LITERATURA E MEMÓRIA

Obra de S. Yizhar revisita o trauma da fundação do Estado de Israel e a expulsão de palestinos

Capa do livro A História de Hirbet Hiz’a com fundo austero e título em destaque.
Capa da edição brasileira do livro A História de Hirbet Hiz’a, da editora Mundaréu.

Publicação ganha edição brasileira e reabre o debate sobre a ética militar e o custo humanitário da guerra de 1948

A publicação de "A História de Hirbet Hiz’a" no Brasil, em 14/07/2026, traz ao centro do debate público um dos textos mais viscerais da literatura israelense sobre o conflito de 1948. O romance, escrito por S. Yizhar — pseudônimo de Yizhar Smilansky —, narra o processo de destruição de um povoado palestino e a expulsão de seus habitantes sob a perspectiva de um soldado que, apesar de atormentado por dilemas morais, participa ativamente da operação.

Lançado originalmente em 1949, um ano após a criação do Estado de Israel, o livro é um documento sobre o custo humano da guerra. A decisão da editora Mundaréu de lançar a obra no país é acompanhada por um fato raro: o tradutor optou pelo anonimato, uma medida que evidencia o atual clima de tensão e polarização que cerca a questão palestina. Para os leitores contemporâneos, a leitura torna-se um espelho incômodo de eventos que ecoam até os dias atuais, especialmente em relação ao conflito recente em Gaza.

Yizhar Smilansky, que foi parlamentar pelo partido Mapai e lutou na guerra, utiliza a narrativa para dissecar a complexidade de quem se vê, simultaneamente, como executor e observador. No texto, o narrador relata como soldados descrevem os palestinos em termos desumanizantes, comparando-os a vermes ou formigas, enquanto ele próprio, em um exercício de empatia intelectual, descreve-os como "peixes recém-tirados da água".

A obra é frequentemente associada por acadêmicos, como Gil Hochberg, à tradição de "atirar-e-chorar". Esse gênero literário retrata soldados que expressam remorso pela violência cometida, mas que, no final, mantêm-se alinhados à lógica de ocupação. O narrador de Yizhar questiona se os árabes teriam tratado os judeus de forma diferente e busca atenuantes para suas ações, preferindo, ao final, silenciar os próprios pensamentos para evitar a angústia da responsabilidade.

Ao resgatar a destruição de Hirbet Hiz’a, Yizhar questiona o apagamento da história e a normalização da tragédia. "O que, no fundo, perpetramos hoje aqui?", indaga o narrador. Mais do que uma obra ficcional, o livro permanece como uma interrogação ética sobre o legado de 1948, desafiando o leitor a encarar as feridas que, mesmo após décadas, continuam a definir o destino de povos inteiros.

Gostou desta notícia?

Entre no nosso grupo do WhatsApp!

Receba as principais notícias em primeira mão, direto no seu celular. É grátis!

📲 Quero entrar no grupo

Compartilhe esta matéria

Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar!

Deixe seu comentário