DIAGNÓSTICO REVOLUCIONÁRIO

Novo teste de câncer bucal em 1 hora promete reduzir biópsias desnecessárias

Ilustração de um teste de diagnóstico molecular para câncer bucal.
Novo teste detecta câncer bucal em 1 hora e pode evitar mais de 90% das biópsias desnecessárias

Pesquisadores da Queen Mary University of London desenvolvem exame por escovação que detecta carcinoma espinocelular oral com alta precisão, podendo evitar mais de 90% dos procedimentos invasivos.

Um novo teste molecular, capaz de diagnosticar o câncer bucal em aproximadamente uma hora a partir de uma simples escovação da mucosa oral, representa um avanço promissor na detecção precoce da doença. A pesquisa, liderada por cientistas da Queen Mary University of London e validada com mais de mil amostras, demonstrou que a tecnologia tem o potencial de evitar mais de 90% das biópsias invasivas, que atualmente são realizadas em pacientes com lesões de baixo risco. A publicação na Nature Biomarker Research detalha a validação da terceira geração do teste molecular, conhecido como qMIDS-V3. Diferentemente da biópsia tradicional, que envolve a retirada de um fragmento de tecido e pode levar semanas para obter resultados, o novo método analisa a expressão de quatro genes associados ao câncer bucal em menos de 60 minutos. Uma vantagem adicional é que o qMIDS-V3 utiliza equipamentos compatíveis com os testes de RT-qPCR, já empregados para a detecção da COVID-19, facilitando sua integração em laboratórios existentes. O autor Muy-Teck Teh ressaltou que o teste foi concebido para ser eficaz mesmo em regiões com recursos médicos limitados. A coleta da amostra por meio de escova, realizada por profissionais de saúde treinados, elimina a necessidade de consulta com especialistas para a triagem inicial. O material coletado é estável em temperatura ambiente, dispensando a necessidade de refrigeração ou transporte especializado, o que simplifica a logística para clínicas e laboratórios. Além disso, o qMIDS-V3 emprega materiais de baixo custo, estimados em menos de dez dólares por amostra. Essa característica torna a tecnologia acessível e viável para implementação em diversas comunidades ao redor do mundo, promovendo um acesso mais equitativo ao diagnóstico precoce. Os pesquisadores estão em busca de um parceiro comercial para o desenvolvimento e a aplicação assistencial da tecnologia. A expectativa é que, com essa colaboração, o exame possa ser incorporado à prática clínica em aproximadamente dois anos. **Como funciona o novo teste** O procedimento inicia com a coleta de células de uma lesão suspeita na boca utilizando uma escova citológica estéril. Uma segunda amostra é coletada da mucosa oral saudável do lado oposto para fins de comparação. Em laboratório, o material é submetido a uma análise de RT-qPCR para medir a expressão de quatro genes: INHBA, S100A16, YAP1 e POLR2A. Um algoritmo então calcula um índice de malignidade que auxilia na estimativa do risco de câncer. Os pesquisadores garantem que a coleta de amostras por escovação não interfere em uma eventual avaliação histopatológica posterior e pode ser repetida ao longo do acompanhamento do paciente, pois não causa cortes ou remoção de tecido. **O problema que o exame pretende resolver** O qMIDS V3 foi projetado primariamente para pacientes com lesões bucais suspeitas, onde a principal aplicação é determinar quem realmente necessita de uma biópsia. Há um interesse em expandir seu uso para grupos de maior risco, como fumantes, consumidores de álcool e portadores do HPV, o que exigirá estudos prospectivos detalhados. O diagnóstico precoce do carcinoma espinocelular oral é crucial, mas a dependência da biópsia cirúrgica e do exame histopatológico apresenta desafios. Grande parte das lesões potencialmente malignas na boca acaba sendo benigna, levando muitos pacientes a submeterem-se a procedimentos invasivos dolorosos, com risco de infecções e atrasos no diagnóstico. Em locais como a língua, o desconforto pode ser significativo, desencorajando repetições do procedimento. Atualmente, não há um método