerca de 7 mil kg de urânio altamente enriquecido no mundo, aos quais agora se somam os 13 kg retirados da Venezuela, um passo crucial para a segurança nuclear global.

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