AVANÇO CONTRA O CÂNCER
Novo comprimido dobra sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático, aponta estudo
Medicamento experimental daraxonrasib demonstrou quase o dobro do tempo de sobrevida em comparação com a quimioterapia, com menos efeitos colaterais graves, segundo pesquisa apresentada na Asco.
Um novo medicamento em forma de comprimido demonstrou o potencial de dobrar a sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas metastático, representando um avanço significativo no tratamento de um dos tipos de câncer mais letais. A decisão de avançar com a pesquisa e a esperança em um novo tratamento surgiram a partir dos resultados animadores apresentados no último domingo, 31 de maio. O daraxonrasib, como é chamado o medicamento experimental, atua bloqueando uma proteína mutada crucial para o crescimento tumoral em mais de 90% dos casos de câncer pancreático, um alvo que por décadas resistiu a terapias eficazes.
A relevância desta descoberta reside na esperança renovada para pacientes e familiares. "Embora não cure o câncer, é um grande avanço", afirma Zev Wainberg, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, um dos líderes do estudo. A pesquisa envolveu 500 pacientes cujo câncer metastático já não respondia ao tratamento convencional. Ao serem divididos aleatoriamente entre o daraxonrasib oral e a quimioterapia, aqueles que receberam o comprimido diário apresentaram uma sobrevida média de 13,2 meses, quase o dobro dos 6,7 meses do grupo que seguiu com a quimioterapia tradicional. Esta diferença substancial, a primeira a ser demonstrada sobre a quimioterapia padrão, foi publicada no New England Journal of Medicine e divulgada durante o encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago.
O impacto humano dessa notícia é profundo. Rachna Shroff, do Centro de Câncer da Universidade do Arizona, descreveu a emoção ao ver os resultados: "Trato pacientes com câncer de pâncreas há 16 anos e cheguei a chorar". Ela ressalta que o medicamento experimental proporcionou aos pacientes um benefício duradouro e significativo, permitindo que continuassem o tratamento com mais qualidade de vida. Embora os efeitos do comprimido possam diminuir com o tempo, os pacientes o utilizaram por um período significativamente maior do que aqueles em quimioterapia, relatando menos dor e melhora na qualidade de vida à medida que os tumores encolhiam. A análise contínua sugere que a diferença na sobrevida pode ser ainda maior.
Brian Wolpin, do Instituto de Câncer Dana-Farber, apresentou as descobertas, prevendo que o daraxonrasib se torne "um novo padrão de tratamento" para o câncer de pâncreas metastático previamente tratado. Pesquisas futuras explorarão o uso do medicamento em estágios mais iniciais da doença, com o objetivo de verificar se a redução tumoral pode tornar mais pacientes elegíveis para cirurgia. Os efeitos colaterais mais comuns observados foram erupções cutâneas, por vezes graves, e feridas na boca, considerados manejáveis em comparação aos benefícios.
A Revolution Medicines, responsável pelo financiamento do estudo, já vê a Food and Drug Administration (FDA) dos EUA planejando acelerar a análise do medicamento. A agência também autorizou um programa de "acesso expandido" para pacientes elegíveis. O câncer de pâncreas, um dos mais letais devido à dificuldade de diagnóstico precoce, afeta milhares de pessoas anualmente. Nos EUA, estima-se 67 mil novos casos e mais de 52 mil mortes em 2026, com uma taxa de sobrevida global em cinco anos de 13%. No Brasil, o Inca projeta 13.240 novos casos para o mesmo ano. O novo medicamento, que atinge mutações na família dos genes RAS, consideradas por muito tempo "inacessíveis a medicamentos", representa um avanço crucial, com potencial para transformar o cenário terapêutico desta doença.
A publicação no New England Journal of Medicine, apresentada no domingo, 31 de maio, durante o encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), em Chicago, marca um ponto de virada na luta contra o câncer de pâncreas. Andrew Coveler, do Fred Hutchinson Cancer Center, avalia que "ele funciona de forma drasticamente diferente" e mudará o tratamento. Pesquisas adicionais investigarão subtipos de KRAS e a eficácia do medicamento, enquanto outras abordagens, como vacinas para prevenir recorrência, estão em desenvolvimento.
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