SAÚDE DA MULHER

O papel oculto da tuba uterina na infertilidade feminina

Representação visual de uma tuba uterina.
A tuba uterina é essencial para a concepção, mas sua funcionalidade é complexa.

Muitas pacientes enfrentam dificuldades para engravidar mesmo com exames normais; entenda por que a funcionalidade da tuba uterina é frequentemente subestimada.

A infertilidade feminina é uma jornada marcada por diagnósticos complexos e muitas vezes incompreendidos, especialmente quando a investigação se volta para a tuba uterina. O órgão, erroneamente reduzido a um simples canal de passagem entre o ovário e o útero, desempenha um papel biológico vital que vai muito além da permeabilidade.

Conforme explicado por Paulo Galo, especialista em reprodução humana e professor de ginecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a fecundação não ocorre no útero, mas sim dentro da trompa. É nesse canal que o óvulo e o espermatozoide se encontram e onde o embrião inicia seu desenvolvimento nos primeiros cinco dias de vida.

O grande desafio clínico reside no fato de que uma tuba uterina pode estar totalmente aberta — o que é confirmado pelos exames de rotina, como a histerossalpingografia — e, ainda assim, ser disfuncional. Edson Borges, diretor científico do FertGroup Medicina Reprodutiva, esclarece que a saúde do órgão depende da integridade dos cílios internos, responsáveis pelo transporte do embrião. "Não basta que a trompa esteja aberta. Ela precisa ser funcionalmente adequada", afirma.

Processos inflamatórios decorrentes de infecções, como clamídia e gonococo, podem comprometer permanentemente esses cílios sem causar uma obstrução total. Esse cenário cria uma "zona cega" diagnóstica: o casal recebe o rótulo de infertilidade sem causa aparente, enquanto, na prática, a tuba uterina falha em nutrir e conduzir o embrião ao útero. Esse comprometimento também aumenta o risco de gravidez ectópica, onde o embrião se implanta no local errado por não conseguir progredir.

Em relação às intervenções, a cirurgia corretiva é frequentemente ineficaz e pode, inclusive, agravar a situação devido à formação de cicatrizes e aderências. Diante da irreversibilidade de danos por inflamação crônica, a fertilização in vitro (FIV) surge como o recurso principal, contornando a função da tuba uterina ao realizar a fecundação em ambiente laboratorial controlado.

A eficácia desse contorno, contudo, é estritamente limitada pelo fator tempo. Conforme observou um estudo da Universidade de Medicina de Viena, publicado em 2024 no periódico Journal of Clinical Medicine, a idade da mulher é o principal determinante para o sucesso. O alerta dos especialistas é claro: a subestimar a saúde tubária pode significar o desperdício de um tempo precioso para o planejamento familiar.

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