quantitativo padronizado para estratificar o risco de lesões sem biópsia cirúrgica. Isso resulta em pacientes sob vigilância contínua ou submetidos a intervenções invasivas desnecessárias. **Estudo envolveu mais de mil amostras** O estudo prospectivo analisou 1.090 biópsias por escovação de 545 pacientes, incluindo 443 com carcinoma espinocelular oral, 63 com leucoplasia oral e 39 com líquen plano oral. Cada participante forneceu duas amostras: uma da lesão e outra da mucosa oral saudável. **Alta precisão para identificar o câncer** O teste demonstrou um desempenho notável ao comparar pacientes com carcinoma espinocelular oral e aqueles com lesões benignas. Obteve AUC de 0,975, sensibilidade de 95,7%, especificidade de 95,1% e acurácia global de 95,5%, com baixas taxas de erro de falso-positivo (4,9%) e falso-negativo (4,3%). Essas métricas confirmam a alta capacidade do teste em diferenciar câncer de alterações benignas ou inflamatórias. **Mais de 90% das biópsias poderiam ser evitadas** Os pesquisadores estimam que o qMIDSV3 pode evitar biópsias invasivas desnecessárias em mais de 90% dos pacientes com lesões potencialmente malignas de baixo risco, enquanto identifica com precisão os casos de câncer que demandam investigação. A ferramenta também pode reduzir encaminhamentos não essenciais, diminuir custos para o sistema de saúde e permitir o monitoramento contínuo e não invasivo de pacientes com lesões persistentes. Teh enfatiza a lacuna atual na ausência de ferramentas objetivas para estratificar o risco e direcionar a biópsia. O qMIDS-V3 oferece essa estratificação molecular, permitindo a redução segura de intervenções invasivas e o monitoramento não invasivo para a maioria das lesões de baixo risco. Em cenários de atenção primária ou serviços odontológicos, o qMIDS-V3 pode auxiliar profissionais a decidir sobre a necessidade de encaminhamento urgente e biópsia em casos de lesões clinicamente ambíguas. Ele também se mostra valioso para o monitoramento de lesões de baixo risco, fornecendo leituras moleculares objetivas sem procedimentos invasivos repetidos. No Reino Unido, anualmente, cerca de 6.000 pessoas são diagnosticadas com câncer bucal. Contudo, dezenas de milhares de outras são encaminhadas pelo fluxo de referência urgente, totalizando mais de 150.000 encaminhamentos, embora apenas uma fração tenha a doença. A aplicação do qMIDSV3 poderia evitar entre 16 mil e mais de 120 mil biópsias desnecessárias por ano, gerando uma economia de milhões de libras para o NHS. Apesar dos avanços, a biópsia tradicional por bisturi continua indispensável para diagnosticar crescimentos em camadas profundas, lesões necróticas, estadiamento tumoral e condições que requerem análise detalhada da arquitetura tecidual. **Teste pode facilitar o acompanhamento de pacientes de alto risco** A capacidade de repetição do teste é uma vantagem crucial. Por não envolver remoção de tecido, a biópsia por escovação pode ser usada para monitorar pacientes com lesões potencialmente malignas persistentes, auxiliando na detecção precoce de transformações cancerígenas. **Câncer bucal continua sendo um problema crescente** Em 2023, o câncer de boca registrou cerca de 422 mil novos casos e aproximadamente 229 mil mortes globalmente. A taxa de sobrevida em cinco anos permanece estável em torno de 50%. Projeções indicam um aumento de 65% na incidência global do carcinoma espinocelular oral até 2050, reforçando a urgência por métodos de diagnóstico rápido e acessível. **Ainda não está disponível na prática clínica** O teste qMIDS-V3 ainda não faz parte da rotina clínica. Sua chegada à prática está prevista para daqui a aproximadamente dois anos, condicionado à formação de uma parceria comercial. Os pesquisadores admitem limitações em seu estudo, como a realização em uma única região da Índia e a ausência de uma coorte independente de indivíduos saudáveis. No entanto, os biomarcadores utilizados já foram validados em populações do Reino Unido, China e diferentes partes da Índia.

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